Norbert elias-a-sociedade-dos-individuos

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    13-Dec-2014
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  • 1. A SOCIEDADE DOS INDIVDUOS Com um ttulo sugestivo, este livro ergue-se como testemunho da coerncia intelectual de Norbert Elias. Consistindo de trs ensaios interrelacionados - o primeiro redigido em 1939, o segundo entre 1940 e 1950 e o terceiro em 1987 , A sociedade dos indivduos aborda uma questo central: qual a relao entre a pluralidade de pessoas e a pessoa singular a que chamamos "indivduo", e da pessoa singular com a pluralidade? O propsito de Elias ao acoplar termos aparentemente antagnicos como "sociedade" e "indivduo" promover a antecipao de um uso mais antigo, estabelecendo um novo modelo da maneira como os seres humanos individuais ligam-se uns aos outros numa pluralidade, isto , numa sociedade. Questo cardeal da sociologia, detectada por Norbert Elias h mais de cinqenta anos, essa integrao j era percebida em seu estudo sobre O processo civilizador (Jorge Zahar, 2 vols.,1990, 1993), particularmente no segundo, volume, "Formao do Estado e civilizao" (produzido simultaneamente ao primeiro ensaio do presente livro). A o problema da relao entre indivduo e sociedade aflora constantemente, ficando claro a que ponto cada pessoa influenciada, em seu desenvolvimento, pela posio em que ingressa no fluxo do processo social. Tentativa inicial do autor de resolver o problema, a primeira parte deste livro indica sua importncia para os fundamentos da sociologia como cincia. A parte II assinala o retorno a um tema central na obra de Elias: o de que os in- divduos e a sociedade no so entidades estanques, mas apenas perspectivas diferentes de uma mesma instncia. A parte III, mais concreta, reflete as mudanas na maneira como a sociedade compreendida, e at na maneira como as diferentes pessoas que formam essas sociedades entendem a si mesmas: em suma, a auto-imagem e a composio social - aquilo que o autor chama habitus-dos indivduos. A sociedade dos indivduos, vencedor do Prmio Europeu Amalfi de Socologia e Cincias Sociais em 1988, mostra-nos Norbert Elias escrevendo no auge de sua capacidade. NORBERT ELIAS nasceu em Breslau em 1897 e morreu em Amsterdam em 1990. Socilogo alemo, estudou medicina, filosofia e psicologia nas universidades de Breslau e Heidelberg; em seguida, trabalhou com Karl Mannheim em Frankfurt. Abandonou a Alemanha nazista em 1933, indo primeiro para a Frana e depois para a Inglaterra, onde foi professor de sociologia na Universidade de Leicester (1945-62); lecionou mais tarde na Universidade de Gana (1962-4) e no Centro de Pesquisa Interdisciplinar em Bielefeld. Desenvolveu uma abordagem a que chamou "sociologia figuracional", que examina o surgimento das figuraes sociais como conseqncias
  • 2. inesperadas da interao social. Seu trabalho mais conhecido O processo civilizador (2 vols., 1939), em que analisa os efeitos da formao do Estado sobre os costumes e a moral dos indivduos. (Extrado do Dicionrio do pensamento social do sculo XX, Jorge Zahar, 1996.) A SOCIEDADE DOS INDIVDUOS Sementes de trigo espargidas ao vento Saber para guem encontrar NORBERT ELIAS A SOCIEDADE DOS INDIVIDUOS Organizado por MICHAEL SCHRTER Traduo: VERA RIBEIRO Reviso tcnica e notas: RENATO JANINE RIBEIRO Jorge Zahar Editor Rio de Janeiro Publicado originalinente sob o titulo Die Gesellschaft der Individuen por Suhrkamp Verlag, de Frankfurt, Alemanha. CopyrightC~ 1987 by Norbert Elias Copyright(c) 1990 by Norbert Elias Stitchting Edited by Michael Schr~ter Copyright(c) 1994 da edio ~ lngua portuguesa: Jorge Zahar Editor Ltda. rua Mxico 31 sobreloja 20031-144 Rio de Janeiro, RJ Tel.: (21) 2240-0226 / Fax: (21) 2262-5123 e-mail: [email protected] site: www.zahar.com.br Todos os direitos reservados. A reproduo no-autorizada desta publicao, no todo ou em parte, constitui violao de direitos autorais. (Lei 9.610/98) Edio para o Brasil. Capa: Srgio Campante sobre Fricdrichstrnsse de George Grosz, detalhe CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. Elias, Norbert, 1897-1990 A sociedade dos indivduos/Norbet Elias; organizado por Michael Schter; traduo, Vera I R~eiro; reviso tcnica e notas, Renato Janne Ribeiro. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994. Traduo de: The society of indviduals. ISBN 85-7110-278-3 1. Indivduo. 2. Sociedade. I. Schroter, Michael II. Ttulo. I CDD - 302.5 93-1263 CDU -301. 154 Sumrio Prefcio.................................... 7 PARTE I A Sociedade dos Indivduos (1939) . . . . . . . . . , . , . , , .11 Notas...... ............................... 59
  • 3. PARTE II Problemas da Autoconscincia e da Imagem do Homem (os anos 1940 e 50) . . ........ 61 Os Seres Humanos como Indivduos e como Sociedade, e suas Auto-imagens Inspiradas no Desejo e no Medo...........63 Nota . . . ..............................79 As Esttuas Pensantes ...................80 A Individualizao no Processo Social ...102 PARTE III Mudanas na Balana Ns-Eu (1987)..... 127 Notas ................................ 190 Posfcio do Organizador.................. 194 ndice Remissivo ......................... 195 Para meus amigos Hermann e Elke Korte Prefcio* A relao da pluralidade de pessoas com a pessoa singular a que chamamos "indivduo", bem como da pessoa singular com a pluralidade, no nada clara em nossos dias. Mas freqente no nos darmos conta disso, e menos ainda do porqu. Dispomos dos conhecidos conceitos de "indivduo" e "sociedade" , o primeiro dos quais se refere ao ser humano singular como se fora uma entidade existindo em completo isolamento, enquanto o segundo costuma oscilar entre duas idias opostas, mas igualmente enganosas. A sociedade entendida, quer como mera acumulao, coletnea somatria e desestruturada de muitas pessoas individuais, quer como objeto que existe para alm dos indivduos e no passvel de maior explicao. Neste ltimo caso, as palavras de que dispomos, os conceitos que influenciam decisivamente o pensamento e os atos das pessoas que crescem na esfera delas, fazem com que o ser humano singular, rotulado de indivduo, e a pluralidade das pessoas, concebida como sociedade, paream ser duas entidades ontologicamente diferentes. Este livro concerne quilo a que se referem os conceitos de "indivduo" e "sociedade" em sua forma atual, ou seja, a certos aspectos dos seres humanos. Oferece instrumentos para pensar nas pessoas e observ-las. Alguns deles so bastante novos. incomum falar-se em uma sociedade dos indivduos. Mas talvez isso seja muito til para nos emanciparmos do uso mais antigo e familiar que, muitas vezes, leva os dois termos a parecerem simples opostos. Isso no basta. Libertar o pensamento da compulso de compreender os dois termos dessa maneira um dos objetivos deste livro. S possvel alcan-lo quando se ultrapassa a mera crtica negativa utilizao de ambos como opostos e se estabelece um novo modelo da maneira como, para o bem ou para ______________________ * A iniciativa de Michael Schrter e a colaborao com ele
  • 4. possibilitaram a publicao deste livro nesta forma, que considero experimental. Gostaria de expressar-lhe meu agradecimento. Sou tambm grato a meus assistentes, Rudolf Knijff e Jan-Willem Gerritsen, por sua indispensvel ajuda. 8 A sociedade dos indivduos o mal, os seres humanos individuais ligam-se uns aos outros numa pluralidade, isto , numa sociedade. Que esse um dos problemas cardeais da sociologia foi algo que se tornou claro para mim h cerca de 50 anos, quando trabalhava em meu estudo intitulado O processo civilizador.* Na verdade, os primeiros esboos de A sociedade dos indivduos foram concebidos como parte da teoria abrangente contida no segundo volume daquele livro. Tenho ainda algumas provas do livro sobre a civilizao, cujo contedo compe a Parte I do texto aqui publicado. No decorrer de meu trabalho no livro anterior, o problema da relao entre indivduo e sociedade aflorava constantemente. que o processo civilizador estendia-se por inmeras geraes; podia ser rastreado ao longo do movimento observvel, numa determinada direo, do limiar de vergonha e constrangimento. Isso significava que as pessoas de uma gerao posterior ingressavam no processo civilizador numa fase posterior. Ao crescerem como indivduos, tinham que se adaptar a um padro de vergonha e constrangimento, em todo o processo social de formao da conscincia, posterior ao das pessoas das geraes precedentes. O repertrio completo de padres sociais de auto-regulao que o indivduo tem que desenvolver dentro de si, ao crescer e se transformar num indivduo nico, especfico de cada gerao e, por conseguinte, num sentido mais amplo, especfico de cada sociedade. Meu trabalho sobre o processo civilizador, portanto, mostrou-me com muita clareza que algo que no despertava vergonha num sculo anterior podia ser vergonhoso num sculo posterior e vice-versa. Tinha plena conscincia de que tambm eram possveis os movimentos no sentido oposto. Mas, qualquer que fosse a direo, a evidncia da mudana deixava claro a que ponto cada pessoa era influenciada, em seu desenvolvimento, peia posio em que ingressava no fluxo do processo social. Depois de trabalhar por algum tempo, ficou claro para mim que o problema da relao do indivduo com os processos sociais ameaava desarticular a estrutura do livro sobre a civilizao, apesar dos estreitos vnculos entre os dois temas. O livro sobre a civilizao, de qualquer modo, j estava bastante longo. Assim, tratei de conclu-lo, retirando dele as partes em que tentava esclarecer a relao entre sociedade e indivduo. Esse tema me fascinava. Sua importncia para os fundamentos da sociologia como cincia foi ficando cada vez ma