Lembrando Norbert Elias

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Lembrando Norbert EliasT E R E Z A C R I S T I N A KJRSCHNER

centenrio do nascimento de Norbert Elias uma oportunidade para refletir sobre alguns aspectos de sua vasta produo intelectual. Apesar de instigante e inovadora, sua obra per'I maneceu praticamente desconhecida no meio acadmico at a dcada de 1970. Comparado com outros socilogos alemes contemporneos que tambm vivenciaram o exlio provocado pelo nazismo - Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Karl Manheim -, Elias no obteve uma alta cotao na bolsa de valores acadmicos como eles. Em uma entrevista de 1984 Elias referiu-se sua situao profissional at os anos setenta: "Eu era um marginal e essa situao s mudou quando deixei a Inglaterra." Exilado na Inglaterra desde 1935, apenas em 1954 conseguiu um posto de lecturer no departamento de Sociologia da Universidade de Leiscester, onde dois anos mais tarde obteve o cargo de professor, aos cinqenta e nove anos. At ento pesquisava em Londres, graas ao auxlio financeiro de uma fundao judaica. Foi somente no final da dcada de 1960 que Elias comeou a receber convites para lecionar em universidades europias como professor visitante. Mas foi na Holanda, onde se instalou a partir de 1984, que criou um crculo de discpulos dispostos a dar continuidade sua linha de trabalho. Referindo-se a seus alunos comentava: "...fico triste de ver que nenhum dos meus alunos de Leicester seguiu os caminhos que eu havia esboado. A maioria considerava meu pensamento, centrado nos processos de longa durao, como algo marginal; e eles no estavam completamente enganados, pois suas carreiras teriam sido prejudicadas se t i vessem seguido o meu caminho. Pensar em termos de processos de longa1

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Professora do Departamento de Histria da Universidade de Braslia. Este texto foi escrito em 1997 com o objetivo de lembrar o centenrio do nascimento do socilogo. TEXTOS DE HISTRIA, rol. 7, n 1/2, 1999

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durao no estava na moda em sociologia." A marginalidade acadmica, entretanto, no o fazia duvidar da originalidade da sua contribuio: "...eu me considero um inovador em sociologia, e as inovaes, no fundo, no eram aceitas naquela poca. Cada vez que exprimia uma idia no habitual nas reunies do departamento, provocava uma discusso com as geraes mais jovens... Assim que terminava minha exposio as hostilidades comeavam..." Uma dessas ocasies foi quando Elias criticou a concepo de conhecimento cientfico de Karl Popper, o que pareceu uma atitude no s inusitada como espantosa vinda de algum to pouco conhecido academicamente como ele. Elias sabia que para ser aceito pelo establishment eram necessrias muitas concesses, o que no estava disposto a fazer. "Verdadeiramente, eu sinto hoje um certo orgulho de nunca ter cedido, mesmo que isso tenha sido difcil. Sempre tive conscincia de que as opinies dominantes eram uma impostura. Teria sido possvel ter uma existncia mais fcil na Inglaterra se tivesse aceito as idias dominantes, mas no me permiti compromissos...Se h algo em mim que considero positivo o fato de nunca ter me deixado corromper pelos modismos, quaisquer que fossem. Nunca me autorizei a dizer qualquer coisa sob o pretexto de que estava na moda."5 6

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Recusando os modismos intelectuais e o sucesso acadmico fcil, Elias fez um percurso prprio. Sua posio perifrica no meio acadmico o deixava, at certo ponto, livre das presses do mundo institucionalizado das cincias sociais, o que lhe permitia trabalhar sua maneira tanto temas e objetos de pesquisa quanto caminhos metodolgicos. Elias no seguia o hbito, comum aos acadmicos, de iniciar seu textos com uma reviso da literatura ou com uma apresentao dos debates contemporneos sobre o tema que pesquisava. Normalmente ia diretamente ao objeto da sua pesquisa. Deixava para seus leitores a tarefa de pesquisar aproximaes e afastamentos com relao a outras abordagens sobre o assunto. A parcimnia de referncias bibliogrficas contemporneas em suas obras dava margem a comentrios de que era um autor desatualizado, ao que Elias retrucava tranqilamente afirmando que as pessoas que o criticavam tinham o fetiche pelo novo: um livro antigo podia ser ainda a melhor referncia para o tratamento de um determinado tema, da mesma maneira que livros novos no

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necessariamente representavam avanos apenas porque eram novos. Roger Chartier, por exemplo, no prefcio edio de bolso francesa de A sociedade de corte, observou que, ao publicar em 1969 um livro escrito em 1933, Elias no atualizou as referncias bibliogrficas, com exceo de uma obra inglesa sobre Luis XIV, de 1967. Em sua trajetria intelectual, Elias acumulou uma bagagem muito ampla. A formao acadmica cobriu as reas de medicina, filosofia, psicologia e sociologia. Sua vida no foi menos rica de experincias: durante a primeira guerra mundial esteve no front encarregado de instalaes de linhas telefnicas. Depois da guerra trabalhou em uma fbrica de fundio de ferro, foi psicanalisado em Londres ao longo de vrios anos e, em parceria com o psicanalista Fuchs, seu conhecido desde a poca de Frankfurt, e outros psiquiatras, contribuiu para dar forma ao que se denominou posteriormente psicanlise de grupo. Fuchs reconheceu que o socilogo alemo exerceu uma influncia considervel na teoria da psicanlise de grupo, o que pode ser observado nos agradecimentos que lhe dirigiu na primeira edio do seu livro. Elias foi um dos membros fundadores do Group Analytic Society e, tendo recebido a formao apropriada, chegou a dirigir, ele prprio, alguns grupos. Sua principal contribuio para esse trabalho foi a idia de que no se pode separar o indivduo da sociedade de que faz parte. Ambos constituem nveis de anlise distintos, porm inseparveis. No incio da dcada de 1960 Elias partiu para Gana, onde por dois anos lecionou sociologia. "Muitos dos meus amigos pensaram que eu estava louco - sobretudo porque eu estava com mais de sessenta anos. Mas tenho uma curiosidade imensa por tudo que desconhecido." Em vrias passagens de sua obra deixou transparecer como experincias intelectuais estavam intimamente relacionadas com as existenciais. Como bem observaram Alain Garrigou e Bernard Lacroix, "o interesse existencial alimentava e reforava o interesse intelectual." A formao acadmica diferenciada e a rica experincia de vida deram-lhe a possibilidade de desenvolver uma viso de mundo ampla e distanciada com a qual procurava satisfazer sua insacivel curiosidade. Descrevia o trabalho do cientista social como uma "viagem de descoberta" ao reino, em grande parte desconhecido, da sociedade. Elias era considerado excelente profes7 8 9 10

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sor, e foi reconhecido no s pela sua erudio mas tambm pela rica viso de mundo moldada no apenas nas bibliotecas mas na sua prpria experincia de vida. Sobre a estadia em Gana, por exemplo, Elias comentou: "Eu seria tentado a dizer que foi, para um homem como eu, uma experincia indispensvel. Por exemplo, sempre pensei ser necessria uma reviso da teoria que Freud nos legou. Pensava que a formao do super-ego, da mesma maneira que a emergncia do ego, deveriam ser diferentes da nossa em sociedades mais simples, e a experincia de Gana decididamente me deixou muito vontade com essa idia."" A produo eliasiana vasta e complexa; parte foi escrita em alemo, parte em ingls. A publicao de alguns textos ocorreu muito tempo aps sua produo e, freqentemente, margem da carreira universitria. Trabalhos antigos, provisoriamente abandonados, foram retrabalhados e associados a outros mais recentes, como no caso da sua ltima obra publicada em vida, Os alemes. Determinados temas foram objeto de sua reflexo por quase cinqenta anos, como a dicotomia indivduo/sociedade, alguns trabalhos s foram publicados postumamente e outros ainda permanecem inditos. Essas especificidades do um carter particular a sua obra. Alm disso, Elias pesquisou muitas questes diferentes, que abrangeram temas to variados como os costumes e os comportamentos na idade moderna, a gnese do Estado ocidental, as diferentes concepes sobre o tempo, o conceito de vida quotidiana, a questo do smbolo, o viver e o morrer, o esporte enquanto tema sociolgico, etc. Apesar desta variedade de temas, todas as suas pesquisas, sejam elas de carter histrico ou sociolgico, seguem um mesmo eixo de preocupaes e, de fato, esto intimamente relacionadas. Sua viso do ser humano global, e se contrape quelas que se restringem a aspectos particulares de sua existncia. Na perspectiva eliasiana, no faz sentido pesquisar os seres humanos do ponto de vista exclusivo, por exemplo, das suas atividades econmicas ou polticas, ou ento perceb-los apenas como produtores de idias ou depsitos de sentimentos e emoes. Ele priorizou a sntese e no a anlise, e em toda sua obra observa-se o cuidado de evitar a compartimentao das pessoas e das sociedades em categorias rgidas. Elias foi, sem dvida, um pensador11 13

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que olhou com um ar bastante crtico as excessivas especializaes nas cincias humanas, "...pode-se facilmente derrubar as cercas artificiais que hoje erigimos no pensamento, dividindo os seres humanos em vrias reas de controle: os campos, por exemplo, dos psiclogos, dos historiadores e dos socilogos. As estruturas da psique, da sociedade e da histria humanas so indissociavelmente complementares e s podem ser estudadas em conjunto. Elas no existem e se movem na realidade com o grau de isolamento presumido pelas pesquisas atuais. Formam, ao lado de outras estruturas, o objeto de uma nica cincia humana."14

A viso de mundo eliasiana exige que se supere a tendncia de reduzir o estudo das sociedades e do ser humano a esquema