LOWY, Michael e SAYRE, Robert

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  • 43CRTICA MARXISTA

    A corrente romnticanas cincias sociaisda Inglaterra: EdwardP. Thompson eRaymond Williams

    ROBERT SAYRE E MICHAEL LWY*

    Num trecho dos Grundrisse, Marx formula as seguintes observaessobre a perspectiva romntica: to absurdo aspirar ao retorno deuma plenitude original quanto crer que a Histria imobiliza-se para sempreno vcuo do presente. O ponto de vista burgus nunca avanou almdesta anttese entre ele mesmo e o ponto de vista romntico, e assim esseltimo acompanha-lo-, como sua anttese legtima, at seu final feliz.1

    Esse trecho interessante no s porque demonstra a atitude de Marxdiante do romantismo (ainda que localizando-se alm da anttese numaposio dialtica, ele afirma ao mesmo tempo a legitimidade essencial dacrtica romntica); mas tambm porque sugere que o ngulo de visoromntico s desaparecer junto com o seu antagonista, a sociedadecapitalista.

    Alm disso, a definio lapidar, do ponto de vista romntico, dadapor este texto a aspirao ao retorno plenitude original representao germe da concepo da viso do mundo romntico que desenvolvemosalhures, inclusive nas pginas desta revista.2 Mas se para ns a essnciada viso romntica a rejeio e a crtica da modernidade capitalista/industrial em nome de valores tirados do passado pr-moderno, ela est

    * Robert Sayre pesquisador junto ao CNRS, Paris, Frana. Michel Lwy pesquisador junto aoCNRS e colaborador internacional de Crtica Marxista. Traduo de Michle Saes.

    1. Karl Marx, Grundrisse (1857-58). Middlesex, Penguin. 1973, p. 162.

    2. Robert Sayre e Michael Lwy, Figures du romantisme anticapitaliste. In: LHomme et lasocit, p. 69-70 (julho-dezembro 1984); ver tambm Lwy e Sayre, Rvolte et mlancolie: Leromantisme contre-courant de la modernit. Paris, Payot. 1992.

  • 44 A CORRENTE ROMNTICA NAS CINCIAS SOCIAIS DA INGLATERRA...

    longe de ser sempre passadista; existe toda uma gama de posiesromnticas de esquerda ou revolucionrias inclusive um romantismomarxista que procuram no passado uma inspirao para a invenodum futuro utpico.

    Ora, como o capitalismo no atingiu de modo nenhum seu final felizno sculo XX contrariamente s esperanas de Marx , constata-seefetivamente, ao longo deste, manifestaes renovadas da viso romnticaem diversas tonalidades polticas e em todos os campos da cultura, inclusivena cincias sociais. A Inglaterra um exemplo notvel, dada a presena deuma corrente romntica influente nas cincias humanas contemporneas.Concentradas particularmente, dum lado, na histria econmica e social, e,do outro, nos estudos literrios, artsticos, e culturais, mas muitas vezesamplamente interdisciplinares, essas tendncias so tributrias duma longae rica tradio de crtica social romntica do sculo XIX ingls, a tradiode Carlyle, Ruskin, William Morris.

    Isto j era verdade, no que diz respeito a uma etapa anterior da cinciasocial no sculo XX, como apontado por Raymond Williams em Culturae sociedade, que estuda essa tradio:

    O autor de A religio e o surgimento do capitalismo, escreve ele naintroduo do seu captulo sobre R. H. Tawney, um historiador profissionalque os profetas e crticos do sculo XIX no precisavam respeitar. Entretanto,parece que o trabalho duma escola inteira de historiadores econmicos e sociaisdo nosso prprio sculo se orientou essencialmente para a investigaodetalhada dos julgamentos gerais herdados do sculo XIX.3

    Essa observao, formulada a respeito de historiadores da poca entreas duas guerras, aplica-se igualmente muito bem ao prprio Williams e aalguns dos seus contemporneos...

    Entre as sensibilidades romnticas no campo dos estudos culturais,alm de Raymond Williams preciso sobretudo mencionar RichardHoggart, co-fundador junto com Williams dum novo campo intelectualna Inglaterra, precisamente nomeado cultural studies, que analisa tanto acultura popular, a cultura e os meios de comunicao de massas como asprodues das elites. Em The uses of literacy (1957), Hoggart esboa umretrato da cultura tradicional da classe operria tal como ela sobreviviaainda na sua prpria infncia, depois mostra como a arte e a cultura demassa que se impem cada vez mais em jornais e revistas, no rdio, etc.,esto adulterando-a, seno eliminando-a por completo. Ele sublinha queas razes da cultura operria so de fato camponesas, e que ela est fundadasobre os valores da comunidade (local e familiar) e do lao afetivo; dooutro lado, a cultura de massa representa a voz da modernidade, veiculando

    3. Raymond Williams. Culture and society. 1780-1950. Nova York. Harper & Row. 1958, p. 216.

  • 45CRTICA MARXISTA

    os valores duma sociedade comercial concorrencial, egosta e corrompida.Mesmo procurando equilibrar as suas apreciaes e evitar uma idealizaoda velha cultura operria e camponesa ou uma demonizao do novomundo, Hoggart lamenta profundamente a mutao que acontece, numatica que se revela claramente romntica.

    Encontra-se tambm essa perspectiva, sob uma forma mais ou menosacentuada, em um certo nmero de historiadores com tendncias polticasdiferentes ( possvel observar a mesma diversidade poltica em Hoggarte Williams, o primeiro sendo muito mais moderado que o segundo, nesteponto de vista). Citemos em primeiro lugar o livro muito influente dePeter Laslett, The world we have lost (1965).4 Laslett, sendo no-marxista,mas compartilhando entretanto algumas idias com o marxismo, descrevenessa obra a estrutura socioeconmica e a vida cotidiana da Inglaterraantes da revoluo industrial. Para ele, o mundo moderno trazido poressa revoluo constitui uma alienao: Houve uma poca, escreveele resumindo seu quadro do mundo perdido, onde a vida inteira sedesenvolvia na famlia, dentro dum crculo de rostos familiares e amados,de objetos conhecidos e acariciados, todos altura do homem. Essa pocaest terminada para sempre.5

    Dentre os historiadores marxistas, Eric Hobsbawm manifesta, mas snuma certa medida, uma sensibilidade romntica. suficiente ler seuRebeldes primitivos (1959) para se dar conta do seu interesse pelas formasarcicas do movimento social, sejam os bandidos sociais, os movimentosmilenaristas no sul da Itlia ou os camponeses anarquistas da Andaluzia.Como marxista e militante comunista, ele no se identifica de modo nenhumcom os mtodos ou rituais desses movimentos, mas, nem por isso ele menos atrado e at fascinado por esses fenmenos pr-modernos,negligenciados como marginais ou sem importncia pelos historiadores,em parte por causa dos preconceitos racionalistas ou modernistas.6

    Podemos dar como exemplo mais recente o grupo de historiadoresreunidos na revista History Workshop (Raphael Samuel, Barbara Taylor,etc.). Trata-se duma revista socialista e feminista onde diferentes ticas secruzam, mas onde detectamos muitas vezes uma afinidade com ahistoriografia romntica. Assim, um editorial de 1980 questiona a tendnciaprogressista ou modernista do socialismo:

    4. O contedo do livro foi exposto numa srie de emisses na BBC, e o livro conheceu vriasreimpresses e reedies. Houve tambm uma traduo francesa: Un monde que nous avonsperdu. Paris, Flammarion. 1969.

    5. Peter Laslett, The world we have lost. 2 ed. Nova York, Scribners. 1973, p. 22 (1 edio:1965).

    6. Eric Hobsbawm, Primitive rebels: studies in archaic forms of social movement in the 19th and20th centuries. Nova York, Norton. 1959, p. 2.

  • 46 A CORRENTE ROMNTICA NAS CINCIAS SOCIAIS DA INGLATERRA...

    Recentemente (...) o progresso tecnolgico do capitalismo ocidental e adesorganizao crescente da planificao nos estados socialistas abalaram aequao otimista que identificava o socialismo com a cincia (...). Numa pocaque existiu sombra da ameaa de uma guerra atmica, e que est agoraperseguida pelo espectro do desemprego tecnolgico e da destruio ecolgica,a cincia no se apresenta mais, de um modo simples, como fora libertadora.7

    Mas para ilustrar a corrente romntica nas cincias sociais inglesas,vamos observar agora mais de perto dois autores em particular: o crticocultural Raymond Williams e o historiador Edward Palmer Thompson,e isso, por vrias razes. Primeiro, cada um representa um dos doisprincipais campos de pesquisa j evocados sem que neles esses camposestejam de modo algum compartimentados (Thompson escreveu muitosobre os poetas e Williams sobre a histria socioeconmica). Depois, assuas contribuies so de grande envergadura, e eles desempenharamum papel de primeiro plano, no s nas suas especialidades mas tambmna vida intelectual e poltica inglesa em geral. E enfim: cada um encarna,de um modo particularmente coerente e frutfero, a viso romntica nasua forma revolucionria.

    Apesar de algumas divergncias e polmicas ocasionais,8 s podemosconstatar uma profunda afinidade entre E. P. Thompson e Raymond Williams,baseada na tentativa de reativar, esquerda, a tradio romntica. Os seusdois livros pioneiros aparecem na mesma poca: William Morris de Thompsonem 1955, e Cultura e sociedade de Williams em 1958. No posfcio de 1976a William Morris (do qual uma verso resumida aparece neste nmero deLHomme et la Socit), Thompson se refere explicitamente ao paralelismodas suas posturas naquela poca: desconhecidos um do outro, nstrabalhamos, ambos, sobre a crtica romntica do utilitarismo. E no ltimolivro publicado ainda em vida, Customs in common, ele homenageiacalorosamente a soberba revoluo da tradio romntica desencadeadapor Williams em Cultura e sociedade.9

    No portanto por acaso que eles participam, ambos, da redao dofamoso May day Manifesto de 1967-1968, documento da nova esquerdasocialista que denunciava, dum modo categrico, os mitos damodernizao:

    7. Editorial: Science, rationality and religion. History Workshop, 9, primavera de 1980, p. 3.

    8. Numa resenha de The long revolution, Thompson censura Williams por no ter querido olharalm desta ilha, para os autores do continente europeu como Vico, Marx, Max Weber e KarlMannheim (New Left Review. n 9, 1961, p. 30). A ironia dessa observao que s