Bosi, Alfredo - Hist³ria Concisa Da Literatura Brasileira. O Romantismo

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  • I V

    o R O M A N T I S M O

  • ^Caracteres gerais i

    Segundo Paul Valry, seria necessrio ter perdido todo es

    pirito de rigor para querer definir o Romantismo,

    E, falta de urna definio que abrace, no contorno de

    uma frase, a riqueza de motivos e de temas do movimento, co

    mum iccorier-se ao simples elenco dstes, ocultando no mosai

    co da anlise a impotncia da sntese.

    Mas aqui, como nos outros ciclos culturis, o todo algo

    f mais que a soma das partes; gnese e explicao. O amor e TJ

    \ ptria, a natureza e a religio, o povo e o passado, que afloram

    / tantas vezes na poesia romntica, so contedos brutos, espalha

    dos por tda a histria das literaturas, e pouco ensinam ao in

    trprete do texto, a no ser quando postos em situao, temati,

    zados e lidos como estruturas estticas.

    Ora, a compreenso global do complexo romntico que

    alcana entender sses vrios nveis de abordagem que a anlise

    horizontal dos assuntos aterra no mesmo plano.

    A situao dos vrios romanlismos

    O primeiro e maior crculo contorna a civilizao no Oci

    dente que vive as contradies prprias da Revoluo Industrial

    e da burguesia ascendente. Definem-se as classes; a nobreza, h

    pouco apeada do poder; a grande e a pequena burguesia, o ve

    lho campesinato, o operariado crescente. Precisam-se as vises

    da existncia: nostlgica, nos decados do Anden R gime; pri

    meiro eufrica, depois prudente, nos novos proprietrios;' j in

    quieta e logo libertria nos que vem bloqueada a prpria ascen

    so dentro dos novos quadros; imersa ainda na mudez da incons

    cincia, naqueles para os quais no soara em 89 a hora da Liber-

    dade-Igualdade-Fraternldade.

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  • Segundo a interpretao de Karl Mannheim, o Romantismo"

    expressa os sentimentos dos descontentes com as novas estrum

    as.- _^nBreia, qu^j_caiu, e a pequena burguesia que ainda no

    subiu; de onde, as atitudes saudosistas ou reivindicatrias que

    pontuam todo o movimento

    O quadro, vivo e pleno de conseqncias espirituais na

    Inglaterra e na Frana, ento limites do sistema, exibe defasa-

    gens maiores ou menores medida que se passa do centro

    periferia. As naes eslavas e balcnicas, a Austria, a Italia cen-

    --tral e meridional, a Espanba, Portugal e, com mais evidencia,

    colomas, rinda vivem em um regme^d^ominado^pela n^breiza

    ; diaria e peloliitcrclero, no obstante os golpes cada vez mais v io

    len^tosjda^burguesia ilustrada.

    T O Brasil, egresso do puro colonialismo, mantm as colunas

    do poder agrario: o^latifndi, o escrvismo, a economia de ex

    portao. E segUe a rota da monarquia conservadora apds um

    breve surto de erupes republicanas, amiudadas durante -a Re

    gncia C^ ).

    Carente do binomio urbano indstria-perrio durante qua

    se todo o sculo X IX , a sociedade brasileira contou, para a for

    mao da sua inteligncia, com_.os filbps de iamlias. abastadas,.o

    campo, que iam receber instruo jurdica (raramente, mdica)

    em So Paulo, Recife e lUq (Macedo, Alencar. Alvares de Aze

    vedo, Fagundes Varela, Bernardo de Guimares, Frnklin Tvo-

    ra, Pedro Lus), ou com filhos de comerciantes luso-brasileiros e

    de profissionais liberais, que definiam, grosso modo, a alta clas

    se mdia do pas ( Pereira da Silva, Gonalves Dias, Joaquim

    Norberto, Casemiro de Abreu, Castro Alves, Silvio Romero). Ra

    ros os casos de extrao humilde na fase romntica, como Tei

    xeira e Sousa e Manuel Antonio de Almeida, o primeiro narra

    dor de folhetim, o segundo, picaresco; ou do trovador semipo-

    pular Laurindo Rabelo.

    Nesse esquema, do qual afasto qualquer trao de determi

    nismo cego, ressalte-se o carter seletivo da educao no Brasil-

    -Imprio e, o que mais importa, a absoro pelos melhores ta

    lentos de padres culturais europeus refletidos na Crte e nas

    capitais, provincianas.

    (ao) Karl Mannheim, Essays, cit.

    V. Jos Ribeiro Jr., 0 Brasil Monrquico era face das Repblicas Americanas, em Brasil em Vsrspeciva, cit., pp. 167-221.

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  • f Assim, apesar cias diferenas de situao material, pcxde-se

    dizer que se formaram em nossos homens de letras configura

    es mentais paralelas s. respostas que a inteligncia europia

    dava a seus conflitos ideolgicos.

    Os exemplos mais persuasivos vm dos melhores escritores.

    Q romance colonial de Alencar e a poesia indiansta de Gonal

    ves Dias nascem da aspirao de fundar em um passado mtico a

    :'-lQh.re2a recente do pas/assim como mutath mutandis as j fices de W . Scott e de Chateaubriand rastreavam na Idade

    \ Mdia feudal e cavaleiresca os brases contrastados por uma bur

    guesia em ascenso. De resto, Alencar, ainda fazendo roman-

    ce urbano, cqnrapunia a moral do homern antigo, grosseria

    dos novos-ricos; e fazendo romance regionalista, a coragem do

    sert^ejo s vilezas do citadino.

    '^A .correspondncia faz-se ntima na poesia dos estudantes

    bomiosj que se entregam ao spleen de Byron e ao mal du sicle

    de Musset, vivendo na provncia uma existncia doentia e artifi

    cial, desgarrada de qualquer projeto histrico e perdida no prprio

    narcisismo; Alvares de Azevedo, Junqueira Freire, Fagundes Va-'

    rela. . . .LComo os seus dolos europeus, os nossos romnticos

    exibem fundos traos de defesa e evaso, que os leva a posturas

    regressivas: no plano da relao com o mundo ( retorno me-

    -nataireza, refgio no passado, reinveno do bom selvagem, exo-

    tismo ] e no das relaes com ;o.prprio_ea ( abandong_ sqHdo,

    ao sonho, ao devaneio, s demasas da imaginao e dos senti

    dos)!) Para les caberia a palavra do Goethe clssico e iluminis-

    ta que chamava a sse Romantismo poesia de hospital .

    Enfim, 0 paralelo alcana a ltima fase do movimento, j na segunda metade do sculo, quando vo cessando as nostal

    gias aristocrticas, j sem funo na dinmica social, e se aden

    sam em trno do mito do progresso os ideais das classes mdias

    avanadas. Ser o Romantismo pblico e oratrio de Hugo, de

    Carducci, de Michelet, e do nosso Antnio Castro Alves.

    ;Temas_

    Do crculo maior, scio-histrico, podemos passar ao da te-

    matizao das atitudes vividas pelos escritores romnticos. As

    coordenadas do contexto fazem-se traos mentais e afetivos.

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  • o fulcro da viso romntica do mundo o sujeito. Dira

    mos hoje, em termos de informao, que o emissor da men

    sagem.

    O eu romntico, objetivamente incapaz de resolver os con

    flitos com a sociedade, lana-se evaso. No tempo, recriando

    uma Idade Mdia gtica e embruxada. No espao, fugindo para

    rmas paragens ou para o Oriente extico.

    A natureza romntica expressiva. Ao contrrio d natu

    reza rcade, decorativa. Ela significa e revela. Prefere-se a noi

    te ao dia, pois luz crua do sol o real impe-se ao indivduo,

    mas na treva que latejam as fras inconscientes da alma: o

    sonho, a. imaginao.

    Quem provou da onda cristalina, que, no tocada pelos sentidos comuns, jorra do seio escuro da noite; quem ficou nos ci

    mos, nos extrnos confins da Vida, e deitou os olhos Terra Prometida e s moradas da Noite, j no regressar ao mundo da angstia, s terras onde habita a Luz, perene inquietao (Novalis,

    Hinos Noiie, IV ).

    Pensei que o Amor vivesse luz quente do Sol.

    le vive ao luar.

    Eu pensei encontr-lo no calor do Dia.

    Consolador da Noite o doce Amor.

    Na escurido da noite

    e na neve do inverno,

    entre os nus e os rprobos,

    que o deves buscar

    (Blake, William Bond )

    O mundo natural encarna as presses anmicas. E na poe

    sia ecoam o tumulto do mar e a placidez do lago, o fragor da tem

    pestade e o silncio do ocaso, o mpeto do vento e a fixidez do

    cu, o terror do abismo e a serenidade do monte.

    Abri as frescas rosas,

    fazei brilhar os cravos

    do seu jardim, arvore, vesti-vo;

    de lindas flhas verdes;

    videira que nos destes sombra outrora,

    a cobrir-vos de pmpanos voltai.

    Natureza formosa, eternamente a mesma,

    dizei aos loucos, aos mortais dizei que les no perecero.

    ( R osala de C astro , Flhas Novas)

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  • Plida estria! o canto do crepsculo Acorda-tc no cu:

    Ergue-te nua na . floresta morta

    No teu dotrado vu!

    Ergue-te! eu vim por ti e pela tarde

    Pelos campos errar,

    Sentir o vento, respirando a vida,

    E livre suspirar.

    OIt! quando o pobre sonhador medita

    Do vale fresco no orvalhado leito,

    Inveja s guas o perdido vo Para banhar-se no perfume etreo,

    E nessa argntea luz, no mar de amores

    Onde entre sonhos e luar divino A mo eterna vos lanou no espao.

    Respirar e vivcr!

    (A lv a r e s de Azevedo , L ira dos V in te A nos)

    So palavras do Werther goethiano:

    Amigo, quando me'vejo inundar de luz, quando, o mundo e o cu vm habitar dentro de mim, como a imagem da mulher ama

    da, ento digo a mim mesmo: Se pudesses exprimir o que sentes!

    Se pudesses exalar e fixar sobre o papel o que vive em ti com tan

    to calor e plenitude que essa obra se transformasse em espelho da

    tua alma, como