Tarzan - Livro 01 - Tarzan Dos Macacos - Edgar Rice Burroughs

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  • Tarzan filho de ingleses, porm foi criado por macacos (manganis, na linguagem dos smios, criada por Burroughs) na frica, depois da morte de seus pais. Seu verdadeiro nome John Clayton III, Lorde Greystoke. Tarzan o nome dado a ele pelos macacos e significa Pele Branca. uma adaptao moderna da t radio mito lg ico- l i terr ia de her is c r iados por animais.Podendo ser relacionado com Mowgli de Kipling, Rmulo e Remo, e mesmo Robinson Crusoe de Daniel Defoe, ele , no entanto, diferente de todos eles, porque Edgar Rice Burroughs, seu autor, soube enquadr-lo num mundo, dar-lhe uma linguagem prpria, criar-lhe aquilo a que literariamente hoje se pode chamar um Universo, o Universo de Tarzan.

  • Assiste-se, atualmente, em todo omundo ao ressurgimento de Tarzan.NaFrana,porexemplo,ondeumdecreto-leiassinadopelomarechalPetain,comadatade21deSetembrode1941,baniuporcompletodastelas,dosjornaisedaslivrariasonomedeTarzan,nuncasechegouapublicarcompletamentetodososseus livros.Aofaz-loagoraumaeditorafrancesa,conheceuumxitonico, jquenoVerode1970osdois livrosmaisvendidosforam:LeParrai, deMarioPuzo(quetratadaMfia)easrieTarzan.Numrpidoinquritofeito,verificou-se que os seus leitores eram de todas as idades, desde os 12 at aos quarentaanos,masapredominnciaeraexercidaporumpblicodevinteecincoatrintaecincoanos.

    Porquestexitoconstantedeumpersonagemquenasceuem1912,quaseenvergonhado,naspginasdeuma revistapopularchamadaAll Story?Podendoser relacionado comMowgli de Kipling, Rmulo e Remo da Bblia, e mesmoRobinson Crusoe de Daniel Defoe, ele , no entanto, diferente de todos eles,porqueEdgarRiceBurroughs,seuautor,soubeenquadr-lonummundo,dar-lheumalinguagemprpria,criar-lheaquiloaqueliterariamentehojesepodechamarumUniverso-oUniversodeTarzan.

  • CAPTULO1

    NomarConheciestahistriaatravsdealgumquenotinhaqualquerinteresseem

    contar-me,ouemcont-la aquemquerque fosse.Devo-a, talvez, influnciaexercida, sobre o narrador, por um excelente vinho. Pelo menos quanto aoprincpio.E, durante os captulos que se seguiram at conclusoda estranhanarrativa,influenciouseguramenteaminhaprpriaincredulidade.

    Quandoomeujovialanfitriodescobriuquetinhacontadotantacoisaequeeuestava inclinadoaduvidar,oseu toloorgulhoretomoua tarefaqueovinhogeneroso principiara, e foi assim que me mostrou provas, sob a forma de umvelhomanuscrito e de antigos registros doDepartamentoColonial Ingls, paraapoiarmuitosdosmaisrelevantesaspectosdasuanotvelnarrao.

    No digo que a histria seja verdadeira, porque no testemunhei osacontecimentosaqueelaserefere,masofatode,aocont-la,euatribuirnomesfictciosaosprincipaisprotagonistas,demonstrasuficientementeasinceridadedaminhaprpriaconvicodequepodeserverdadeira.

    Asvelhaspginasamareladasdodiriodeumhomemquemorreuhmuitosanos,eosregistrosdoDepartamentoColonial,concordamperfeitamentecomanarrativa do meu jovial hospedeiro. Assim, eu reproduzo a histria tal comolaboriosamenteareconstituutilizandoessasdiversasfontes.

    Seoleitornoaacharcrvel,pelomenosconcordarcomigoemconsiderarque nica, notvel e interessante. Pelos registros doDepartamentoColonial,comopelodiriodohomemquemorreu,ficamossabendoqueumjovemnobreingls, a quem chamaremos John Clayton, LordGreystoke, foi encarregado delevar a cabo uma investigao especialmente delicada sobre as condies devidanuma colnia inglesa, na costa ocidental de frica, entre cujos indgenas,criaturas simples, uma outra potncia europia, segundo se sabia, estavarecrutando soldados para o seu exrcito de nativos - exrcito que utilizavaexclusivamenteparafazerarecolhaforadadaborrachaedomarfim,nastribosselvagensaolongodoCongoedoAruwimi.

    Osindgenasdacolniainglesaqueixavam-sedequemuitosdosseusjovenseram aliciados por meio de promessas tentadoras, mas que poucos delesregressavamparajuntodassuasfamlias.

    Osinglesesdefricaiamaindamaislonge,fazendoqueessespobresnegroseram mantidos praticamente em escravido, visto que, quando terminava otempodoseualistamento,osoficiaisbrancos,explorandoaignornciadeles,lhes

  • diziamquetinhamaindadeservirdurantevriosanos.AssimoDepartamentoColonialnomeou JohnClaytonparaumnovoposto

    nafricaOcidentalInglesa,masasinstruesconfidenciaisincidiamsobreumainvestigaocompletaquantoao injusto tratamentodesditos ingleses,negros,pelosoficiaisbrancosdeumapotnciaeuropiaeamiga.As razespelasquaisele foienviado, todavia, sodeescasso interesseparaestahistria,porquenochegouafazerqualquerinvestigaonem,defato,chegousequeraoseudestino.

    Clayton era o tipo de ingls que gostamos de associar comosmais nobresmonumentos de histricas proezas sobre centenas de campos de batalha -umhomemforteeviril,tantomentalmentecomomoralefisicamente.

    Tinha uma estatura acima da mdia, olhos cinzentos, feies corretas efirmes,umportealtivoqueindicavaumasadeperfeitaeanosdetreinomilitar.Ambiespolticas tinham-no levadoapedir a transfernciadoexrcitoparaoDepartamentoColonial,eassimvamosencontr-lo,aindanovo,encarregadodeumadelicadaeimportantemissoaoserviodaRainha.

    Quando recebeu a sua nomeao, ficou ao mesmo tempo contente eperplexo. A preferncia parecia-lhe ter o aspecto de uma bem merecidarecompensa por laboriosos e inteligentes servios, um patamar para postos demaior importncia e responsabilidade. Mas, por outro lado, tinha casado trsmesesantescomMissAliceRutherford,eeraaidiadelevarasuajovemmulherparaoisolamentoeosperigosdafricatropical,queodeixavaperplexo.

    Por amor dela teria recusado a nomeao, mas Alice no o consentiu,insistindo,pelocontrrio,emqueaceitasseealevasseconsigo.

    Me e irmos, irms, tias e primos, manifestaram vrias opinies sobre oassunto,masahistrianocontaquaisosconselhosquederam.Sabemosapenasque,numaluminosamanhdeMaiode1888,John,LordGreystoke,eLadyAlice,embarcaramemDoveracaminhodefrica.

    UmmsdepoischegaramaFreetown,ondefretaramumpequenoveleiro,oFuwalda, que devia lev-los ao seu destino final. E, nesse ponto, John, LordGreystoke, e Lady Alice, sua mulher, desapareceram dos olhos e doconhecimentodoshomens.

    DoismesesdepoisdoFuwaldalevantarferroepartirdoportodeFreetown,meiadziadenaviosdeguerra,britnicos,percorreramoAtlnticoSulembuscadelesoudopequenoveleiro,enotardouqueosdestroosdesteltimofossemencontrados no litoral de Santa Helena. Isto convenceu o mundo de que oFuwalda se perdera com corpos e bens, e destamaneira as buscas terminaramquandomal haviam principiado - embora a esperana persistisse, em coraessaudosos,durantemuitosanos.

  • O Fuwalda, um barco de cerca de cem toneladas, era do tipo dasembarcaes que se encontravam freqentemente em servios costeiros noextremoSuldoAtlntico -comtripulaescompostasporautnticaescriadomar,criminososfugidosdaforcaerufiesdetodasasraasenaes.

    OFuwaldano constitua exceo regra.Osoficiais eramhomens rudes,violentos, que odiavam os tripulantes e eram odiados por eles. O capito,conquanto fosse ummarinheiro competente, era feroz namaneira de tratar osseus homens. Conhecia, ou usava, pelo menos, apenas dois argumentos paratratar com eles, o cacete ou o revlver, e pouco provvel que os tripulantescontratadosporeletivessemcompreendidooutros.

    Aconteceu assimque, ao segundodia depois da partida deFreetown, JohnClayton e a sua jovemmulher assistiram a cenas, no convs do Fuwalda, quenuncahaviamjulgadopossveisforadascapasdoslivrosquecontavamhistriasdomar.

    Foinamanhdosegundodiaquecomeousendoforjadoumelodoqueviriaa formarumacadeiadeacontecimentosdosquais resultaria,paraalgumaindanonascido,umavidasemparalelonahistriadahumanidade.

    Doismarinheirosestavam lavandooconvsdoFuwalda,oprimeiromestreencontrava-sedeservio,eocapitodetivera-separafalarcomJohnClaytoneLadyAlice.Oshomenstrabalhavamrecuandonadireodopequenogrupo,queporsuavezestavadecostasparaeles.

    Foram-seaproximandoatqueumficoudiretamenteatrsdocapito.Seessehomemtivessepassado,estaestranhanarrativanuncateriasidoregistrada.Mas,nessemomento,ooficialvoltou-separaseafastardeLordeLadyGreystokeaofaz-lo tropeou no marinheiro e caiu ao comprido no convs, entornando obalde,demaneiraqueaguasujaoencharcou.

    Porinstantes,acenafoisimplesmenteridcula,massporuminstante.Comuma rajada de violentas pragas, a cara congestionada pela raiva e pelahumilhao, o capito levantou-se e, com um tremendo soco, derrubou omarinheiro. O homem era idoso e de pequena estatura, de forma que abrutalidadedogestosetornoumaisflagrante.Ooutromarinheiro,todavia,noeravelhonembaixo-corpulentocomoumurso,comumbigodenegroegrosso,fortepescoodetouroentreenormesombrosmacios.

    Ao ver o companheiro cair, o homem curvou-se e, com um rugido surdo,lanou-se sobre o capito e aplicou-lhe um soco violento que o fez cair dejoelhos.De vermelho que estava, o capito ficou lvido - porque aquele gestosignificavaummotimabordo.E,nasuacarreiradeviolncias,ocapitojhaviaantesenfrentadoedominadomotins.Semmesmoselevantar,tirouorevlverdo

  • bolsoedisparou-oqueima-roupasobreamontanhademsculosqueseerguiasobreele.Noentanto,emboraomovimentofosserpido,quasetorpidafoiainterveno de Lord Greystoke. A bala, dirigida ao corao do marinheiro,acertou-lhenumaperna,porqueJohnClaytonbateranobraodocapitoassimqueovirapuxarpelaarma.

    Houveuma trocadepalavrasentreClaytoneocapito,emqueoprimeirodeclarouclaramentequelherepugnavaabrutalidadecomqueostripulanteseramtratados e que no suportaria cenas de tal gnero enquanto ele e Lady Aliceestivessem a bordo. O capito esteve prestes a dar uma resposta irada, maspensandomelhor deumeia volta e afastou-se, grunhindo entre dentes.No seatrevia a hostilizar um oficial ingls, porque o poderoso brao da rainhamanobrava um instrumento de castigo que ele conhecia e temia - a Armadabritnica.

    Os dois marinheiros levantaram-se, o mais velho amparando o camaradaferido.Este,queeraconhecidoentreosseuscompanheirosporBlakeMichael,experimentoureceosamenteapernae,verificandoqueelaagentavaoseupeso,voltou-separaClaytoncomumapalavraderudeagradecimento.

    Embora o tom fosse brusco, as palavras do homem tinham evidentementeumaboainteno.Concluiuspressasobreved