Literatura Portuguesa - Do Romantismo Ao Realismo

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LITERATURA PORTUGUESA 1. Do Romantismo ao Realismo : 1.1 Contextualizao histrica e cultural (finais do sc. XVIII e incio do sc. XX) : Na Europa : - aumento da populao e emigrao intensa para outros pases, especialmente para a Amrica ; - transformaes econmicas : - desenvolvimento da agricultura (aparecimento dos adubos e fertilizantes e consequente aumento da produo) ; - desenvolvimento industrial : substituio gradual das pequenas oficinas por fbricas mecanizadas que permitiram o aumento da produo ; - ascenso da burguesia : a burguesia, especialmente a ligada indstria, cresce em nmero e em poder ; - ideais polticos em confronto : - incremento do liberalismo (teoria segundo a qual o Estado no deve intervir nas relaes econmicas que existem entre indivduos). Esta doutrina interessava burguesia endinheirada ; - aparecimento das doutrinas socialistas : fruto de uma profunda desigualdade social surgem os movimentos socialistas - primeiro, o socialismo utpico de Saint-Simon e Fourier ; depois, o socialismo cientfico de Engels e Marx. Em Portugal : - aumento da populao que, na sua maioria, se concentrava a norte do rio Tejo e no litoral e se ocupava na actividade primria - a agricultura. O aumento da populao e a escassez de recursos do pas, levou a um grande Surto migratrio, especialmente para o Brasil ; - produo agrria e industrial : aproveitamento dos recursos agrrios e mineiros, introduo da mquina a vapor e lanamento da rede ferroviria e viria. Porm, existia uma grande incapacidade de concorrer, em qualidade e preos, com pases industrializados como a Inglaterra e Frana ; - ideais polticos : com o aparecimento das doutrinas socialistas, de uma forma tnue, o movimento do proletariado industrial cresceu, sem que, no entanto, atingisse grande destaque. Surgem os primeiros partidos polticos : o Partido Republicano e o Partido Socialista. Em 1890, a Inglaterra, a propsito da questo do Mapa Cor-de-Rosa, impe um Ultimato a Portugal, o que acabou fomentar a oposio republicana ao regime monrquico. Concluindo : Portugal era um pas subdesenvolvido em virtude dos seguintes factores : - dependncia econmica em relao a outros pases da Europa e s colnias ; - certa incapacidade de desenvolvimento industrial e agrcola ; - distribuio injusta de terras ; - distribuio desequilibrada da populao ; - ndices elevados de emigrao e analfabetismo ; - falta de conscincia poltica e capacidade reivindicativa ; - organizao empresarial de fraco nvel ;- etc.

2. A evoluo do Romantismo em Portugal e as primeiras reaces realistas : 2.1 O Romantismo portugus : O Romantismo portugus teve uma larga abrangncia temporal e torna-se difcil delimit-lo no tempo uma vez que, mesmo depois de ter sido introduzido e cultivado o Realismo e o Naturalismo, vrios escritores continuaram a desenvolver uma esttica literria em que predominavam tpicos elementos romnticos. Segundo alguns autores, em Portugal o Romantismo no teria revelado traos de originalidade pois, de uma forma notria, limitou-se a imitar ambientes e estilos cultivados pelos grandes escritores romnticos europeus. No movimento romntico portugus podem distinguir-se trs fases : - o primeiro romantismo ou romantismo vintista (1820/1840) com Almeida Garrett e Alexandre Herculano que se caracterizou pela adopo e imitao dos grandes escritores romnticos europeus ; - o segundo romantismo ou Ultra-romantismo que se caracterizava pelo exagero temtico e formal das caractersticas originais do romantismo e que, em Portugal, foi representado por Antnio Feliciano de Castilho, Joo de Lemos, Soares dos Passos, Joo de Deus, entre outros ; - o terceiro romantismo que se desenvolve paralelamente com o Realismo e do qual so exemplos Antero de Quental e o prprio Ea de Queiroz, os quais, nas suas produes literrias fizeram coexistir os dois gneros literrios. 2.2 A Questo Coimbr : Como se disse, o Romantismo portugus, particularmente o cultivado pela segunda gerao de romnticos, evoluiu para o chamado Ultra-Romantismo, que se distinguia do primeiro romantismo pelos seguintes elementos : - exagero formal : o poeta ultra-romntico era obcecado pela perfeio formal, em detrimento do contedo ou tema do poema ; - exacerbao levada ao extremo no que diz respeito ao cultivo do eu, fuga para o medievalismo como ambiente de eleio e o abandono do pitoresco e do tipicamente nacional ; Para alm destas caractersticas, a literatura passou a ser considerada como uma forma de ascenso social e poltica da resultando que qualquer escritor reconhecido e recomendado por Antnio Feliciano de Castilho o patrono dos ultra-romnticos - tinha o seu futuro assegurado quer no que diz respeito promoo das suas obras literrias, quer no que concerne sua projeco pessoal. Por volta de 1865, a contestao a este estado de coisas e ao rumo que as letras portuguesas estavam a seguir, comeou, a despontar no seio de um grupo de estudantes de Coimbra liderados por Antero de Quental e Tefilo Braga, estudantes esses que tinham j tomado contacto com os ideais socialistas e positivistas correntes na Europa Numa primeira instncia, estes estudantes insurgiram-se contra os excessos formais e os desvios estilsticos que o Romantismo estava a seguir. Protestavam ainda contra a prtica de patronato e clientelismo corrente entre os ultra-romnticos chefiados por Antnio Feliciano de Castilho. Mas, o grande objectivo desses estudantes de Coimbra era o de divulgarem uma nova concepo da criao literria na qual pudessem expor as suas preocupaes e aspiraes de ordem social em detrimento de uma literatura at a demasiado centrada na problemtica do eu. A Questo Coimbr arrastou-se ao longo de quase um ano, durante o qual se trocaram acusaes e insultos em cartas, crnicas, artigos da imprensa, poesias e textos satricos. A disputa

ideolgica foi de tal modo grave que chegou mesmo a disputar-se um duelo espada entre Antero de Quental e Ramalho Ortigo - outro dos ultra-romnticos -, do qual o primeiro acabou por sair vencedor. A Questo Coimbr considerada como o ponto de partida para a renovao da literatura portuguesa rumo ao Realismo. 2.3 A Gerao de 70 e as Conferncias Democrticas do Casino : Do combate ideolgico travado pelos estudantes de Coimbra sairia a chamada Gerao de 70, que alguns crticos consideram como a mais brilhante da histria literria moderna. Dessa gerao de escritores e pensadores faziam parte, entre outros, Antero de Quental, Ea de Queirs, Batalha Reis, Oliveira Martins, Manuel Arriaga e Tefilo Braga. J em Lisboa, em 1868, estes intelectuais formam o chamado Cenculo que consistia na realizao de reunies peridicas onde se discutia poltica, letras, religio, filosofia, arte, etc. numa dessas reunies do Cenculo que surge a ideia da realizao de conferncias abertas a um pblico mais vasto. Assim, alugada uma sala no Casino Lisbonense onde, a partir de 1870, se passam a realizar as clebres Conferncias Democrticas do Casino. O objectivo principal dessas conferncias era o de analisar as causas do atraso de Portugal em relao aos outros pases europeus, propondo, ao mesmo tempo, solues que pudessem permitir que o pas rumasse modernidade. Essas solues, como bvio, passariam pela transformao moral, social e poltica do pas por forma a que Portugal pudesse acompanhar o desenvolvimento que se verificava nos pases mais evoludos da Europa. Realizaram-se as seguintes cinco Conferncias : - na primeira, proferida por Antero de Quental, foram apresentados os objectivos das Conferncias : agitar na opinio pblica as grandes questes da Filosofia e da cincia Moderna ; estudar as condies da transformao poltica, econmica e religiosa da Sociedade portuguesa e ligar Portugal com o movimento moderno. ; - a segunda Conferncia - Causas da Decadncia dos Povos Peninsulares - foi igualmente proferida por Antero de Quental, o qual identificou as seguintes causas que explicavam o atraso de Portugal : a monarquia absoluta, o poder da Igreja e as conquistas ultramarinas. Como solues, Antero preconizava a democracia, o trabalho livre sem qualquer interferncia do Estado, a liberdade de expresso e a aposta na educao e o desenvolvimento tecnolgico ; - a terceira Conferncia foi subordinada ao tema A Literatura Portuguesa Contempornea e foi proferida por Augusto Soromenho. Este autor defendeu que em Portugal no existia literatura prpria por falta de originalidade e de inspirao. ; - a quarta Conferncia foi proferida por Ea de Queirs e teve como tema A Afirmao do Realismo como Nova Expresso da Arte. Nesta Conferncia, Ea de Queirs apresenta o Realismo como uma reaco contra o Romantismo. Segundo Ea, o Realismo interessa-se pelo contemporneo, pela realidade envolvente e pela sociedade, contrapondo-se, assim, ao idealismo , ao sentimentalismo piegas e fuga no tempo empreendida pelos romnticos. Para alm destas Conferncia realizou-se ainda mais uma outra proferida por Adolfo Coelho e na qual este criticou a educao nacional cujas metodologias estavam completamente ultrapassadas. As restantes Conferncias (deveriam ter sido nove no total) acabaram por ser cancelas e proibidas pelo Estado uma vez que sustentavam doutrinas e proposies que atacavam a religio e as instituies polticas do Estado. Em jeito de resumo poder, pois, dizer-se que, atravs deste conjunto de intelectuais e das suas aces - a Questo Coimbr e as Conferncias Democrticas do Casino -, estavam lanadas as bases para o aparecimento do Realismo como corrente esttico-literria que viria a dominar a literatura da segunda metade do sc. XIX no nosso pas.

3. Caractersticas do Realismo : O Realismo foi uma corrente literria que surgiu na segunda metade do sc. XIX como reaco aos excessos e artificialismos da esttica romntica e em sequncia da Questo Coimbr e das Conferncias Democrticas do Casino. Por definio, pode afirmar-se que o Realismo a representao objectiva da realidade contempornea, o que, desde logo, se contrape esttica romntica como, a seguir, se verificar. Principais caractersticas do Realismo : - anti-idealista (combatia a evaso do eu romntico) ; - intere