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  • 7/28/2019 Arcos de Violino

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    Acta bot. bras. 19(4): 819-834. 2005

    Madeiras utilizadas na fabricao de arcos para instrumentos de

    corda: aspectos anatmicos

    Veronica Angyalossy1, Erika Amano1 e Edenise Segala Alves2,3

    Recebido em 15/09/2004. Aceito em 27/04/2005

    RESUMO (Madeiras utilizadas na fabricao de arcos para instrumentos de corda: aspectos anatmicos). A madeira de pau-brasil(Caesalpinia echinata Lam.) mundialmente empregada na confeco de arcos para instrumentos de corda, uma vez que apresentacaractersticas nicas de ressonncia, densidade, durabilidade, beleza, entre outras qualidades, que a tornam ideal para tal uso. Diferentesamostras de pau-brasil, contudo, fornecem arcos com qualidades distintas. No comrcio nacional outras madeiras esto sendo empregadasna produo de arcos. Realizou-se, neste estudo, uma anlise qualitativa e quantitativa de diferentes amostras de pau-brasil com oobjetivo de apontar diferenas na estrutura da madeira que possam contribuir para o entendimento das causas da variao na qualidadedo arco, alm da anlise de outras espcies objetivando determinar, do ponto de vista estrutural, semelhanas ou diferenas com o pau-brasil. Conclui-se que variaes no dimetro dos vasos, distribuio e quantidade de parnquima axial e orientao dos elementos axiais eradiais so parmetros que devem ser considerados quando se busca determinar as causas das diferenas na qualidade dos arcos de pau-brasil. Constatou-se que arcos de boa qualidade apresentam gr linheira e textura fina. Esta ltima caracterstica decorre da menorproporo de vasos cujo dimetro reduzido, raios homogneos e fibras com paredes espessas e/ou muito espessas. Assim, a relao entrea estrutura e a qualidade do arco est diretamente relacionada com as dimenses, a distribuio e a proporo das clulas do lenho.

    Palavras-chave : anatomia da madeira, arcos para violino, Caesalpinia echinata, pau-brasil, madeiras substitutas

    ABSTRACT (Anatomical features of woods used in the manufacture of bows for stringed instruments). Pernambuco wood (Caesalpiniaechinata Lam.) has special characteristics like resonance, density, durability, and beauty; for this reason, it is considered the best materialfor stringed instruments bows. Besides pernambuco wood has been used around the world, some samples, and consequently some bows,are better than others. In Brazil, others woody species have been used in the manufacture of bows. In this paper some wood samples ofpernambuco wood were analysed in order to verify if it is possible to find differences in their anatomical qualitative and quantitativecharacteristics that explain the bow quality. The comparative analysis of pernambuco wood samples showed variations in vessel diameter,

    quantity and distribution of axial parenchyma and orientation of axial and radial wood elements.

    Key words: wood anatomy, violin bow, Caesalpinia echinata, pernambuco wood, alternative woods

    Introduo

    A madeira de pau-brasil (Caesalpinia echinataLam.) extensivamente procurada no exterior, sendoconsiderada internacionalmente a nica que renecaractersticas ideais de ressonncia, densidade,durabilidade, beleza, alm da extenso da curvatura,

    do peso, da espessura e de preciosas qualidades tonais,para a confeco dos melhores arcos de instrumentosde corda (Pierce 2002; Bueno 2002). Segundo Bueno(2002), ela vem sendo extrada ilegalmente e exportadasob a denominao de pernambuco wood.

    A denominao vulgar pau-brasil, segundoMainieri (1960), utilizada em nosso pas para designar

    quatro gneros diferentes de plantas produtoras demadeira, reunindo erroneamente sob o mesmo nome,madeiras que apresentam colorao avermelhada, asaberBros imum paraense Huber (Moraceae),Colubrina rufa Reiss eRhamnidium glabrum Reiss(Rhamnaceae) e trs espcies de Sickingia (Willd.)(Rubiaceae).

    No caso do pau-brasil verdadeiro (C. echinata),o cerne alaranjado, bastante evidente na rvore recmcortada, decorrente da presena de brasilina (C16H14O5),que oxida com a exposio ao ar, assumindo coloraovermelho-coral (Mainieri et al. 1983).

    De acordo com Lewis (1998), C. echinata no classificada em txons infra-especficos, embora

    1 Universidade de So Paulo, Instituto de Biocincias, Departamento de Botnica, C. Postal 1146, CEP 05422-970, So Paulo, SP, Brasil

    (vangyalossy@ib.usp.br). Bolsista do CNPq2 Instituto de Botnica, Seo de Anatomia, Av. Miguel Estfano, 3687, CEP 004301-012, So Paulo, SP, Brasil. Bolsista do CNPq3 Autor para correspondncia: ealves@ibot.sp.gov.br

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    muitas populaes mostrem diferenas marcantes notamanho e na forma dos fololos, na cor da madeira eno hbito. Trs diferentes grupos de C. echinata estosendo estudados por especialistas brasileiros e no futuro

    talvez a espcie possa ser separada em subespcies ouvariedades. O grupo mais comum apresenta compa-rativamente os menores fololos e cerne de coloraoalaranjada, sendo encontrado em muitas localidadesao longo da costa brasileira. O segundo grupo diferepouco do primeiro, apresentando, contudo, fololos umpouco maiores e cerne com colorao laranjaavermelhado. Deste morfotipo so conhecidos apenasrepresentantes cultivados nos Estados do Rio deJaneiro e Esprito Santo. O terceiro grupo apresentafololos muito grandes e cerne vermelho escuro, sendo

    encontrados naturalmente, at o momento, apenas emuma localidade na Bahia.

    Apesar do consenso entre produtores de que opau-brasil a melhor madeira para a fabricao dearco, Matsunaga et al. (1996) informam que, at omomento, no existem publicaes cientficas queesclaream por que o pau-brasil to apropriado paratal finalidade. A seleo da espcie est baseada naexperincia tanto de arqueteiros como msicos, sendoa mesma utilizada h mais de 200 anos.

    De acordo com Retford (1964), a manufatura de

    arcos como arte especializada teve sua origem no sculoXVIII, na Frana, na oficina de Tourte O Velho.Aparentemente pouco se sabe dos seus predecessores;h poucos registros dos primrdios da histria do arcoe sua origem precisa desconhecida; os registros maisantigos vm da cultura rabe e bizantina e datam dosculo X. Com relao s madeiras empregadas, Pierce(2002) informa que antes da metade do sculo XVIIIeram usadas vrias espcies tropicais, incluindo o pau-brasil. Segundo Richter (1988), o pau-brasil j eraconhecido no mercado europeu por volta de 1550,quando os primeiros violinos, com a forma dosutilizados atualmente, foram construidos por G. Bartolettide Saulo, em Brscia na Itlia. Entretanto, foram osirmos Tourte, em Paris, que consagraram o pau-brasilcomo material ideal para a confeco de arcos.

    Segundo Matsunaga et al. (1996), as propriedadesvibracionais da madeira so fundamentais para qualific-la como apropriada para a manufatura de instrumentosmusicais. Embora os arcos de instrumentos de cordano produzam o som, as propriedades vibracionais damadeira tambm so muito importantes na determinaoda sua qualidade.

    Embora a madeira do pau-brasil rena aspropriedades ideais para a confeco de arcos, os

    produtos resultantes da manufatura de diferentesamostras apresentam qualidades distintas. Com opau-brasil podem ser confeccionados arcos de altovalor e grande qualidade, at arcos de baixo custo

    utilizados por amadores e estudantes (Lombardi,www.lombardiarcos.com). As causas dessa variaoesto sendo investigadas e parecem ser decorrentesde um conjunto de fatores que envolve a organizaoestrutural da madeira e aspectos relacionados s suaspropriedades qumicas e fsicas.

    A investigao qualitativa e quantitativa dediferentes amostras de pau-brasil poder ajudar aexplicar as causas das diferenas na qualidade dosarcos. Alm disso, como no mercado nacional estosendo introduzidos e, bem aceitos, arcos produzidos

    com outras madeiras (D. Lombardi, comunicaopessoal), o estudo da estrutura das mesmas poderajudar no estabelecimento de caractersticasanatmicas envolvidas na melhor qualidade do arco.

    O presente estudo objetiva determinar asvariaes estruturais existentes entre amostras depau-brasil que possam interferir na qualidade do arcoe indicar caractersticas desejveis em outrasespcies.

    Material e mtodos

    Na Tab. 1 esto listadas as espcies examinadas,de acordo com a famlia, nmero da coleo de madeira(xiloteca), procedncia e nome comercial.

    Foram examinadas sete amostras de madeira depau-brasil (Caesalpinia echinata Lam.). Destas, trs(SPw 1968, 1969, 1970) foram coletadas em discosretirados do tronco a 1,30 m do solo. As rvores foramremovidas obedecendo a plano de manejo, visandoaumento na produo de sementes, na ReservaBiolgica e Estao Experimental de Mogi-Guau (SP).O arboreto experimental foi plantado na dcada de1970 e conta com aproximadamente 300 rvores(Aguiar & Pinho 1996). As rvores tm, atualmente,cerca de 10 m alt. e 15-20 cm dim. Segundo Vuonoet al. (1986), a regio (2216S e 4711W) apresentaa estao seca e mais fria de abril a setembro e outramida e quente de outubro a maro, com precipitaopluviomtrica anual mdia de 1.380 mm e temperaturamdia anual de 20,4 C.

    A amostra SPw 1978 foi coletada em Porto Seguro(BA), com o auxilio de serrote e formo na regio dotronco a 1,30 m do solo, em rea de ocorrncia natural,

    de uma rvore com cerca de 60 cm dim. A regio(1480S e 3907W) apresenta clima quente e super

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    Tabela 1. Relao das madeiras analisadas de acordo com a famlia, nmero da coleo de madeira (xiloteca), procedncia e nomecomercial.

    Famlia/Nome cientfico Xiloteca, n. Procedncia Nome comercial

    LEGUMINOSAE SPw 1978 Ilhus, BA* pau-brasil, pau-pernambuco,Caesalpinia echinata Lam. SPw 1970 Mogi-Guau, SP** pernambuco wood

    SPw 1969 Mogi-Guau, SP**SP