Volume 6 - Maurice Druon - O Lis e o Leão

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Maurice Druon

Maurice Druon

O lis e o leo

Ttulo do original: "Le lis et le lion"

Copyright 1965 Atelier Litteraire Maurice Druon,

Librairie Plon e ditions Del Duca

Traduo: Nair Lacerda

CRCULO DO LIVRO S.A.

Caixa postal 7413 01051 So Paulo, Brasil

Edio integral

Licena editorial para o Crculo do Livro por cortesia da Editora Bertrand Brasil S.A.

2468 10 97531 88 90 91 89 87

"A histria um romance que aconteceu..."

Edmond e Jules de Goncourt

"Estremecemos ao pensar

em quantas buscas so

precisas para chegar verdade sobre o mais

ftil pormenor."

Stendhal

Principais personagens deste volume

CASA DE FRANA

O REI

filipe VI de valois, bisneto de So Lus, sobrinho de Filipe, o Belo, filho primognito do conde Carlos de Valois e de sua primeira esposa, Margarida d'Anjou-Siclia, trinta e cinco anos *.

*As idades indicadas referem-se ao ano de 1328.

A RAINHA

Joana de borgonha, chamada a Coxa, neta de So Lus, irm do duque Eudes IV e da falecida rainha Margarida de Borgonha, trinta e trs anos.

SEU PRIMOGNITO

JOO, duque da Normandia, futuro rei Joo II, o Bom, nove anos.

AS RAINHAS VIVAS

joana d'evreux, filha de Lus de Frana, conde d'Evreux, e sobrinha de Filipe, o Belo, terceira esposa e viva do rei Carlos, o Formoso, mais ou menos vinte e cinco anos.

joana de borgonha, chamada a Viva, filha de Mafalda d'Artois e esposa do falecido rei Filipe V, o Longo, trinta e cinco anos.

CASA DA INGLATERRA

O REI

Eduardo iii plantageneta, filho de Eduardo II e de Isabel de Frana, dezesseis anos.

A RAINHA

filipa de hainaut, segunda filha do conde Guilherme de Hainaut e de Joana de Valois, catorze anos.

A RAINHA-MAE

isabel de frana, viva de Eduardo II, filha de Filipe, o Belo, trinta e seis anos.

OS PARENTES DO REI

Henrique, chamado Pescoo-Torto, conde de Leicester e de Lancastre, quarenta e sete anos. edmundo, conde de Kent, tio do rei Eduardo III, vinte e sete anos.

CASA DE NAVARRA

A RAINHA

joana de NAVARRA, filha de Lus X, o Turbulento, e de Margarida de Borgonha, neta de Filipe, o Belo, herdeira do reino de Navarra, dezessete anos.

O rei

filipe de frana, conde d'Evreux, filho de Lus de Frana e esposo da precedente, mais ou menos vinte e um anos.

CASA DE HAINAUT

guilherme, chamado o Bom, conde soberano de Hainaut, Holanda e Zelndia, pai da rainha Filipa da Inglaterra.

JOANA de VALOIS, condessa de Hainaut, esposa do precedente e irm do rei Filipe VI de Frana. joo de hainaut, irmo mais moo do conde Guilherme.

CASA DE BORGONHA-DUCADO

eudes IV, duque-par da Borgonha, irmo da falecida rainha Margarida de Borgonha e da rainha Joana, a Coxa, mais ou menos quarenta e seis anos.

joana de borgonha, sua esposa, filha do rei Filipe V, o Longo, neta de Mafalda d'Artois, dezenove anos.

casa d'artois

mafalda, condessa-par d'Artois, viva do conde Oto IV de Borgonha, me da rainha-viva Joana, a Viva, e av da duquesa Joana de Borgonha, cinqenta e nove anos.

roberto d'artois, conde-par de Beaumont-le-Roger, sire de Conches, sobrinho da precedente, primo e cunhado do rei Filipe VI, quarenta e um anos.

joana de valois-courtenay, meia irm do rei Filipe VI, esposa de Roberto d'Artois, e sempre designada pelo ttulo de condessa de Beaumont, vinte e quatro anos.

PARES, PRELADOS E DIGNITRIOS DA CASA DE FRANA

lus I, duque-par de Bourbon, grande camareiro de Frana, neto de So Lus, filho de Roberto de Clermont.

lus de nevers, conde-par de Flandres. guilherme de trye, duque-arcebispo de Reims, par eclesistico.

joo de marigny, conde-bispo de Beauvais, irmo mais moo de Enguerrand de Marigny, par eclesistico.

gaucher de chtillon, conde de Porcien e sire de Crvecoeur, condestvel de Frana de 1302 a 1329.

raul de brienne, conde d'Eu, condestvel pela morte do precedente.

hugo, conde de Bouville, antigo camareiro de Filipe, o Belo.

joo de cherchemont, chanceler em 1328.

guilherme de sainte-maure, chanceler a partir de 1329.

mille de noyers, antigo marechal de Frana, presidente do Tribunal de Contas, presidente do Parlamento.

Roberto bertrand, chamado o Cavaleiro do Leo Verde, e mateus de trye, marechais de Frana.

behuchet, almirante. joo, o louco, ano.

LORDES, PRELADOS E DIGNITRIOS DA CASA DA INGLATERRA

rogrio mortimer, oitavo baro de Wigmore, primeiro conde das Marcas, antigo grande juiz da Irlanda, amante da rainha-me Isabel, quarenta e dois anos.

guilherme de melton, arcebispo de York, primaz da Inglaterra.

Henrique de burghersh, bispo de Lincoln, chanceler e embaixador.

ado orleton, anteriormente bispo de Hereford, bispo de Worcester, depois de Winchester, tesoureiro e embaixador.

joo, baro Maltravers, senescal da Inglaterra, mais ou menos trinta e oito anos.

guilherme, baro Montaigu, primeiro conde de Salisbury, conselheiro e embaixador, depois lorde-guardio dos Cinco-Portos e marechal da Inglaterra, vinte e sete anos.

gualter de mauny, escudeiro da rainha Filipa.

joo daverill, governador do castelo de Corfe.

guilherme eland, governador do castelo de Nottingham

.

principais oficiais de justia e comparsas do processo d'artois

PEDRO DE VILLEBRESME, Comissrio.

pedro de tesson, tabelio.

JOANA de divion, antiga amante do falecido bispo Teodorico d'Hirson.

beatriz d'hirson, sobrinha do bispo Teodorico, dama de cerimnia da condessa Mafalda d'Artois.

gillet de nelle, criado de Roberto d'Artois.

maria, a Branca, maria, a Preta, e joaninha desQUENES, servas de Joana de Divion.

pedro de machaut, testemunha.

ROBERTO ROSSIGNOL, falsrio.

maciot, o Alemo, oficial de justia.

simo de bucy, procurador do rei.

O IMPERADOR DA ALEMANHA

LUS V DE BAVIERA.

O REI DA BOMIA

joo de Luxemburgo, filho do imperador Henrique VII da Alemanha.

O REI DE NPOLES

roberto d'anjou-siclia, chamado o Astrlogo, tio do rei Filipe VI de Frana.

O REI DE ARAGO

AFONSO IV

O REI DA HUNGRIA

lus I, o Grande.

OS PAPAS

joo xxii, precedentemente cardeal Tiago Duze, bento xii (a partir de 1334), precedentemente cardeal Tiago Fournier, chamado o Cardeal Branco.

JAC de artevelde, chefe da liga flamenga.

cola de rienzi, tribuno de Roma.

spinello TOLOMEI, banqueiro sienense.

joo I, o pstumo, filho de Lus X, o Turbulento, e de Clemncia da Hungria, pretendente ao trono da Frana.

Primeira parte

Os novos reis

O casamento de janeiro

De todas as parquias da cidade, tanto de alm como de aqum do rio, de Saint-Denys, de Saint-Cuthbert, de Saint-Martin-cum-Gregory, de Saint-Mary-Senior e de Saint-Mary-Junior, de Shambles, de Taner Row, de toda parte, o povo de York subia em filas ininterruptas, havia duas horas j, para Minster, para a gigantesca catedral ainda inacabada, cuja massa esmagadora dominava a cidade.

Em Stonegate e Dengate, as duas ruas tortuosas que vinham dar no Ptio, a multido estava bloqueada. Os adolescentes, empoleirados sobre os marcos, no viam seno cabeas, apenas cabeas, um pulular de cabeas, cobrindo inteiramente a esplanada. Burgueses, negociantes, matronas com suas numerosas ninhadas, enfermos apoiados em muletas, criados, empregados de artfices, clrigos com seus capuzes, soldados de camisa de malha, mendigos andrajosos, confundiam-se com as hastes de um molho de feno. Ladres de dedos geis realizavam seu melhor negcio do ano. Nas janelas que para ali se abriam, apareciam cachos de rostos.

Era, acaso, luz do meio-dia, aquela claridade dbia, enfumaada e mida, aquele vapor frio, aquela nuvem que, como algodo, envolvia o enorme edifcio e a multido que patinhava na lama? Aquele povo se calava para conservar o prprio calor.

24 de janeiro de 1328. Diante de Guilherme de Melton, arcebispo de York e primaz da Inglaterra, o rei Eduardo III, que ainda no tinha dezesseis anos, casava-se com a senhora Filipa de Hainaut, sua prima, que contava pouco mais de catorze.

No restava um s lugar na catedral, que fora reservada aos dignitrios do reino, aos membros do alto clero, aos do Parlamento, aos quinhentos cavaleiros convidados, aos cem nobres escoceses de roupa xadrez, vindos para ratificar, nessa mesma ocasio, o tratado de paz. Dali a poucos momentos seria celebrada a missa solene cantada por cento e vinte chantres.

No momento, porm, a primeira parte da cerimnia, o casamento propriamente dito, desenrolava-se diante do portal sul, no exterior da igreja e vista do povo, segundo o ritual antigo e os costumes particulares da arquidiocese de York, para lembrar que o casamento um sacramento em que os esposos mutuamente se do, atravs de juras e consentimentos livres, e ao qual o padre assiste apenas como testemunha.

A nvoa marcava com rastos midos o veludo vermelho do dossel levantado contra o prtico, condensava-se sobre as mitras dos bispos, colava as pelas dos trajes sobre os ombros da famlia real reunida em torno do jovem casal.

Here I take thee, Philippa, to my wedded, wife, to hav and to hold at bed and at board...* (aqui eu te recebo, Filipa, como minha esposa pelo casamento, para te ter e guardar em meu leito e em minha casa...)

* Os nmeros remetem o leitor s notas explicativas no fim do volume.

Sada daqueles lbios tenros, daquele rosto imberbe, a voz do rei surpreendeu pela fora, pela clareza e intensidade de sua vibrao. A rainha-me, Isabel, ficou impressionada, bem como messire Joo de Hainaut