Segredos guardados Orixás na alma brasileira

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Segredos guardados Orixás na alma brasileiraC a p a
I lu s t r a ç õ e s
Pedro Rafael
P r e p a r a ç ã o
Vanessa Barbara
1 n d ic e r e m is s iv o
Marcelo Yamashita Salles
Otadlio Nunes Marise Simões Leal
Dado, Internacionais de Catalogação na Publicação (cn-)A (C â m a r a Brasileira d o L iv r o . S P , B r a s i l )
Prandl, Reginaldo
Segredos guardados: Orixás na alma brasileira I Reginaldo Prandí : fotos do autor: [ilustrações Pedro Rafael], - São Pau- lo : Companhia das Letras.zoos.
Bibliografia
ISBN 85-359-0627·4
I. Afro-brasileiros - Religião 2. Candomblé (Culto) 3. Ori- xás 4. Religião e sociologia 5. Umbanda (Culto) 1. Rafael, Pedro. T I , T í t u lo . ru. Tttulo : Orixás n a a lm a b r a s i le i r a .
05-1567 CDO.306.69960981
lndice p a r a c a t á lo g o sisteruético:
1. Religiões afro-brasileiras: Sociologia da religião 306.69960981
\
Prólogo .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 7
1. Tempo, origem e autoridade
2. Os mortos e os vivos . . .
3. Orixás, santos e demônios
4. Um panteão em mudança
s. Os espíritos caboclos na religião dos orixás
19
53
67
101
121
141
159
175
187
215
. 239
[2005]
EDITORA SCHWARCZ LTDA.
04532-002 - São Paulo - sp
6. Hipertrofia ritual e falência moral
7. Cultura religiosa, memória e identidade
8. Música sacra e música popular
9. Nas canções do rádio
10. Devotos, terreiros e igrejas
Epílogo .. _
do e reserva sobre questões de doutrina. Esta é pouco ensinada e
discutida, e fartamente ignorada por pais e mães que não tiveram
tempo, interesse.ou oportunidade de aprender, desconhecendo-
se, por exemplo, as concepções de nascimento, morte e reencar-
nação que foram fundamentais na religião dos orixás.
Aos fatores que favorecem a hipertrofia ritual junta-se, pois,
a concepção corrente que se tem da profissão de pai-de-santo co-
mo sendo um feiticeiro agora socialmente legitimado pelo con-
sumo esotérico e midiático, que trabalha por dinheiro para re-
solver os problemas de quem dele precisar, como qualquer outro
profissional do bem-estar espiritual ou psíquico do indivíduo.
Para se situar bem no mercado de muitos competidores, terá es-
se profissional que se fazer visível, bem visível. Nada melhor, pa-
ra alcançar a publicidade, que se esmerar no rito, sobretudo quan-
do não se tem o treino necessário para se impor pela presença
intelectual nem o carisma para se afirmar como líder espiritual.MLKJIHGFEDCBA
É exatamente como acontece, em graus variados, também com
os novos sacerdotes do catolicismo carismático, do neopentecos-
talismo e de tantos e tantos credos disponíveis no mercado reli"
gioso contemporâneo.
7.AC u l t u r a r e l ig io s a , m e m ó r ia
e id e n t id a d e
1
P: cultura afri91n~ªill,!ída.naJQrfl.1açã.? da cultu~ bra~~~ira
corresponde a um vasto elenco de itens que abrangem a língua,
a culinária, a música e artes diversas, além de valores sociais, re-
presentações míticas e concepções religiosas, conservadas não a
partir de uma matriz africana única, mas de várias, oriundas de
diferentes povos africanos. Fora do c~!!!p'o religioso, l~nhuma
das instituições culturais africanas logrou, entretanto, sºQ..r~viyer~ ,--,~ - ...-,,- ....•.•.. -_ ..•-" ''''-".. - '..-- ..._._- .•.. _ ..;,.,. .. ~ ~ "
com suas estruturas próprias. Ao contrário, cada contribuição é n ••• '-- , o --___ \') 1\
res tante de um longo e lento processo de diluição e apagamen- tJ-'').\i\''(
to étnico a tal ponto que, diante de um determinado traço cultu- E;t'· "
ral, embora se possa reconhecer nele uma origem africana gené- ","-'"J'\c~" , ,.,. .. \~ .~
rica, é difícil, quando não impossível, identificar o povo ou nação \..~~/_\)'..\'
de que provém. Tudo é simplesmente África, perdidas as .9:.i~!t:Q~'i;>
ali e especificid;d-;;,-McJs'que isso-os pr6p;i~s ~fro-g.escenden-
por não cOllh~~;~ a próp~i~-orige~ nem saberem~;;us--r--~---~-- ~-------- - - _ -cepassadoseram bantos ou sudaneses - os dois grandes gru-
,~-"'"'---- --. _-_o .,._ . - "'""""-_. __ ~_ _ ..
159
nao poâem iaentffica~ ~ origens dos aspectos cultur;is, como se -----
a cultura-brasileira como um todo, ao se apropriar d~ks, tivess
apagadõ ãs fontes. A memória que se tem da África é-vaga,gené-
rica, indefinida, .
Mesmo que se imagine uma África única, inespecífica, é pos-
sível, através da pesquisa, identificar estruturas e elementos her-
dados de culturas bem definidas. Assim, no caso do canqqmblé,
podemos buscar sua estrutura hierárquica, divisão de ~rabalho
sacerdotal e concepção de poder nos padrões familiares da anti-
10117HGFEDCBA r g~-famílialio!u á, com empréstimos tomados de outros povos
',101:.1-'1[\---. --- - . __ ~ o ' afncanos.
sa, e habitam residências coletivas formadas de quartos e aparta-
mentos contíguos, os c o m p o u n d s . Cultua~ixás articulares
para cada família, cidade e região (Fadipe, 1970). O chefe mora
coma esposã principal e os filhos d~1.!ºos a osentos m:incipais;
as demais esposas moram com seus filhos, habitando ada uma
quartos separados. As áreas comuns são reservadas para cozinha,
lazer, trabalho artesanal e armazenamento. A família cul~ri-
xá do chefe masculino, divindade ancestral que ele herda atrili-
nearmente, e que é o orixá principal de todos o filhos. Cada e_s-:
posa cultua também o o!jxá da família d~_~eupai, que é o segundo
orixá de seus filhos. Assim, os irmãos devem culto ao orixá do
pai, que é o mesmo para todos, e ao orixá da mãe, que pode ser
diferente de acordo com a herança materna. Como os iorubás
crêem descender de seus orixás, a origem de cada indivíduo não
é necessariamente a mesma. Um c o m p o u n d é assim u~a reunião
de diferentes cultos, cada um com seus mitos, tabus e cerimônias.MLKJIHGFEDCBA ," - .- ._,_.,--- ._-~. -.- - -- --- ~_., -- •..
H !~ 1 !ldeEs~eral e deus~~.Earticulares louvados nas casas das di-
versas esposas. A família também tem como culto comum a d~------- -- ---- voção a Exu, orixá t r i c k s t e r que estabelece a comunicação entre- ~
os diferentes planos e personagens deste mundo e do mundo pa-
r~?_dos d~~s~i$.~.~Q{ritos.-Ti~j~~-~se5yltua~ os.o'ri~ás .9!!e
protegem a cidade, em geral orixás da família do rei, os orixás do
mer~á.do,~;~~ômico- ~'d~-;ociabilidad~MLKJIHGFEDCBAd~cidade, e ou-
tros que podem ser adotados individualmente por livre escolha.
O chefe da família é o chefe do culto do orixá principal; iniciam-
se entre membros da familia os sacerdotes que devem incorpo-
rar a divindade em transe ritual durante as grandes celebrações
festivas. O mesmo se dá com respeito aos orixás secundários, os
das esposas.
é pratiCado fora do âmbito da família 12.m:Jlma_confraria~d_esa--- cerdotes chamados bab_~ •...en.c,an:e.g~o§ d.et.ªtri!Y~~-Ee2ráti~---~ "-' .
cas divinatórias, ler e interpretar Ç , futl!Io_daspessoas, conhecer
õ-desígnio-d~s de-~s-;-p~~;~rever os sacrifídospropiclatório's
'ãõsorixás. A-adivi~h~ção~l~ b~b;laô épraÚ;ada através da in- ,~~~ _ . .." .. ~ , •... '~ ' '- ' '-, . --. - terpretação de um enorme a~erY5?'de..Elrtos (seus instrumentos
'~ii~i~atórios selecionam os mitos a serem interpretados em cada
consulta oracular), mitos que ele aprende durante a iniciação e
que explicam para o iorubá seu mundo, a vida, a morte, a ação
dos deuses e tudo mais que existe, e que fornecem e inspiram os
valores e normas da sociedade iorubana.
Uma outnL§Q.ciedé!.ge9}!,eenvolve toda a cidade, às vezes -:' - ---'-'- ._~ -----.-._--- ._- - --... ~ " •.•....-._ , ~------
mais de uma, é a que se dedica ao culto dos ancestrais fundado-
res 'd;'~id~d~,os e.gun~-;'~~~Eii;ç· ;tiitament;:;~:;;uli;;~ res- _ .. '~ -'~ ""- .--~ '-- ~
ponsável pela administração da justiça no plano das relações co-
munitárias. A ~sa organi:ação religiosa de culto aos fundadores
e heróis humanos contrapõe-seuma outra, a sociedade Gueledé,___ .....O-~...--.-. ' .,- ~ ~~ --
que celebra os ancestrais femininos, as grandes mães. A religião--'-- - . ,~ ,-- ',. ,- do dia-a-dia, de todo modo, é a religião familiar. Não se separa
religião e família na vida cotidiana. \,
O candomblé, criação brasileira, estruturou-se como essa ._ .,-------,- '...-..- '.---- .;-~ ----
161
famíli~ iorubá. o grupo de culto é dirigido por um chefe, mas-
culino ou f~minin~~E!~_utoridade máxima, e o orixá do fun-
dador do grupo é o orixá comum daquela comunidade, para o
q~al é le~~tado o te~210 rincipal, T~mplo~~ec~~dários, d;no-
-~i;ados- casas ou quartos-de-santo, são construídos para cada
um dos orixás ou famílias de orixás louvados pelo grupo. ~
rarquia copia a da família iorubá: os membros mais' ovens de-
vem respéito e submissão aQs mais elhos, aos és dos uais se
prostram em reverente saudação, como fazem os filhos ioruba-MLKJIHGFEDCBA .---A - - ._ - ...•
nos para com os pais e mais velhos, e como faz todo iorubá em
respeito às autoridades. Supõe-se que os mais jovens devam apren-
der com os mais velhos e assimilar o conhecimento religioso pe-
la palavra não escrita. A_hierarqJJia_agora é re ulada não ela ida-
de, mas2elo te~o de inicia ão, já que a inclus-o~aiamília
(religiosa) faz-se .p~rlivre adesão ~não_p_o.r..nas.cimentQ.Asmu-
~~s mais velhas, .isto é iniciadas há m~s_t~ (e no Brasil o
sétimo ano de iniciação ganhou o estatuto de ano que marca a
senioridade) chamam-se entre si de ebômi, "minha irmã mais ve-
lha", tratamento que as esposas mais antigas do chefe, e por con-..--- seguinte mais importantes, usam entre si. A recém-iniciada é cha-
mada iaô, ou jovem esposa, noiva, que é como as esposas mais
velhas chamam as mais novas. Claro que; com o passar do tem-
po, essas designações reservadas às mulheres passaram também
a ser usadas para os iniciados masculinos. Além das práticas ini-
ciáticas, como a raspagem da cabeça que marca o ingresso das _
meninas na puberdade e o uso de escarificações indicativas de
origem tribal e familiar (osHGFEDCBAa b e ré s do candomblé), costumes do
cotidiano familiar africano foram igualmente incorporados à re-
ligião no Brasil como fundamento sagrado que não deve ser mu-
dado: dormir em esteira, comer com a mão, prostrar-se para cum-
primentar os mais velhos, manter-se de cabeça baixa na frente de
autoridades, dançar descalço etc.
Do governo das cidades o candomblé copiou postos de man-
do na religião. O conselho do rei de Oió, cidade de Xangô, inspi-
rou a criação do conselho dos o b á s ou m o g b á s em terreiros desse
orixá. O general b a lo g u m transformou-se em cargo de alta hie-
rarquia no culto a Ogum. As mulheres encarregadas de adminis-
trar o provimento material da corte do rei inspiraram as ia lo d ê s
dos candomblés. A mulher encarregada de zelar pelo culto a Xan-
gô no palácio do rei de Oió, e por isso mesmo chamada Ekeji Ori-
xá, que significa a segunda pessoa do orixá, foi certamente o mo-
delo do cargo das equedes, mulheres que não entram em transe
e que vestem os orixás e dançam com eles quando incorporados
em suas sacerdotisas e sacerdotes.
~mb~ra a identidade étnica de~!E0s escravo~~ nej;ros li-
vres tenha se preser.Yª90 até QJilléll...do século XIX-- ohretudo
entre ~~hegaram dfu\frica havia menos tempo e que ~sta-
vam organizados _emco~f:..ari~scat~licas,_com a formação _das o -
ciedade de classes, j~ sob a República==, fad.2 vez_mais as orga----- - - - -- -- ~ d~sºr1.e e~a!!len.tal e étnico foram perdendo o sentido,
e aspect9~ ?as ~ulturas africanas foram igualmente _sen_d~mais e
mais absorvidos pela cultura nacional, que é primordialmente
branca, européia e cristã. Embora em muitos aspectos, sobretu-
a~~ campo das artes, possamos identificar, no final do século
XIX e no início do século xx, manifestações culturais caracteristi-
camente negras, sua sobrevivência dependia da capacidade de se-
rem absorvidas pela cultura branca. É o..f.a~~xeIl!Plar.4a músi-
ca popular brasileira, em que os ritmos e estruturas melódicas de
orig~~~iricana ~E~e~iYeraIl!-na ,~dida em que p~saram -a ~n-
teressar aos compositores brancos e aos consumidores da cultu-
rã~iA~si~~l~~~'~' negro abr~ ç~i~ho pa;a? choro bran-
éô; a música do candomblé < k> § n~grQs pobres fornecia a matriz.
para o ~a;ba nacio~al-das classes médias. Em outras alavras, a
preservação daquilo que é africano requeria apagar ou disfarçar ---------------- - ----- -----
na Bahia, em Pernambuco, Alagoas, Maranhão, Rio Grande do
Sul e, secundariamente, no Rio de Janeiro. Embora tenha tam-
bém surgido e se mantido uma religião equivalente por iniciati-
va de negros bantos, a modalidade banta lembra muito mais uma
adaptação das religiões sudanesas do que propriamente cultos da
África meridional, tanto em relação ao panteão de divindades co-
mo em função das cerimônias e processos iniciáticos.
A religião negra, que na Bahia se chamou candomblé, em
Pernambuco e Alagoas.: xangô, noMara~hão, ta~bor-d~~~i~;e
no R~§!ande fl~~uh b--;'tiqye, fol orgª-.niil!da em grupos de "na-
ções': ou "nações de c~domb!é" (Lima, 1984). Em cada uma de-
"la!-,_<:!.1~ãg l!fri~a!1a que aidentifica é responsável pela maioria
~os se.us~ementos, em~"~ra haja gran.:te troca de elementos en-
tre elas, resultado dos contatos entre nações no Brasil e mesmo
anteriormente na África. Na Bahia surgiram os candomblés que-
to e ijexá - e mais recentemente o efã -, todos de origem acen-
tuadamente nagô ou iorubá, além de um candomblé de culto aos
ancestrais, o candomblé de egungum. Também da Bahia é o can-
domblé jeje ou jeje-rnahim, enquanto no Maranhão o tambor
denominado mina-jeje dependeu mais de tradições dos jejes dao-
meanos, ali também se criando uma denominação rnina-nagô,
de predominância iorubá. Em Pernambuco sobreviveu a recria-
ção da nação egbá, também chamada nagô, e no Rio Grande do
Sul, as nações iorubanas oi6 e ijexá. Em Alagoas criou-se um cul-
to de nação xambá, igualmente nagô, hoje praticamente extinta.
Na Bahia, como em outros lugares, tivemos a formação dos can-
domblés bantos, com três referências básicas: candomblé angola,
congo e cabinda, mas apenas as dimensões da língua ritual e da
música parecem ser sua marca de identidade, pois os deuses são
os orixás dos nagôs e seus ritos seguem os dos candomblés na-
gôs e jejes.
Como disse antes, a religião negra que se refez na Bahia eMLKJIHGFEDCBA - - --+ - - -- - - ---
exatamente a origem e a marca negra, num processo de bran- - ._~ - - _. ----A - -
queamento e miscigenação que atingiu todas as áreas - a um-
ba~ d~ é~"~pl~-embl~mático no âmbito"da ~~íigião (Ortiz,
"-i978) ":::":-eque somente foi ~e~~rtido de maneira lin~ita~1a a par-
tir da década de 1960, quando a diferença, o pluralismo cultural
e a valorização das origens étnicas passaram a constituir a orien-
tação dos produtores e consumidores culturais, num movimen-
to que foi bastante expressivo no Brasil.
2
Por volta da metade do século XiX, com a presença.de.escra-
vos, negros libertos e ~eus descendentes nas g.@Qçles cidades, a
população negra conheceu maiores possibilidades.de.integração
entre si, com maior liberdade de movimento e maior ca acidade
de organização, uma vez que mesmo o escravo já não estava pre-
so ao domicílio do senhor - negro de ganho que era então - e
podia agregar-se em residências coletivas concentradas em bair-
ros urbanos onde estava seu mercado de trabalho. Vivia com seus
iguais africanos, numa época em que tradições e línguas trazidas
da África estavam vivas em razão de sua chegada recente ao país
(Oliveira, M., 1996). Foi quando se criou o que talvez s.!!ja a re-
constituição culturalmais bem acabada do negro no Brasil, ca az
de preservar-se até os dias de hoje: o candomblé,
Nas diferentes grandes cidades do século XIX surgiram gru- ~ - - - ~ - _ ._ "
pos que recriavam no Brasil cult~s religiosos que reproduziam
. não somente a religião africana, mas também outros aspectos da
cultura na África. Os criadores dessas religiões foram negros de
etnias nagôs ou iorubás, especialmente os das cidades e regiões
de Oi6, Lagos, Queto, Ijexá e Egbá, e os dos povos fons, aqui cha-
mados jejes, sobretudo os mahis e os daomeanos. Floresceram
em outros lugares é uma reconstituição não ..ªp~Jlª_S da reli ião--- -MLKJIHGFEDCBA..- ------ - _.- -
africana, mas de muitos outros aspectos culturais da África ori- __ - _ ~.. ......- o ". • __ w. _
ginal, numa espécie de reposição da memória do ue ficou para --- ' ....,...._ --- -,'- ------------_._-- .,---- trás. Tomemos o candomblé queto, que inclusive serve de mode-- 10 para os demais. Primeiro, refez-se no plano da religião a co-
munidade africana perdida na diáspora, criando-se no grupo re-
ligioso relações de hierarquia, subordinação e lealdade baseadas
"Jnos padrões familiares e de parentesco existentes na África. A fa-HGFEDCBA
f . - o G . j e ' ' ; ' - ' mília-de-santo, a comunidade de culto, tornou-se uma espécie ~ '
,tG ~ ~ # '~_~~i~tura s!m~ól!~c:~a fa~.~ia iorubá.. . .
/ ~ • ',G~'\ .. ,"' O candomble que se formou no Brasil foi mais que a recons-
1;~:· ·:c(..~'v tituição da religião. Não sendo a religião africana uma esfera au-
tônoma em relação às demais que formam a sociedade tradicio-
nal, para que ela fizesse sentido no Brasil, muitos outros as ectos
da sociedade africana tiveram que ser aqui reconstituídos, pelo
menos simb"alic~~~,- umã-vez_ qu; no Brasjlas estruturas fa-
miliares e societárias africanas estavam completamente ausentes, - ".- - - ------
substituídas, mesmo no caso do escravo, pelos padrões ibero-bra-.
'.s~le~!:.?s.Isso evidentemente implicou muitas acomodações. Com
a destruição no Brasil da família africana, perdendo-se para sem-
pre as linhagens e as estruturas de parentesco, a identidade sa-
grada não pôde mais ser baseada na idéia de que cada ser humano
descende de uma divindade através de uma linhagem biológica.
E.~saherança, baseada na família de sangue, f~i substituída por
uma concepção de linhagens mítico-espirituais. Continuou-se a' , - -- --- ---- ..•.
~~er ,que cada i~divíc!!:to descende de um orixá, qu~! ~.??~idera-
do seu pai ancestral e a quem deve culto, mas agora isso independe
áa-~~I!iã"b@§~ã:ê o'orix~ d~~~4~~~~:~Óp-;;de~r-!.e;.~lado
através do oráculo do jogo de búzios, ql!e noBrasil é.prerrogati-
'va dõs-chefes'de~~t~, as mãe~ eos pais-de-santo. Mas se mante-
ve a idéia de um segundo orixá regendo o indivíduo, o adjunto
166
ou ju n tó , que na África era o da mãe biológica e que aqui é iden-
tificado também através do oráculo.
Através da religião, como mostrou Roger Bastide (1971),~-
criou~se no Brasil, c~ as i~~itáveis adaptações, uma África sim-
1:.iólicaque-fcl, dur~Pelo ~~~~-;~~ sé~ulo, a ~ais completa
refurê;;~ia ~ultur~l- p"a-;;; negro brasileiro, Agora um; instituição
dà' soci~d~d~ b;asileira, passou a funcionar como uma espécie de ~ -A - -- -- .• - _.--- ..
ilha à qual o negro podia recolher-se periodicamente, num refú-
gIO idíli~~ ~~ d~~;;uar, q~em sab~?, as agrÚras dàvida -cõti:-
cliau'; na ~ociedacÍ; inclusiva,- branca e cristã. Quando o tráfico
~égr~'i;o c.ÇSSQ).l· ,; 10&9..depois a es~ravidão chegou ao fim, ini~
ci~u-s; o lento e inconcluso processo de int~g~açã; do negro na
sociedade de classes, então em formação, O candomblé como r::u-
nião de negros ori inários e descen~entes de determinada~ etnias
ou n-;ções africanas foi deixando de fazer sentido. As !!.~vas ade-
s~dos negros, na maioria já nascidos brasileiros, àsdiferentes
naçõ~;de-~andomblé d6xaram de se~=~I!.t@aU2ela orjgem. ét-
'ni~~ e passaram a se constituir numa escolha pessoal, pesando na
&dsão- as simpatias pelo chefe do grupo, o conhecimento e ami-
zade dos adeptos, localização do terreiro etc. De todo modo, no
começo do século xx, definitivamente o corte já não era mais ét-
nico. Assim como o negro esqueceu sua origem e a língua dos pais
e avós, o candomblé também…