Lendas Africanas dos Orixás

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Livro do famoso fotógrafo francês Pierre Verger.

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Corrupio

Lendas Africanas dos Orix, 4 edio ( 1997) / Segunda tiragem (Abril 1998). Fundao Pierre Verger/ Carybe e Corrupio Edies e Promoes Culturais Ltda.

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Reproduo proibidaCoordenao editorial: Arlete Soares Planejamento grfico: Enas Guerra Sampaio Produo Editorial: Rina Angulo Rojas Traduo e Produo grfica: Cida Nbrega Reviso: Vanya King

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP) (Gerncia Tcnica da Diviso de Bibliotecas Pblicas, Bahia, Brasil)

V613 Verger, Pierre Fatumbi, 1902 - 1996 Lendas africanas dos Orixs / Pierre Fatumbi Ver ger; [ilustraes] Caryb; traduo Maria Aparecida da Nbrega. - 4a ed. - Salvador: Corrupio, 1997. 96 p. : il. 1.ndices - frica Ocidental. 2. Orixs - Lendas. Lendas para catlogo sistemtico: L Caryb, 1911 - II. Ttulo iorubs : Religies de ori 1. Lendas: Orixs : Deuses gem africana negra 299.63 2. Orixs : Deuses iorubs : Lendas: Religies de ori CDD 299.63 gem africana negra 299.63

Pierre Verger, a quem se deve a cuidadosa coleta das lendas aqui apresentadas, viveu durante dezessete anos, em sucessivas viagens, desde 1948, pelas bandas ocidentais da frica, em terras iorubas. Tomou-se Babala em Kto, por volta de 1950, e foi por essa poca que recebeu do seu mestre Oluwo o nome de Fatumbi: "Aquele que nasceu de novo pela graa de If". A Editora Corrupio, dando continuidade publicao da obra de Verger, sente-se mais uma vez gratificada ao editar este conjunto de lendas, todas elas recolhidas e pacientemente anotadas por Fatumbi, a partir das narrativas dos adivinhos babalas. Vale lembrar, entretanto, que as lendas aqui apresentadas no constituem seno uma pequena parcela do imenso universo de histrias que um adivinho obrigado a memorizar no decorrer do seu aprendizado. Histrias que constituem, todas elas, testemunhos diretos e espontneos da cultura ioruba, cuja influncia na nossa cultura faz-se sentir de maneira to acentuada. O desenho de Caryb, vigoroso e expressivo, aliado sua intimidade com a coisas do candombl e da Bahia, traduz com carinho, sensibilidade e cuidadosa informao etnogrfica, o esprito da magia dos orixs. Algumas das lendas aqui reunidas j so conhecidas nos candombls da Bahia, pelo "jogo dos dezesseis bzios". o caso, por exemplo, da histria de Oxum, onde ela aparece exigindo a oferenda de Nkan. Outras, entretanto, so desconhecidas e entre elas podemos incluir as lendas de Oxssi e de Oxagui, em que se prope, inclusive, a etimologia dos nomes desses orixs. A histria de Ogum explica ao leitor as razes pelas quais o deus do ferro conhecido pelos nomes de Ogum Mej, Ogum Alakor e Ogum Onir. As origens histricas provveis de Xang, de Iemanj e de Obalua so indicadas nas trs lendas referentes a esses orixs. Orunmil, que preside a adivinhao, no propriamente um orix, mas o autor o inclui no conjunto das lendas porque ele aparece ao lado dos orixs e participa de suas aventuras. Uma destas lendas mostra sua rivalidade com Ossain, o senhor das virtudes das folhas e plantas medicinais e litrgicas, refletindo a disputa pela primazia entre adivinhos e curandeiros. A supremacia atribuda aos adivinhos no surpreender o leitor se este se aperceber de que, tendo eles a misso de memorizar e transmitir as lendas conhecidas dos iorubas, podem, assim, glorificar facilmente seu papel na sociedade. A "Briga entre Oxal e Exu" narrada com bom humor, num estilo que lembra o de Amos Turtola em livros repletos de fantasia, como "O bbado da selva", onde as aventuras so inspiradas nas mesmas fontes tradicionais que as lendas publicadas a seguir. A publicao dessas histrias tradicionais apresenta, ainda, o mrito de esclarecer certos equvocos difundidos h mais de um sculo, por autores comprometidos com suas prprias ideologias e seus preconceitos, e que jamais foram questionados desde ento. Uma palavra final sobre a excelente traduo do original francs, em frases feitas por Maria Aparecida da Nbrega. Arlete Soares

Ao Babalorix BalbinoDaniel de Paula doTerreiro Ax Opo Agunju, Obaraim, na Bahia, Gbobagunle Alade, na frica, com a amizade de Otun Mangba, Oju Ob F atumbi Pierre Verger. Bahia, novembro de 1985.

Um babala me contou: "Antigamente, os orixs eram homens. Homens que se tomaram orixs por causa de seus poderes. Homens que se tomaram orixs por causa de sua sabedoria. Eles eram respeitados por causa da sua fora, Eles eram venerados por causa de suas virtudes. Ns adoramos sua memria e os altos feitos que realizaram. Foi assim que estes homens tomaram-se orixs. Os homens eram numerosos sobre a Terra. Antigamente, como hoje, Muitos deles no eram valentes nem sbios. A memria destes no se perpetuou. Eles foram completamente esquecidos; No se tomaram orixs. Em cada vila, um culto se estabeleceu Sobre a lembrana de um ancestral de prestgio E lendas foram transmitidas de gerao em gerao, para render-lhes homenagem".

EXULaroy!Exu o mais sutil e o mais astuto de todos os orixs. Ele aproveita-se de suas qualidades para provocar mal-entendidos e discusses entre as pessoas ou para preparar-lhes armadilhas. Ele pode fazer coisas extraordinrias como, por exemplo, carregar, numa peneira, o leo que comprou no mercado, sem que este leo se derrame desse estranho recipiente! Exu pode ter matado um pssaro ontem, com uma pedra que jogou hoje! Se zanga-se, ele sapateia uma pedra na floresta, e esta pedra pe-se a sangrar! Sua cabea pontuda e afiada como a lmina de uma faca. Ele nada pode transportar sobre ela. Exu pode tambm ser muito malvado, se as pessoa se esquecem de homenage-lo. necessrio, pois, fazer sempre oferendas a Exu, antes de qualquer outro orix. A segunda-feira o dia da semana que lhe consagrado. bom fazer-lhe oferendas neste dia, de farofa, azeite de dend, cachaa e um galo preto. Certa vez, dois amigos de infncia, que jamais discutiam, esqueceram-se, numa segunda-feira, de fazer-lhe as oferendas devidas. Foram para o campo trabalhar, cada um na sua roa. As terras eram vizinhas, separadas apenas por um estreito canteiro. Exu, zangado pela negligncia dos dois amigos, decidiu preparar-lhes um golpe sua maneira. Ele colocou sobre a cabea um bon pontudo que era branco do lado direito e vermelho do lado esquerdo. Depois, seguiu o canteiro, chegando altura dos dois trabalhadores amigos e, muito educadamente, cumprimentou -os: "Bom trabalho, meus amigos!" Estes, gentilmente, responderam-lhe: "Bom passeio, nobre estrangeiro!" Assim que Exu afastou-se, o homem que trabalhava no campo direita, falou para o seu companheiro: "Quem pode ser este personagem de bon branco?" "Seu chapu era vermelho", respondeu o homem do campo esquerda. "No, ele era branco, de um branco de alabastro, o mais belo branco que existe! " "Ele era vermelho, um vermelho escarlate, de fulgor insustentvel!" "Ele era branco, tratas-me de mentiroso?" "Ele era vermelho, ou pensas que sou cego?"

Cada um dos amigos tinha razo e estava furioso da desconfiana do outro. Irritados, eles agarraram-se e comearam a bater-se at matarem-se a golpes de enxada. Exu estava vingado! Isto no teria acontecido se as oferendas a Exu no tivessem sido negligenciadas. Pois Exu pode ser o mais benevolente dos orixs se tratado com considerao e generosidade. H uma maneira hbil de obter um favor de Exu. preparar-lhe um golpe mais astuto que-aqueles que ele mesmo prepara. Conta-se que Aluman estava desesperado com uma grande seca. Seus campos estavam ridos, a chuva no caa. As rs choravam de tanta sede e os rios estavam cobertos de folhas mortas, cadas das rvores. Nenhum orix invocado escutou suas queixas e gemidos. Aluman decidiu, ento, oferecer a Exu grandes pedaos de carne de bode. Exu comeu com apetite desta excelente oferenda. S que Aluman havia temperado a carne com um molho muito apimentado. Exu teve sede. Uma sede to grande que toda a gua de todas as jarras que ele tinha em casa, e que tinham, em suas casas, os vizinhos, no foi suficiente para matar sua sede! Exu foi torneira da chuva e abriu-a sem pena. A chuva caiu. Ela caiu de dia, ela caiu de noite. Ela caiu no dia seguinte e no dia de depois, sem parar. Os campos de Aluman tomaram-se verdes. Todos os vizinhos de Aluman cantaram sua glria: "Joro, jara, joro Aluman, Dono dos dendezeiros, cujos cachos so abundantes! Joro, jara, joro Aluman, Dono dos campos de milho, cujas espigas so pesadas! Joro, jara, joro Aluman, Dono dos campos de feijo, inhame e mandioca! Joro, jara, joro Aluman! " E as rzinhas gargarejavam e coaxavam, e o rio corria velozmente para no transbordar! Aluman, reconhecido, ofereceu a Exu carne de bode com o tempero no ponto certo da pimenta. Havia chovido bastante. Mais, seria desastroso! Pois, em todas as coisa, o demais inimigo do bom.

OGUMOgum Y!Ogum era o mais velho e o mais combativo dos filhos de Odudua, o conquistador e rei de If. Por isto, tomou-se o regente do reino quando Odudua, momentaneamente, perdeu a viso. Ogum era guerreiro sanguinrio e temvel. "Ogum, o valente guerreiro, o homem louco dos msculos de ao! Ogum, que tendo gua em casa, lava-se com sangue!" Ogum lutava sem cessar contra os reinos vizinhos. Ele trazia sempre um rico esplio de suas expedies, alm de numerosos escravos. Todos estes bens conquistados, ele entregava a Odudua, seu pai, rei de If. "Ogum o violento guerreiro, o homem louco, dos msculos de ao. Ogum, que tendo gua em casa, lava-se com sangue!" Ogum teve muitas aventuras galantes. Ele conheceu uma senhora, chamada Elefunlosunlori" aquela-que-pinta-a-cabea-com-p-branco-e-vemelho.', Era a mulher de Orix Ok, o deus da Agricultura. De outra feita, indo para a guerra, Ogum encontrou, margem de um riacho, uma outra mulher, chamada Oj, e com ela teve o filho Oxssi. Teve, tambm, trs outras mulheres que tomaram-se, depois, mulheres de Xang, Kawo Kabieyesi Alafin Oy Alayeluwa! Saudemos o Rei Xang, o dono do palcio de Oy, Senhor do Mundo!" A primeira, Ians, era bela e fascinante; a segunda, Oxum, era coquete e vaidosa; a terceira, Ob, era vigorosa e invencvel na luta.