Willian Gass

download Willian Gass

of 29

  • date post

    03-Jun-2018
  • Category

    Documents

  • view

    224
  • download

    0

Embed Size (px)

Transcript of Willian Gass

  • 8/12/2019 Willian Gass

    1/29

    4A crtica ficcional

    [...] hay apenas una escrituraRoland Barthes

    Los gneros literarios dependen menos de los textos,que del modo en que estos son ledos

    Jorge Luis Borges

    4.1.

    Alguns antecedentes no contexto latino-americano

    A questo da crtica ficcional, tal como aparece na obra de Bolao, pode serincluda em um campo mais amplo: aquele da literatura sobre a prpria literatura e oque tem sido denominado nos estudos literrios como literatura metaficcional.William Gass, por exemplo, usa o conceito de metafico em um ensaio de 1970

    intituladoPhilosophy and the form of fiction, para caracterizar a obra de escritoresamericanos dos anos 60 como John Barth, Raymond Federman e Donald Barthelme.Ao descartar conceitos como antifico ou anti-romanesco, Gass afirmava que estesautores no s subvertiam as convenes narrativas do romance, mas tambmdiscutiam de maneira explcita o ato de experimentao narrativa enquanto orealizavam. A metafico ento seria definida como a fico acerca da fico ou afico com autoconscincia que reflete sobre sua prpria natureza, seus modos de

    produo e seus efeitos sobre o leitor.Apesar de ser bastante usado, sobre tudo a partir dos anos setenta e oitenta para

    caracterizar as denominadas literaturas ps-modernas, o termo continua sendopolmico e tm sido discutido por diversos autores e crticos que, por sua vez, temproposto suas prprias definies como Linda Hutcheon (narcissistic fiction),

    P U C - R

    i o -

    C e r t

    i f i c a

    o

    D i g i t a

    l N 0 6 1 0 6 7 5 / C C

  • 8/12/2019 Willian Gass

    2/29

    100

    Raymond Federman (surfiction) ou Robert Scholes (self-reflexive fiction) (Engler,2004)1.

    Alguns dos rasgos que caracterizam este tipo de literatura encontram-se na obrade Bolao e outros autores latino-americanos contemporneos, como a tematizaodo processo da escrita, o questionamento sobre sua prpria condio e possibilidades,a equivalncia entre linguagem e realidade, o uso de personagens histricos em suasfices, a exigncia de competncias narrativas no-habituais, assim como diversasexpresses de autoconscincia narrativa

    No contexto da literatura latino-americana, como o apresentava Haroldo de

    Campos (1976) em seu conhecido ensaio, Ruptura dos Gneros na Literatura Latino- Americana, j encontramos indcios desse gesto metaficcional e metaliterario2 emtextos de Machado de Assis como Memrias pstumas de Brs Cubas (1881),Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899), obras que se afastam da estrutura doromance tradicional e estabelecem um jogo crtico e irnico permanente entre autor eleitor. Trata-se de obras que rompem ironicamente o pacto ficcional maneiraAntiilusionista de Sterne, pondo em evidencia o prprio processo da escrita e ocarter de artefato ficcional da obra literria.

    Ainda que existissem antecedentes do denominado romance de tese comoCana (1902) do brasileiro Graa Aranha ou antes inclusive com Amalia (1851-1855) do argentino Jos Mrmol, romances em que participa certa natureza do ensaioe que evidenciam a interiorizao do narrar, ou seja, a reflexo paralela narrao,ser a partir dos anos trinta e quarenta do sculo XX, quando se consolida nas obrasnarrativas latino-americanas a reflexo sobre os artifcios da escrita e a mistura entreteoria e fico, primeiro na obra do escritor argentino Macedonio Fernndez e depois

    na obra de Jorge Luis Borges.

    1 Sobre o tema da metafico ver por exemplo: Hutcheon (1984, 1991), Federman (1993). Para LindaHutcheon, a metafico [...] es una ficcin que incluye en s misma un comentario sobre su propiaidentidad narrativa y/o lingstica (1984, 1) (traduo minha).2 Uso o conceito de metaliteratura para referir-me a um tipo de literatura que reflete permanentementesobre seus prprios processos de produo e recepo, que tem como temtica central o processo daescrita assim como a vida de escritores, leitores, crticos, editores, e que incorpora a crtica e a teorialiterria em seus textos. O gesto metaliterrio geralmente faz parte das denominadas escriturasmetaficcionais.

    P U C - R

    i o -

    C e r t

    i f i c a

    o

    D i g i t a

    l N 0 6 1 0 6 7 5 / C C

  • 8/12/2019 Willian Gass

    3/29

    101

    Macedonio um dos precursores latino-americanos mais significativos dessemovimento de literatura autoconsciente e da indiferenciao entre gneros como o

    ensaio e o romance. No contexto dos movimentos de vanguarda surgidos nasprimeiras dcadas do sculo XX em vrios pases da Amrica Latina, a obra deMacedonio um marco central em relao autoreflexo e autoconscincia narrativa,assim como incorporao do pensamento terico dentro da fico e o uso derecursos ficcionais nos ensaios tericos e crticos.

    Da mesma forma que em romances como Museo de la novela de la eterna (editada postumamente em 1967), que Macedonio comearia a escrever nos anos

    trinta, ou Adriana Buenos Aires (editada postumamente em 1974) possvel constatara ingerencia masiva del ensayo (Camblong, 2001, 36), e em toda sua narrativa semisturam postulados filosficos e sobre teoria da arte e do romance, assim mesmo emseus ensaios crticos e tericos com freqncia interfere a fico, o narrativo e opotico. Desde seus primeiros textos, como No toda es vigilia la de los ojos abiertos (1928) aparecem notas de rodap, parntesis e digresses que quebram a continuidadedo texto de forma freqentemente humorstica. Esse gesto de ruptura, de reflexopermanente e de autoconscincia narrativa se far mais programtico em seus textosposteriores como o prprio Museo de la novela de la eterna.

    O mais destacado da produo literria de Macedonio ser precisamente essainter-relao permanente e simultnea em textos que no respeitam fronteirasgenricas entre a atividade criadora e o gesto teorizador. Uma atitude que seenquadra no gesto vanguardista de ruptura com as convenes tradicionais doromance e que se contrape s tendncias realistas que dominavam o panoramaliterrio do momento.

    Borges continua alguns dos caminhos abertos por Macedonio. Para o autor deFicciones e a Historia universal de la infamia [...] no h praticamente diferenaentre ensaio e literatura de imaginao (Campos, 1976, 298). Assim comoMacedonio pretendia em todo momento mostrar-lhe ao leitor (de forma irnica ehumorstica) que o que lia era um artifcio ficcional e no uma contemplao doviver, com a obra de Borges a literatura se vira totalmente sobre si mesma, suasreferncias j no se encontram em uma suposta realidade objetiva, mas nas prprias

    P U C - R

    i o -

    C e r t

    i f i c a

    o

    D i g i t a

    l N 0 6 1 0 6 7 5 / C C

  • 8/12/2019 Willian Gass

    4/29

  • 8/12/2019 Willian Gass

    5/29

    103

    realidade e fico, [...] la posibilidad de existencia de la ficcin en la realidad, laposibilidad de enunciarla y su proceso: sus condiciones, desarrollo y transformacin

    (Ludmer, 1977, 11).A prpria reflexo sobre as possibilidades da escrita e o jogo entre a realidade e

    a fico, simbolizado no tpico recorrente do livro dentro do livro, so aspectoscentrais na obra de Onetti, assim como em romances fundamentais da narrativalatino-americana comoCien aos de soledad (1967) de Garca Mrquez.

    Especificamente para o tema que me interessa, em autores como Lezama Limae como Julio Cortzar cada um desde registros diversos, um mais barroco e erudito,

    o outro desde um registro mais casual e humorstico encontramos essa mistura degneros como o ensaio, a poesia, o romance e o pensamento crtico e filosfico que seinter-relacionam para construir obras complexas como Rayuela (1963) ouParadiso (1966).

    O prprio Lezama Lima afirmava que para chegar a seu romanceParadiso,teria sido necessrio passar por seus ensaios e sua poesia. Em sua obra, o ensaio e areflexo filosfica e mstica no se separam de sua atividade criadora em poesia eromance. Assim como o monumental relato de aprendizagem de Jos Cemi, constri-se misturando ao mesmo tempo narrativa, poesia e reflexes filosficas e msticas,em uma estratgia que no se rege pelos limites tradicionais entre gneros, Lezamausa esta estratgia ficcional em seus ensaios, onde a metfora, geralmente escura eretorcida, desloca a argumentao racionalista.

    Um romance como Rayuela (1963) de Julio Cortzar qui o exemploparadigmtico na Amrica Latina de obra que usa sua prpria escrita como temacentral, alem de incorporar, a travs do personagem de Morelli, a anlise terica e

    crtica sobre a prpria literatura. Os apontamentos de Morelli, por exemplo,configuram toda uma teoria da arte do romance dentro do prprio romance.

    Desde outra perspectiva e mudando o lugar de enunciao, que passa de umpersonagem ficcional ao prprio autor, o gesto crtico-ficcional de Cortzar sertambm evidente em livros como La vuelta al da en ochenta mundos (1967) e ltimo round (1969), que antecipam, a maioria das vezes em um registro

    P U C - R

    i o -

    C e r t

    i f i c a

    o

    D i g i t a

    l N 0 6 1 0 6 7 5 / C C

  • 8/12/2019 Willian Gass

    6/29

    104

    humorstico, alguns dos caminhos que tomar a narrativa contempornea latino-americana ao realizar uma mistura particular de crtica, fico e autobiografia.

    O movimento que incorpora nas obras a reflexo crtica sobre a prprialiteratura pode tambm ser rastreado na poesia latino-americana, como o apresentaHaroldo de Campos (1979), em uma tradio que inclui poetas como Oswald deAndrade, Carlos Drummond de Andrade, Joo Cabral de Melo Neto, VicenteHuidobro, Octavio Paz e Nicanor Parr