O ourives inquieto: “Ouro de tolo” na metamorfose Raul · PDF fileRaul Seixas...

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  • RRREEECCCOOORRRTTTEEE revista eletrnica ISSN 1807-8591

    Mestrado em Letras: Linguagem, Discurso e Cultura / UNINCOR ANO 9 - N. 2

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    O OURIVES INQUIETO: OURO DE TOLO NA METAMORFOSE RAUL

    Ravel Giordano Paz1

    RESUMO: O artigo realiza uma anlise melopotica da cano Ouro de tolo, de Raul Seixas,

    buscando avaliar a coerncia interna de seus elementos temticos e formais no mbito dos impasses

    existenciais e ideolgicos que alimentaram a vida e a obra do cantor e compositor brasileiro. Com esse objetivo, esboamos uma aproximao com outras canes de Raul, principalmente Metamorfose

    ambulante, valendo-nos ainda de diversos elementos apresentados no documentrio Raul: o incio, o

    fim e o meio, de Walter Carvalho.

    PALAVRAS-CHAVE: Raul Seixas; melopotica; contracultura; arte e biografia; arte e sociedade.

    ABSTRACT: The article provides a melopoetic analysis of song "Ouro de tolo", by Raul Seixas, seeking to assess the internal coherence of its formal and thematic elements within the existential and

    ideological impasses that fed the life and work of the Brazilian singer and composer. With this

    objective, we outline an approach with other songs of Raul, especially "Metamorfose ambulante", using, also, several elements appear in the documentary Raul: o incio, o fim e o meio, by Walter

    Carvalho.

    KEYWORDS: Raul Seixas; counterculture; melopoetic; art and biography; art and society.

    A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de

    arte.

    (Mahatma Gandhi)

    Deixa eu te responder a pergunta que no quer calar.

    O mais importante parceiro da vida do Raul... se chama

    Raul Seixas. Era ele com ele... entende?... que... nessa dualidade, controlando a sua maluquez... (Paulo

    Coelho, em Raul: o incio, o fim e o meio).

    Desafio

    O lanamento, em maro de 2012, do documentrio Raul: o incio, o fim e o meio,

    dirigido por Walter Carvalho, trouxe de volta cena miditica brasileira a controvertida figura

    de Raul Seixas, cantor e compositor que a princpio dispensa apresentaes mas a respeito de

    cuja vida indissociavelmente artstica e pessoal vale a pena fixar alguns pontos.

    1 Doutor em Letras Clssicas e Vernculas pela USP; ps-doutor em Teoria e Histria Literria pela Unicamp;

    professor efetivo do Curso de Letras e do Mestrado em Letras da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul

    (UEMS). E-mail: ravel@uems.br.

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    Nascido em Salvador em 1945, onde conheceu e se apaixonou pelo rock de Elvis

    Presley, em 1967 Raul vai para o Rio de Janeiro em busca do sucesso com sua banda de i-i-

    i Os Panteras, cujo nico disco lanado no ano seguinte. Sem obter o sucesso almejado,

    volta para a Bahia. Em 1970, retorna ao Rio para trabalhar como produtor musical na

    gravadora CBS, onde ainda intenta outro projeto coletivo aventura talvez fosse a melhor

    palavra , o disco A Sociedade da Gr Ordem Kavernista apresenta Sesso das 10, realizado

    em 1971 com Srgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada, e tambm praticamente ignorado

    pelo pblico e pela mdia. Finalmente, em 1973, grava o disco solo Krig-ha, bandolo!, que o

    transforma em cone pop e guru alternativo, mais propriamente, alis, da Sociedade

    Alternativa, movimento difuso inspirado nas ideias do escritor ingls Aleister Crowley, e que

    Raul Seixas fundou ou divulgou, no Brasil, ao lado de Paulo Coelho, parceiro em vrias

    composies do disco de 73. Disco que tambm o incio ou reincio de uma carreira

    irregular, marcada por fatos polmicos mas tambm e principalmente vrios sucessos, e

    afinal encerrada em 1989 com a morte precoce de Raul, vtima de uma pancreatite oriunda do

    uso abusivo do lcool e j sombra de um relativo ostracismo; no obstante a permanncia e

    mesmo, a partir da, o recrudescimento do culto, no apenas s suas canes como tambm, e

    talvez sobretudo, sua imagem e ao ideologema alternativo a que ela se liga.

    Tudo isso amplamente documentado no filme de Carvalho. Alm, no entanto, de

    acompanhar a tumultuada trajetria de Raul, o documentrio no disfara a inteno

    valorativa em relao a seu trabalho como cantor e compositor. Um dos elementos que

    cumprem essa funo de forma mais clara o depoimento de outro compositor baiano, e cuja

    condio, digamos, cannica no mbito do cancioneiro popular brasileiro , pelo menos entre

    os chamados formadores de opinio, bem menos questionada que a de seu conterrneo

    roqueiro: em depoimentos recortados e distribudos na edio do filme, Caetano Veloso expe

    sua admirao por pelo menos uma cano de Raul, executando trechos dela e denominando-a

    linda, profunda e, finalmente, genial. Trata-se exatamente da cano que encerra Krig-

    ha, bandolo!, e do primeiro e maior xito comercial do disco, a ponto de o prprio Raul sentir

    a necessidade de declarar, ainda em 73, numa entrevista para a TV Tupi aproveitada no filme

    de Carvalho: Eu no sou somente Ouro de tolo.

    Situada, como dissemos, no fim do disco, Ouro de tolo tambm, de certa forma,

    uma sntese da trajetria e das expectativas, at ali e a partir dali, do artista e cidado (ou

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    contra-artista e contracidado) Raul Seixas ou, como preferem muitos fs, Raulzito ou,

    simples mas acentuadamente, Raul , que por sinal assina sozinho a composio. Trata-se de

    uma cano de fora e beleza inegveis, tanto em sua construo musical quanto potica. Mas

    at que ponto merece um epteto como genial ou, por exemplo, obra-prima? A questo no

    ociosa: quase tanto quanto a aura do gnio quando menos, do iluminado , ronda a

    imagem de Raul a acusao de medocre ou farsante, de artista no fim das contas submisso

    aos padres comerciais e, ainda, a modelos e esteretipos estrangeiros.

    Curiosamente, o prprio Caetano joga com essa ltima ideia em uma cano de sua

    autoria, e que constitui uma espcie de resposta a outra do prprio Raul (em parceria com

    Marcelo Nova,2 roqueiro igualmente baiano com o qual gravou seu ltimo disco, A panela do

    diabo, de 1989): em Rocknroll, Raul canta acerca do velho conceito moral vigente no

    teatro Vila Velha um dos beros da bossa nova e do tropicalismo , lugar, no dizer da

    cano, de Bosta nova pra universitrio, / gente fina, intelectual / Oxal, Oxum, dend,

    Oxssi de no sei o qu; diatribe a que Caetano responde, em RocknRaul (do disco

    Noites do Norte, 2000), associando Raul a Uma vontade fela-da-puta / De ser americano.

    Trata-se, como dissemos, de um jogo, que inclui uma ambgua meno a Ouro de tolo

    (Hoje qualquer z-man / Qualquer caetano / Pode dizer que na Bahia / Meu Krig-Ha

    Bandolo / puro ouro de tolo) e ainda um reconhecimento, igualmente ambguo pois

    apelando para um sema tipicamente caetaneano, a alegria , do valor do adversrio (ao qual

    atribuda a voz lrica): Mas minha alegria / Minha ironia / bem maior do que essa

    porcaria. Quanto, porm, h de sinceridade e de complacncia nesse reconhecimento um

    tanto suspeito, que, afinal de contas, erige a humildade compreensiva como um trunfo diante

    da maledicncia do outro?

    Mas tambm preciso lembrar que justamente de Caetano uma das poucas verses

    de Ouro de tolo (no tributo a Raul O incio, o fim e o meio, 1992) posteriores de Raul;

    verso esta, alis, quase idntica original3 e que nisso mesmo atesta certa reverncia. Como

    2 Alis, o teor agressivo do trecho a que aludimos parece mais afeito s letras do ex-vocalista da banda Camisa

    de Vnus que s de Raul, no obstante seja este quem o cante. 3 Bem diferente, diga-se de passagem, da verso escrachada e quase punk gravada por Marcelo Nova com o

    Camisa de Vnus no disco Correndo o risco (1986), e na qual, por exemplo, Cidade Maravilhosa vira Cidade

    Marabichosa. Alis, traos de homofobia e misoginia, quando no de racismo, so comuns nas letras de Nova, o

    que torna mais bonito e curioso o fato de Caetano Veloso t-lo defendido, no filme Carvalho, da acusao

    corrente de ter apressado a morte de Raul com a maratona de shows e a parceria que culminou nA panela do

    diabo.

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    de Caetano a declarao com que Carvalho fechou seu filme, antes dos crditos sob a

    execuo de Gita (e como que em resposta ao Canto para minha morte, de Raul e Paulo

    Coelho): Raul, as pessoas no morrem. No se trata, portanto, de duvidar de suas

    declaraes a respeito de Ouro de tolo, mas de confront-las com seu prprio

    reconhecimento de Raul como uma pessoa e um artista contraditrios; algo que traz

    lembrana o quanto os rtulos podem acobertar fissuras daquilo que embalam.

    Analisar Ouro de tolo pode iluminar aspectos importantes no apenas desse que ,

    afinal de contas, um ponto alto da obra de Raul, como do sentido profundo que sua vida e seu

    trabalho legaram a seu tempo e para alm dele. Mas para fazer justia prpria carga

    significacional dessa cano preciso, tambm, compreend-la como parte ou momento

    singular desse conjunto maior: sntese (alis, precoce) mas tambm devir na vida-e-obra de

    Raul. o desafio que nos propomos.

    O ourives e o ouro