A psicologia e a religião dos Orixás

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  • Revista Brasileira de Histria das Religies. ANPUH, Ano V, n. 14, Setembro 2012 - ISSN 1983-2850 http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html

    Dossi Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades Volume II ____________________________________________________________________________________

    A PSICOLOGIA E A RELIGIO DOS ORIXS

    Jos Jorge de Morais Zacharias*

    RESUMO: O presente artigo foi apresentado na Mesa Redonda Universo Religioso Afro-

    Brasileiro: dilogos interdisciplinares, integrando o III Encontro do GT Nacional de Histria

    das Religies e Religiosidades ANPUH, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) de 20 a 22 de Outubro de 2010.

    PALAVRAS CHAVE: Afrodescendentes, Candombl, Umbanda, Psicologia Analtica.

    PSYCHOLOGY AND THE ORIXS RELIGION

    ABSTRACT: This paper was presented at the Round Table "Afro-Brazilian Religious

    Universe: interdisciplinary dialogues" integrating the III Meeting of the GT Nacional de

    Histria das Religies e Religiosidades ANPUH, at the Universidade Federal de Santa

    Catarina (UFSC), October 20-22, 2010. KEYWORDS: African Descent, Candombl, Umbanda, Analytical Psychology.

    So vrios os aspectos sociais e psicolgicos que constroem os preconceitos.

    Elementos presentes nos processos de socializao primria e secundria, bem como

    processos intrapsquicos, formam um jogo de luz e sombra determinantes do que

    aceitvel ou no. Vamos discutir dois aspectos fundamentais na construo do

    preconceito aos cultos de origem africana, o que tambm vlido aos cultos tribais de

    uma maneira geral. De um lado podemos identificar o preconceito oriundo do olhar da

    Igreja e de outro, o preconceito da mdica e psicolgica cincia.

    1. A ttulo de introduo.

    So vrios os aspectos sociais e psicolgicos que constroem os preconceitos.

    Elementos presentes nos processos de socializao primria e secundria, bem como

    processos intrapsquicos, formam um jogo de luz e sombra determinantes do que

    aceitvel ou no.

    Vamos discutir dois aspectos fundamentais na construo do preconceito aos

    cultos de origem africana, o que tambm vlido aos cultos tribais de uma maneira

    geral. De um lado podemos identificar o preconceito oriundo do olhar da Igreja e de

    outro, o preconceito da mdica e psicolgica cincia.

    * Psiclogo, doutor em psicologia social USP, analista didata pela Associao Junguiana do Brasil e

    International Association for Analytical Psychology, docente na UNIPAULISTANA So Paulo.

  • Revista Brasileira de Histria das Religies. ANPUH, Ano V, n. 14, Setembro 2012 - ISSN 1983-2850 http://www.dhi.uem.br/gtreligiao /index.html

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    Desde a chegada dos primeiros escravos africanos ao Brasil at meados do

    sculo XX, a postura da Igreja Catlica para com os seguidores das religies

    afrodescendentes foi se modificando de uma tolerncia catequtica at o confronto

    direto a uma religio concorrente.

    Apesar das diversas irmandades catlicas terem se originado nos agrupamentos

    de escravos, quando os cultos afro-brasileiros tomaram maior organizao, no sculo

    XX, a Igreja posicionou-se claramente contrria sua prtica.

    O texto da Pastoral Coletiva do Episcopado Brasileiro de 1915 evidencia bem

    esta afirmao, principalmente onde se l: O espiritismo o conjunto de todas as

    supersties e astcias da incredulidade moderna, que, negando a eternidade das penas

    do inferno, o sacerdcio catlico e os direitos da Igreja Catlica, destri todo o

    cristianismo. Observemos que no somente as religies de matriz africana, mas

    tambm o espiritismo europeu so chamados de supersties. Continuando: os espritas

    devem ser tratados como verdadeiros hereges e fautores de heresia (WULFHORST,

    1989, p. 19). Este pensamento est de acordo com o perodo de romanizao da Igreja

    no Brasil, que vai de 1890 a 1960.

    Nesta perspectiva de heresia supersticiosa, alm do problema da adoo de

    deuses estranhos, embora sincretizados com santos catlicos surge outro problema mais

    srio, que o fato do transe. Este fenmeno ser compreendido de quatro maneiras

    diferentes: uma expresso diablica; um fenmeno paranormal; uma fraude; ou um

    processo patolgico que conduzir o praticante loucura.

    A ideia de possesso diablica est bem em acordo com as crenas da Igreja

    medieval, porm parece um tanto bizarra para a Igreja do sculo XX, e esta atribuio

    de causalidade foi observada com muita cautela. Para no enveredar nos campos

    sombrios da inquisio em tempos de cincia moderna, preferiu-se optar para uma das

    outras trs explicaes, ainda assim sendo as explicaes de fraude ou patologia menos

    ameaadoras do que a parapsicolgica.

    Para combater os males da heresia supersticiosa lanada na primeira reunio

    ordinria da Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil em 1953, em Belm do Par, a

    Campanha Nacional Contra a Heresia Esprita, em que Dom Helder Cmara designa

    como lder o telogo Boaventura Kloppenburg. Este movimento tem por objetivo

    combater as prticas espritas (afrodescendentes e kardecistas). O excesso tamanho

    que se chega ao ponto de exigir um juramento anti-esprita aos membros de associaes

    religiosas catlicas. (WULFHORST, 1989).

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    Paralelamente s aes da CNBB, a IECLB (Igreja Evanglica de Confisso

    Luterana do Brasil) posicionou-se contra estas heresias espritas, e os cultos de transe

    foram caracterizados como fenmenos demonacos. As prticas espritas-kardecistas e

    afrodescendentes foram estigmatizadas principalmente pelas pregaes do reverendo

    Koch, que havia sido missionrio na frica.

    Outro pregador importante neste contexto antiesprita foi Flling, que em 1957

    publicou um artigo onde percebia nos cultos espritas uma recada ao paganismo, e o

    renascimento de um paganismo obscuro.

    Por outro lado, igrejas fundamentalistas de origem Norte-Americana,

    principalmente as de abordagem pentecostal, iniciaram campanhas de converso em

    massa, tanto de adeptos de cultos afrodescendentes e espritas, quanto de catlicos

    romanos!

    Atualmente, neste campo de interpretao do fenmeno, podemos perceber duas

    posturas diferentes nas igrejas. Uma de tolerncia, dilogo inter-religioso e resgate da

    origem histrica e simblica. Este o caso de correntes mais sociais e antropolgicas da

    Igreja, evidenciando-se, por exemplo, no estudo e resgate das tradies catlicas

    populares (o catolicismo popular bem diferente do catolicismo teolgico), como o

    demonstra o Dicionrio de religiosidade popular em elaborao pelo Frei van der Poel

    Ofm. Ou na nova postura pastoral elaborada por Kloppenburg (1968), em que se pode

    perceber referncia religio umbandista e no mais heresia umbandista. A Igreja

    influenciada pelos princpios do Conclio Vaticano II, sugere buscando a valorizao

    dos costumes e tradies dos povos a serem cristianizados.

    Bem distante da posio da Igreja Catlica e das protestantes histricas, afirma-

    se cada vez mais a ideia de possesso demonaca atravs de testemunhos de converso e

    sesses pblicas de exorcismos. Isto ocorre com muita frequncia em igrejas

    pentecostais e neopentecostais, bem como no ramo carismtico da Igreja Catlica, que

    se valem de interpretaes fundamentalistas da Bblia, e adotam uma postura de guerra

    espiritual de fundo medieval quanto aos fenmenos psquicos, ou sejam, os demnios.

    No contexto neopentecostal, que fortemente fundamentalista, os orixs do

    candombl e da umbanda, bem como os espritos e mentores do kardecismo so

    percebidos como demnios maldosos e destrutivos. Esta uma leitura derivada de seus

    pressupostos dogmticos, em que um nico deus absoluto e verdadeiro no pode aceitar

    a convivncia com outros deuses (ZACHARIAS, 1998).

    Automaticamente estes outros deuses se tornam falsos deuses, como ocorreu no

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    perodo de Abrao, quando o povo semita se separava dos caldeus e Jav se afirmava

    como nico e verdadeiro deus frente aos outros deuses existentes e cultuados na

    Mesopotmia (ARMSTRONG, 1994); ou como ocorreu no cristianismo, que por haver

    desenvolvido o conceito de diabo e demnios, a arrola todos os outros deuses

    remanescentes de outros povos e culturas s quais foi se impondo.

    Uma anlise mais antropolgica ou psicolgica nos leva a perceber que os

    diversos deuses que o cristianismo foi atirando ao domnio do inferno (inferos) so

    representativos de potencialidades da alma humana e de instancias da vida como: a

    materialidade, o feminino, a sexualidade e o mal. Dourley desenvolve brilhantemente

    esta discusso em sua obra A doena que somos ns.

    interessante notar que ocorre o p