16199_Bonus Rex Ou Rex Inutilis

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UNIVERSIDADE DE LISBOA FACULDADE DE LETRAS DEPARTAMENTO DE HISTRIA

BONUS REX ou REX INUTILISAS PERIFERIAS E O CENTRORedes de Poder no Reinado de D. Sancho II (1223-1248)

Jos Varandas

Tese orientada pelo Professor Doutor Pedro Gomes Barbosa e co-orientada pelo Professor Doutor Antnio Borges Coelho

DOUTORAMENTO EM HISTRIA HISTRIA MEDIEVAL

2003

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NDICE

Agradecimentos Introduo 1. D. Sancho II de Portugal um conspecto historiogrfico..1.1. Do Conspecto 1.2. As Histrias Gerais 1.2.1. 1.2.2. 1.2.3. 1.2.4. 1.2.5. 1.2.6. 1.2.7. 1.2.8. 1.2.9. 1.2.10. 1.2.11. 1.2.12. 1.2.13. 1.2.14. 1.2.15. Fr. Antnio Brando (1632) Alexandre Herculano (1847) Joaquim Pedro de Oliveira Martins (1879) Manuel Pinheiro Chagas (1899) Fortunato de Almeida (1910) ngelo Ribeiro (1928) Miguel de Oliveira (1940) Lus Gonzaga de Azevedo (1944) Maria Emlia Cordeiro Ferreira (1975) Joaquim Verssimo Serro (1977) Marcello Caetano (1981) Jos Mattoso (1985) Jorge Borges de Macedo (1988) Antnio Borges Coelho (1993) Leontina Ventura (1996)

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19 21 27 31 43 77 79 95 103 117 121 149 153 159 163 185 189 199 211 211 225

1.3. Os estrangeiros: uma amostragem 1.3.1. 1.3.2. Henri Schaefer (1847) Harold V. Livermore (1969)

2.

O Problema Poltico2.1. A transferncia de poder 2.1.1. 2.1.2. 2.1.3. 2.1.4. Limitaes ao modelo central: a questo com as infantas Os bispos como problema poltico: uma primeira enunciao O primeiro problema: a menoridade do soberano Os tutores do rei: um falso problema?

231 233 241 255 263 275

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2.1.5.

Monarquia e igreja: problema central

281 289 341 381 391 409

2.2. O processo de deposio do rei 2.2.1. 2.2.2. 2.2.3. 2.2.4. De rex utilis a rex inutilis Da bula de deposio s reaces polticas Guerra civil: a reaco militar de Sancho II O fim do rei

3.

Centro e Periferia3.1. Centro e periferia: primeira abordagem

413 414

3.2. Rei e governo central: continuidade e ruptura das redes de poder (1210-1250) 426 3.3. Poder central e elites urbanas: factores de desagregao 3.4. Sancho II e a Igreja: a difcil delimitao de poderes 3.5. Senhorios e coroa: blocos antagnicos? 3.6. Aquisio e consolidao das periferias: o processo militar 3.7. Estrutura central e desenvolvimento: modelos econmicos e consolidao do 449 479 549 561

territrio3.8. Centro e periferia: o rei como garantia do reino

587 603

Concluso Fontes e Bibliografia Anexo

615 641 731

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AGRADECIMENTOS

Uma dissertao de doutoramento , sempre, um trabalho moroso, longo, difcil, composto de estmulos, alegrias, tristezas e ansiedades, mas , sobretudo, um trabalho solitrio, onde estados de alma contraditrios se entrecruzam e se anulam, ao longo de uma caminhada, onde levamos por companhia a solido, e os fantasmas severos daqueles que nalgumas pginas nos atrevemos a trazer ao mundo dos vivos. Muitas vezes paramos, samos do caminho, e nessas paragens encontramos alento, confiana, determinao, direco, carinho e amizade, de pessoas que na nossa vida pessoal e acadmica assumem um papel fundamental. a essas, que queremos agradecer muitas coisas, e entre elas o facto de termos conseguido concluir este trabalho. O meu amigo, o meu orientador, o Professor Doutor Pedro Gomes Barbosa, o primeiro a quem agradeo a disponibilidade, a confiana e a franqueza com que dirigiu este trabalho e todos estes anos de vida acadmica. A ele devo a escolha do tema e o desafio inicial. Ao meu outro amigo e co-orientador desta dissertao, o Professor Doutor Antnio Borges Coelho, agradeo esta emoo de poder contar com a sua amizade e com o seu imenso saber, vitais que foram nos momentos de menor inspirao. Outros dois amigos, dos grandes, sempre me acompanharam, no deixando que as minhas fraquezas se sobrepusessem e impedissem os passos que devia dar. Professor Doutor Hermenegildo Fernandes e Professor Doutor Bernardo de S Nogueira, a eles devo a alegria de chegar ao fim, e tantas outras coisas. E, com eles, quero agradecer e

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saudar outra amiga, a Dr Isabel de S Nogueira, que tambm l esteve, com a sua perspiccia e sentido de humor fulminante, nos meus bons e maus momentos. Para outro amigo se volta, constantemente o meu pensamento, lembrando os momentos iniciais desta tese. Ao Professor Doutor Antnio Ribeiro Guerra, onde quer que esteja, fica a tristeza de no poder mostrar o que escrevi, e a saudade de uma boa amizade. Agradeo ainda a ajuda constante e alegre de outro amigo de longa data e companheiro de caminhada, o Dr. Nuno Simes Rodrigues. No posso esquecer, nesta hora, outros Professores, outros tantos amigos, que felizmente tenho no Departamento a que perteno na Universidade de Lisboa, e que tantas vezes me deram provas de estima e amizade, atravs de conselhos, estmulos e, at, repreenses simpticas. Espero no me esquecer de ningum, j que quero nomear aqueles que se preocuparam com este trabalho: os Professores Doutores Jos Augusto Ramos, Joo Medina, Antnio Dias Farinha, Antnio Marques de Almeida, Jos Nunes Carreira, Maria do Rosrio Themudo Barata, Antnio Ventura, Vtor Serro, Lus Filipe Barreto, Srgio Campos Matos, Joo Cosme, Jos Horta, Joo Pedro Cunha Ribeiro, Francisco Contente Domingues, Antnio Joaquim Ramos dos Santos, Joo Martinez, Paula Loureno, Ftima Reis, Carlos Fabio, Amlcar Guerra, Ana Arruda, Lus de Arajo e Carlos Margaa Veiga. Ao Dr. Jos Brissos, agradeo o seu apoio e imperturbvel amizade, de alguns anos, e ao Dr. Antnio Cordeiro Lopes, tambm deixo um obrigado pela amizade e pela ajuda, nalguns aspectos burocrticos, que podiam ter travado este trabalho.

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Aos meus colegas e amigos da minha rea de trabalho, a Histria Medieval, quero agradecer, de forma particular, todo o interesse e amizade com que seguiram este e outros trabalhos, e que aqui quero referir: Professora Doutora Manuela Mendona, Professora Doutora Margarida Garcez, Professora Doutora Manuela Santos Silva, Professor Doutor Armando Martins, Professora Doutora Ana Maria Rodrigues e Dr Julieta Arajo. Aos Professores e amigos de outros Departamentos da minha Faculdade, e que se interessaram por este trabalho, tambm quero deixar uma forte saudao: Professores Doutores Joo Dionsio, Manuel do Carmo Ferreira, Leonel Ribeiro dos Santos, Maria Alzira Seixo, Fernanda Gil Costa, Jos Manuel Simes, Teresa Alves, Teresa Seruya, Graa Abreu e, ainda, aos Drs. Lus Pereira, Lus Filipe Teixeira e Ricardo Reis. Pela amizade, disponibilidade e longas conversas em vrias terras deste Pas, quero agradecer ao Dr. Srgio Farinha, meu amigo e meu cunhado. Ao meu amigo, Dr. Vasco Resende, com quem nos ltimos anos trabalhei, no Centro de Histria e no Instituto de Estudos rabes e Islmicos, em mltiplas tarefas, quero agradecer a alegria, humor e amizade com que brindou um antigo professor. Agradecimentos, que torno extensivos, a outro meu antigo aluno, o Dr. Paulo David Vicente. E, no fim, aqueles que so sempre os primeiros, a minha famlia. minha mulher, Marina, e ao nosso filho, Diogo, os mais sacrificados pela minha solido, pela minha incapacidade de os ajudar quando tambm precisavam, por estar presente, quando estava ausente, mas a quem agradeo tudo. O amor, o carinho, a amizade, a censura, mas acima

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de tudo a presena e o facto de partilharem a minha vida. Este trabalho para eles, com Amor. Aos meus Pais, que sempre esto.

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INTRODUOSancius, Dei gratia

Imprimis mando quod filius meus infans D. Sancius, quem habeo de Regina D. Urraca habeat Regnum meum integre & in pace

(Treslado do Testamento delRey D. Affonso II, in BRANDO, Fr. Antnio, Crnicas de D. Sancho I e D. Afonso II, Porto, Liv. Civilizao, 1945, p. 283)

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Desde h muito que entre os historiadores da sociedade medieval europeia se consolidou a noo de que durante o sculo XIII se verificaram mudanas substanciais nos comportamentos e valores sociais, culturais e polticos dos vrios reinos da Cristandade. Dentro das diversas alteraes que aquele perodo conheceu uma delas sobressai em absoluto. A noo de que este o sculo onde numa Europa profundamente Catlica, a Igreja perde alguma da sua influncia e capacidade de governao. No no que concerne ao seu universo especfico, a no plano espiritual e na gesto dos seus patrimnios, continuam exmios e o modelo de organizao a que chegam quase perfeito. A viragem, ou seja o problema, est na maneira como foram administrando e actuando sobre a sociedade civil. As grandes modificaes que os movimentos reformistas e de transformao cultural ocorridos ao longo do sculo XII foram introduzindo e consolidando, e que encontravam cada vez mais eco na sociedade laica, tendiam a escapar ao controlo da Igreja. A Europa secularizava-se em todos os campos onde existia actividade humana: na arte, na literatura, na economia, nas instituies e, claro, na poltica. No cabendo a este trabalho o estudo profundo dessas transformaes, das suas causas e consequncias, interessa-nos contudo explorar um dos caminhos visveis e determinador na forma como a opinio pblica daqueles tempos se alterou. Esse caminho o que leva laicizao da sociedade medieval europeia e da forma como ela se expressa na realidade portuguesa, em especial durante o reinado de D.

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Sancho II. A afirmao de novos valores polticos na Europa, onde o papel do soberano e da sociedade laica ganham cada vez maiores adeptos e a ideia de Reino, cada vez mais, se consubstancia, numa realidade tendencialmente homognea e coerente, garantida pela continuidade fsica e poltica entre o centro de poder e as fronteiras e, claramente desfavorvel manuteno dos velhos subsistemas feudais e esferas de influncia regionais. No processo de laicizao da sociedade percebemos que o poder se transfere da Igreja para o Estado, em muitas das suas componentes. Desde a alta Idade Mdia que a Igreja controlava o sistema p