Sue Anne Guimarães Cursino Pessoa2 Rosemara Staub de · PDF filecaledoscópio no...

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Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XVI Congresso de Cincias da Comunicao na Regio Norte Manaus - AM 24 a 26/05/2017

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Complexidade na Casa da Cultura de Parintins1

Sue Anne Guimares Cursino Pessoa2

Rosemara Staub de Barros 3

Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Resumo

O texto compartilha a compreenso de intervenes urbanas como sinais do fnomeno runa criao presente na Casa da Cultura de Parintins. Tais imagens constituem um

caledoscpio no qual, dentro de um contraditrio, podemos dizer que existe produo cultural, relaes afetivas e aes sociais, a despeito do abandono do prdio por parte do

poder pblico. Destacamos a epistemologia complexa como mtodo de pesquisa e reflexo, conforme Edgar Morin, bem como fazemos coro ideia de que as imagens pensam, formulada por Etienne Samain. O dialogismo bakhtiano se torna

imprescindvel neste processo de compreenso de relaes.

Palavras-chave:

Pensamento complexo; urbano; imagens; ecossistemas comunicacionais artsticos.

Introduo

Nos grandes centros urbanos existe uma rica produo de cultura visual por

meio das intervenes como grafite, colagem de cartaz, pichaes, entre outros traos

que ganham dimenses de discursos produzidos num campo simblico, subjetivo e

pblico. Tais atividades podem causar reaes de desprezo ou sentimentos de afeto ao

heterogneo pblico apreciador, isto porque so de determinado modo uma violao da

paisagem da cidade, mas por outro lado tambm podem ser formas de comunicao, em

especial do que no pautado pela grande mdia.

interessante enfatizar que este fenmeno raro nas cidades do interior do

Estado do Amazonas, e aqui se estreita o olhar para a cidade de Parintins4, onde a

comunicao visual tem um aspecto muito singular, caracterizada pela tcnica do

1Trabalho apresentado no DT 8 Estudos interdisciplinares do XVI Congresso de Cincias da Comunicao na

Regio Norte, realizado de 24 a 26 de maio de 2017. 2Mestre em Sociedade e Cultura na Amaznia (PPGSCA/UFAM). Jornalista graduada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM). E-mail: sueannegcursino@hotmail.com 3Orientadora da pesquisa de dissertao que originou o presente texto. Doutora em Comunicao e Semitica

(PUC/SP). Professora de Artes (UFAM) e do Programa de Ps-Graduao Sociedade e Cultura na Amaznia

(PPGSCA-UFAM) 4A cidade de Parintins est localizada no interior do Estado do Amazonas, no extremo leste, distante da capital aproximadamente 24 horas em viajem de barco (ou 369 quilmetros) saindo da cidade de Manaus. A populao

estimada de 112.716 habitantes segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatsticas (IBGE) em

2016.

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muralismo, por meio do qual o imaginrio amaznico retratado principalmente com

elementos do folclore e das belezas naturais.

Como uma presena contrria a esta, percebe-se uma heterognea produo

visual nas paredes da Casa da Cultura de Parintins se configurando como arte urbana

por meio das linguagens que mesclam o muralismo, o grafite, a pichao e a colagem,

com um vis direcionado contracultura.

Da a inteno de perceber a complexificao das imagens e suas possveis

dimenses. Foi o que fizemos na dissertao intitulada Runa e Criao: Relaes

Complexas em imagens na Casa da Cultura de Parintins, defendida em fevereiro de

2017, a qual teve apoio da Fundao de Amparo Pesquisa do Estado do Amazonas

(FAPEAM). Da pesquisa compartilhamos aqui o entendimento da Casa da Cultura

como Umwelt, ou seja, tornou-se necessrio o olhar sobre o ambiente, observando a

interao mtua entre os elementos formadores do sistema, com foco nas imagens no

como simples componentes de um territrio, mas sim um ecossistema, o ambiente como

um todo.

Que casa da cultura essa?

A Casa da Cultura Alzira Saunier foi um projeto idealizado para que funcionasse

como espao para cursos, lazer e demais atividades culturais. O prdio est localizado

em Parintins, na Avenida Naes Unidas, prximo ao Centro Cultural e Esportivo

Amazonino Mendes, conhecido como Bumbdromo. H mais de 25 anos o local est

abandonado pelo poder pblico e ficou anos escondido por outdoors publicitrios, at

que houvesse ao de visualidade para o local, como algumas ocupaes realizadas por

universidades e movimentos sociais, para alm de pessoas desconhecidas que

frequentam ali, como vemos na fala da professora e militante Ftima Guedes:

At a data da ocupao, a Casa da Cultura era um cadver ocultado propositadamente por outdoors, sob total conivncia dos Poderes Executivo e Legislativo. Mexer naquelas runas trazia de volta um passado de corrupes administrativas cuja memria respingava em agentes do presente. A partir da ocupao, desenterrou-se o espao, sua trgica memria e oportunizou o debate poltico sobre o conjunto de arbitrariedades que o levaram s runas. Com a visibilidade proporcionada pela ocupao, aquele espao despertou interesse em militncias polticas e artistas no sentido de reaproveit-lo para desenvolvimento de prticas em educao popular, shows culturais, exposies artsticas, feirinhas... Os grupos que ocupam a Casa para realizao dos eventos se articulam a partir de afinidades poltico ideolgicas. Essa Articulao passou a denominar-se Parintins sem

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Fantasias. Quando h vazios dessas atividades, as paredes se oferecem como abrigo a dependentes qumicos e a amantes clandestinos. (Ftima Guedes em entrevista cedida pesquisadora, 2016).

A seguir, a Figura 01 mostra a fachada do prdio que est sem teto, sem porta e

sem piso.

Figura 01 Frente do prdio da Casa da Cultura em 2016.

Fonte: Acervo de Sue Anne, 2016.

Um exemplo de ocupao foi a do Movimento Parintins Sem Fantasia (MPSF),

que iniciou em 2013, se estendeu de forma espordica e acompanhei efetivamente dos

anos de 2013 a 2016.

O MPSF um grupo heterogneo, pluripartidrio, formado por Movimentos

Sociais intitulados Articulao Parintins Cidad, Marcha Mundial das Mulheres,

Articulao Nacional de Educao Popular e Sade, Jornal Planto Popular, Instituto

IRAPAM, Liceu de Artes e Ofcios Cludio Santoro, discentes e professores da UFAM,

UEA, IFAM e rede estadual, movimento de tribos urbanas como anarcopunk, hip hop e

rock, sociedade civil em geral.

Este coletivo resultou da insatisfao com o descaso de questes relacionadas

sade, educao e cultura, pois Parintins vive problemas de quase toda cidade pequena,

como a centralizao do poder em blocos polticos partidrios e religiosos, assim como

abandono de obra que no foi realizada pela administrao que esteja no poder.

Neste entrelaamento as redes no so apenas a soma das partes, mas

compreendemos que a parte est para o todo e o todo para a parte (MORIN, 2008). Isto

quer dizer que no se trata de simples superposies, mas sim de um sistema. Deste

modo no h lgica falar em fechamento de sistema quando se busca a conectividade.

A partir deste entendimento, os espaos pblicos onde as intervenes visuais se

fomentam em cultura so o lugar de outra linguagem, mais plural, democrtica,

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informal, clandestina e mesmo radical conforme conceito desenvolvido por Downing

(2002).

O pensar das imagens

Liberdade, este substantivo pintado em diferentes traos, na claridade do dia ou

na escurido da noite, resultado de um desejo de firmar, questionar e lutar por uma

condio que permita agir e se expressar de modo livre. Possivelmente este o

sentimento que permeia os autores das imagens das paredes da Casa da Cultura de

Parintins. Seus registros, alguns assinados e outros de autoria desconhecida, florescem e

criam imagens capazes de compor um pensamento para alm da materialidade das

intervenes artsticas.

Quando o efmero se exps para mim, registrei-o com um clique de mquina

fotogrfica. Ali estavam imagens que, mesmo fechadas nos bytes do computador,

figuravam a ilimitada possibilidade de significar. Imagine quando por elas fui convidada

a pensar? Um exerccio no qual o processo de observao sobre as diferentes

perspectivas de representar crticas aos problemas sociais, econmicos e polticos,

declaraes de amor e devaneios.

Compartilhar as fotografias convidar o leitor para um passeio para alm delas.

um chamamento para desabrochar a mente s ilimitadas possibilidades de religaes

possveis ao encarar certa liberdade recriada pela visualidade.

A partir delas so narradas histrias do indivduo, da sociedade. Elas que

tambm conversam umas com as outras, preparadas a todo instante para uma leitura

sobre a apreciao carregada consigo, pronta, apta, mas no acabada, ao mesmo tempo,

para o dilogo com quem a l. Os registros no esto desconexos da realidade, sendo

fruto do que exp