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  • 2010 d.B. Jamais me esquecerei o dia em que fomos , eu e mais duas trs mulheres, abundantemente humilhadas por aquela mega bunda, afinal vivemos no pas onde tudo termina em bunda.

    RomantismoTnia Regina Oliveira RamosGizelle Kaminski CorsoTalvez eu seja o ltimo romnticoDos litorais desse oceano atlntico []Se loucura ento/Melhor nem ter razo.

    (Lulu Santos)

    Procuremos pesquisar o termo romntico e ele se mostrar aparentemente comum na atualidade, que parece se fazer presente, principalmente, entre os apaixonados ou s vsperas do dias dos namorados. Ser romntico, ou romntica, na concepo usual da palavra, significa ter atitudes de carinho (trazer flores, bombons, jantar luz de velas) para com sua companheira, seu companheiro, provocar sentimentos ternos no outro, ser sentimental, ter paixo. Essas atitudes, esses gestos, podem muito bem ser ilustradas por canes de Roberto Carlos, nos versos, Quando eu estou aqui, eu vivo esse momento lindo, Eu tenho tanto pra ti falar, mas com palavras no sei dizer, como grande o meu amor por voc, Voc tem que ter um homem como eu romntico/ que adoa a sua vida e saiba te dizer, romntico ou por filmes gnero de Love story, Vem danar comigo, Uma Linda Mulher, Crepsculo.

    Com a abertura deste tpico sobre o Romantismo, pretendemos justamente demonstrar que a concepo e entendimento da palavra romntico, que trataremos ao longo deste tpico, no ter essa equivalncia naturalmente, e sempre preciso desconstruir o falso entendimento de que o Romantismo foi um perodo histrico com a predominncia no sujeito lrico e em temas que tangenciavam amor, paixo e sentimentos individuais.

    Segundo Elias Thom Saliba (1991), foi Rousseau, em um trecho de Devaneios de um caminhante solitrio, de 1777, quem introduziu na lngua francesa o vocbulo romntico,

    que at ento significava: como nos antigos romances, e aproximava-se de tudo aquilo que poderia ser visto como pitoresco, romanesco, fabuloso. Mas romntico era visto tambm como desordenado, confuso, oposto ao indisciplinado, ao regrado, ao classificado, enfim, oposto ao rigor do clssico (SALIBA, 1991, p. 13).

    O Romantismo

  • Assim, o Romantismo, pode ser analisado como um movimento sociocultural que ocorreu entre fins do sculo XVIII e meados do sculo XIX. Todos os seus projetos se alimentaram de rupturas com o passado, ou seja, de oposio violenta ao Classicismo (clareza, transparncia, domnio do diurno) e Ilustrao, perodos em que prevaleceu forte racionalismo. Mas, o que o Romantismo? Escola? Perodo Literrio? Mo(vi)mento histrico? Estado de esprito? Jac Guinsburg nos responde, dizendo:

    o Romantismo designa tambm uma emergncia histrica, um evento scio-cultural. Ele no apenas uma configurao estilstica ou, como querem alguns, uma das duas modalidades polares e antitticas Classicismo e Romantismo de todo fazer artstico do esprito humano. Mas tambm uma escola historicamente definida, que surgiu num dado momento, em condies concretas e com respostas caractersticas situao que se lhe apresentou. [].Seja como for, o Romantismo um fato histrico e, mais do que isso, o fato histrico que assinala, na histria da conscincia humana, a relevncia da conscincia histrica. , pois, uma forma de pensar que pensou e se pensou historicamente (1978, p. 14).

    Para Michel Lwy e Robert Sayre (1995) so designados como romnticos, desde o sculo XIX, tanto escritores, poetas e artistas quanto idelogos polticos, filsofos, telogos, historiadores, economistas e outros. Para grande parte dos autores que se ocupam do romantismo,

    o fenmeno est despojado de todas as dimenses polticas e filosficas e reduzido a uma simples escola literria cujas caractersticas mais visveis so, em seguida, descritas de maneira mais ou menos detalhada. Em sua forma mais banal, essa abordagem ope o romantismo ao classicismo (LWY; SAYRE, 1995, p. 12).

    O Romantismo

    Figura 1 O viajante sobre o mar de nvoa (1818), Caspar David Friedrich (1774-1840)

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    1 Classicismo O termo vem de classis, frota, em latim, e refere-se aos classicis, aos ricos que pagavam impostos pela frota. Um escritor classicus pois um homem que escreve para esta categoria mais afortunada e mais elevada da sociedade. []. Depois o vocbulo sofreu vrias transformaes, passando a designar um valor, esttico, tico, mas principalmente didtico: um escrito clssico veio a ser uma composio literria reconhecida como digna de ser estudada nas classes das escolas (Rosenfeld, Guinsburg, 1978, p. 262). O termo classicismo, acrescentam os autores, diz respeito a princpios e obras que correspondem a certos preceitos modelares, os quais, por seu turno, derivam de certa fase da arte grega e a tomam como padro. Essa codificao ocorreu principalmente no Renascimento. Foi ento que a redescoberta da Antiguidade Greco-Latina ou, como passou a chamar-se, Clssica, a revalorizao de suas produes intelectuais e artsticas, conjugando-se com um extraordinrio surto da criatividade italiana e at europia, puseram novamente na ordem do dia o pensamento e os problemas estticos (p. 262).

  • Michel Lwy e Robert Sayre apresentam um estudo do romantismo como viso do mundo, estrutura mental coletiva (Lwy; Sayre, 1995, p. 28), que seja capaz de atentar para o romantismo como sendo um movimento que atinge todas as esferas das atividades humanas. E, segundo os autores, contra as caractersticas da modernidade (industrializao, desenvolvimento rpido, conjugao da cincia com a tecnologia, por exemplo) e do capitalismo que se insurge a sensibilidade romntica (desencantamento, fuga, idealizao de um tempo posterior ou anterior). Para Lwy e Sayre (p. 76), o romantismo, propriamente dito, enquanto resposta cultural global a um sistema scio-econmico generalizado, um fenmeno especificamente moderno. A oposio romntica modernidade capitalista-industrial reage a um certo nmero de caractersticas dessa modernidade, a citar (Lwy; Sayre, 1995): 1) O desencantamento do mundo; tentativa de reencantar o mundo tambm

    pela religio (magia, artes esotricas, feitiaria, alquimia);2) A quantificao do mundo;3) A mecanizao do mundo;4) A abstrao racionalista;5) A dissoluo de vnculos sociais.

    Embora o termo romntico tenha sido introduzido por Rosseau, o ncleo do fenmeno se deu em trs pases: Frana, Inglaterra, Alemanha, na segunda metade do sculo XVII, sendo impossvel afirmar qual deles o precursor.

    importante, ainda, ter em mente alguns acontecimentos mundiais, para entender o contexto histrico que antecedeu esse movimento literrio: a Revoluo Francesa e a Revoluo Industrial, responsveis pela formao da sociedade moderna. Com relao Revoluo Francesa, que estimulou burgueses e campesinos a se rebelarem contra a nobreza monopolizadora das grandes propriedades de terras, vale destacar o lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Das trs palavras que compem esse lema, os artistas

    O Romantismo

    Figura 2 A liberdade liderando o povo (1830) Eugne Delacroix (1798-1863)

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    2 Compreendida como fenmeno fundamental e abrangente [] [produzido] pela revoluo industrial e [pela] generalizao da economia de mercado (Lwy; Sayre, 1995, p. 35).

  • romnticos talvez tenham colocado mais nfase em uma delas: Liberdade, fundamentada na afirmao de que 'os homens nascem livres e devem viver livres' (Falbel, 1978, p. 33). Eles queriam para si a liberdade de opinio, de criao individual, sem seguir nenhum modelo anterior, especialmente os modelos neoclssicos, j esgotados h algum tempo. O modelo que eles queriam privilegiar era o de sua prpria imaginao, de seus sonhos, de suas fantasias. No Romantismo, segundo Jac Guinsburg, o homem passa a ser o centro de si mesmo, do sentido de seu viver; e seu estar-no-mundo, perdidos os demais focos de ordenao, constitui-se no mago de todo e qualquer significado de sua existncia e a do mundo, para ele (1978, p. 21).

    Dessa forma, todo artista romntico acabou por se voltar para si mesmo, num processo muito forte de egocentrismo, da valorizao exagerada do eu individual. Os romnticos faziam uma literatura intimista e, muitas vezes, idealizadora de um mundo perfeito que, pretensamente, existia dentro de si. Assim, o modelo seguido pelos romnticos foi o da irregularidade, da desobedincia, da liberao em virtude daquilo que vinha sendo feito/valorizado at ento: a fonte clssica, racionalista

    Alfredo Bosi, em Histria Concisa da Literatura Brasileira (46 ed., 2006), em captulo reservado ao Romantismo, afirma:

    O amor e a ptria, a natureza e a religio, o povo e o passado, que afloram tantas vezes na poesia romntica, so contedos brutos, espalhados por toda a histria das literaturas, e pouco ensinam ao intrprete do texto, a no ser quando postos em situao, tematizados e lidos como estruturas estticas (BOSI, 2006, p. 91).

    O Romantismo

    Figura 3 O Colosso (1808) Francisco de Goya (1746-1828)

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    3 A Revoluo Francesa, ainda que abolisse os direitos e as instituies feudais, no aboliu a desigualdade entre os homens. A liberdade sem a igualdade foi considerada insatisfatria, propondo-se, j naquela ocasio, que a propriedade fosse limitada perante a lei e se reduzisse a distncia abissal entre pobres e ricos, ou entre os possuidores e os que nada tinham a perder (FALBEL, 1978, p . 34).

    Nossos bosques tem mais vida

  • Com essa afirmao, o professor da Universidade de So Paulo, busca esclarecer a ideia de que os contedos vistos como caractersticos da literatura romntica permeiam as demais produes literrias ao longo do tempo; no so exclusivos do Romantismo. Para que o sejam, preciso que os textos sejam colocados em situao, ou seja, contextualizados, tematizados e lidos como estruturas estticas. Com isso, Bosi critica arduamente o entendimento da literatura por suas classificaes temticas.

    O Romantismo em solo brasileiro ocorre em um momento