Processo e Figuração: Um estudo sobre a Sociologia de Norbert Elias. [Luci Silva Ribeiro, 2010]

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA TESE DE DOUTORADO LUCI SILVA RIBEIRO Processo e Figuração: Um estudo sobre a Sociologia de Norbert Elias UNICAMP MARÇO DE 2010
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    22-Jan-2016
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Este trabalho tem como tema a análise da abordagem sociológicadesenvolvida pelo sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990).A teoria de processo e figuração desenvolvida pelo autor ao longo de sua vida fundamenta-se na relação funcional de interdependência recíproca que se estabelece entre os indivíduos vivendo em sociedade. Com essa postura, Norbert Elias transpõe o campo das dicotomias já determinadas, pois estabelece a priori uma relação de interdependência entre indivíduo e sociedade. Tal abordagem teórica tem por objetivo a construção de modelos de análise, empiricamente embasados, calcados em uma perspectiva processual, de longo prazo, onde se identifique, simultaneamente, as alterações nas estruturas sociais, para que, assim, possa-se chegar a visualizar a direção de seu curso. Outro apoio conceitual ao modelo teórico, além da noção processual, é a idéia de figuração, esta consiste, basicamente, na compreensão das organizações sociais – famílias, escolas, cidades ou estratos sociais – como sendo formadas pelas relações de interdependência entre os indivíduos. Em uma figuração são analisadas as dinâmicas das inclinações individuais que levam varias pessoas a se unirem em formarem uma sociedade. Dessa forma, os sentimentos e padrões decomportamento individuais são levados em consideração em igualdade com a análise de macroestrutura social.

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  • UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

    INSTITUTO DE FILOSOFIA E CINCIAS HUMANAS

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO EM SOCIOLOGIA

    TESE DE DOUTORADO

    LUCI SILVA RIBEIRO

    Processo e Figurao: Um estudo sobre a Sociologia de Norbert Elias

    UNICAMP MARO DE 2010

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    FICHA CATALOGRFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA DO IFCH UNICAMP

    Bibliotecria: Maria Silvia Holloway CRB 2289

    Ttulo em ingls: Process and figuration: a study on the Sociology of Norbert Elias

    Palavras chaves em ingls (keywords) :

    rea de Concentrao: Sociologia

    Titulao: Doutor em Sociologia

    Banca examinadora:

    Data da defesa: 31-03-2010

    Programa de Ps-Graduao: Sociologia

    Elias, Norbert, 1897-1990 Criticism and interpretation Sociology - Theory Social theory Civilization

    Josu Pereira da Silva, Andra Borges Leo, Srgio Luiz Pereira da Silva, Rubem Murilo Leo Rgo, Fernando Antonio Loureno

    Ribeiro, Luci Silva R354p Processo e figurao: um estudo sobre a Sociologia

    de Norbert Elias / Luci Silva Ribeiro. - - Campinas, SP : [s. n.], 2010.

    Orientador: Josu Pereira da Silva. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Cincias Humanas.

    1. Elias, Norbert, 1897-1990 Crtica e interpretao. 2. Sociologia - Teoria. 3. Teoria social. 4. Civilizao. I. Silva, Josu Pereira da. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Cincias Humanas. III.Ttulo.

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    todos que solidariamente me ajudaram, e em especial minha me Luiza, e ao meu pai Joo (in memorian)

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    Agradecimentos Foram anos dedicados a esta tese, anos em que contei com apoio e

    solidariedade de muitas pessoas, amigos antigos, novos amigos e amigos que passaram, alguns dos quais j no esto neste mundo. Ento, este trabalho tem para mim, entre outras coisas, o significado da solidariedade estendida. Eis o meu profundo agradecimento a todos.

    Agradeo com saudade e carinho a Marion Scull (in memorian), que antes de deixar esse mundo, me ajudou to fraternamente a aceitar as ddivas da vida, principalmente, quando elas me chegavam to amargas. Agradeo a sua me Marga Scull, que atravs a generosidade sua e de sua filha, transcreveu para mim cartas do arquivo de Norbert Elias escritas em Stterling. Agradeo a Daniel Carrara, pela sua amizade prazerosa, pelo seu companheirismo sutil e pela ajuda verdadeiramente humana que me concedeu. Agradeo aos meus queridos amigos Brand Arenari e Carlos Cardonha pela doce acolhida que me deram, fsica e emocional. Agradeo a Ana Helena Guimares por ter sido minha carinhosa amiga. Agradeo a Mario Videira pelas tradues de cartas e documentos em francs, e por ter aceitado ser meu irmo querido, e como irmo ter me acolhido muitas vezes.

    Agradeo minha famlia, minha me Luiza, meu pai Joo (in memorian), minha irm Claudia, por sempre terem me apoiado e incentivado, indiscriminadamente. Agradeo s minhas queridas e especiais amigas Denise Longo e Mrcia Malaguti, pela consultoria que me deram para as cartas e textos em ingls, pela ajuda impagvel que sempre me deram. Agradeo a Camilo Flamarion, meu eterno amigo que tantas vezes quando precisei esteve ao meu lado. Agradeo a Danilo Ramos pelas transcries de parte dos documentos em ingls. Minha gratido a Rossana Cavalini e a Fbio Coelho pelo socorro de ltima hora com a traduo do ingls para o portugus de boa parte das citaes deste trabalho. Agradeo de corao minha querida e forte amiga Andrea Lopes, cujo auxlio amoroso em tantos aspectos me fez seguir em frente. E sou grata de corao pelo cuidado, apoio e incentivo de Deise Arcocha e Iara Gravio.

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    Agradeo sinceramente s minhas amadas Paula Marcelino e a Adriana Delb por estarem ao meu lado e por fazerem parte da minha vida. Agradeo a Giuliana Franco Leal pelas leituras do meu texto, pelos comentrios e por ser minha amiga e a Silvio Camargo pelo companheirismo acadmico e humano. Agradeo a Susann Kreutzmann e a Klaus Frey pela reviso que fizeram das minhas tradues do alemo. Agradeo a Isac Marcelino pelo trabalho cuidadoso que teve com os enfeites deste trabalho, em especial pela linha do tempo. Agradeo ao timo trabalho de Maysa Gabrielle, que teve a gentileza de aceitar o trabalho de reviso deste texto em tempo recorde. Agradeo a Claudia Dornbusch e sua me Ilse Dornbusch pela ajuda que deram na transcrio da troca de correspondncia em alemo.

    Agradecimento especial ao meu prezado orientador Professor Josu Pereira da Silva, cuja ajuda em vrios aspectos, confiana e pacincia foram as motivaes perfeitas para que eu seguisse em frente. Aos professores Fernando Loureno e Jesus Ranieri, agradeo gentilmente pelas sugestes e crticas feitas poca da minha qualificao.

    Agradeo aos funcionrios do Marbach Archiv, Hildegard Dieke e Hildrun Fink e Thomas Kemme onde se encontra o arquivo de Norbert Elias, em Marbach, por sua dedicao e ajuda durante os perodos de pesquisa no arquivo. Agradeo ao Professor Doutor Erhard Stllting, por aceitar ter me orientado e ter me oferecido as condies necessrias para a conduo de minha pesquisa na Alemanha. Departamento de Sociologia da Universidade de Potsdam.

    Agradeo ao Doutor Cas Wouters e sua companheira Truus Snieder pela gentil acolhida em Amsterdam. Agradeo aos Professores Johan Gousblom e Stephen Mennell pelas entrevistas que to gentilmente me concederam.

    Agradeo ao departamento de sociologia do IFCH, aos funcionrios da ps-graduao, em especial Maria Christina Faccioni, pela pronta ajuda que sempre me deram. Agradeo ao DAAD e aos seus funcionrios pelo tutorado de pesquisa na Alemanha, indispensvel para a realizao desse trabalho. Por fim, agradeo Capes pelo apoio institucional.

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    A maioria da gente enferma de no saber dizer o que v e o que pensa. Dizem que no h nada mais difcil do que definir em palavras uma espiral: preciso, dizem, fazer no ar, com a mo sem literatura, o gesto, ascendentemente enrolado em ordem, com que aquela figura abstrata das molas ou de certas escadas se manifesta aos olhos. Mas, desde que nos lembremos que dizer renovar, definiremos sem dificuldade uma espiral: um crculo que sobe sem nunca conseguir acabar-se. A maioria da gente, sei bem, no ousaria definir assim, porque supe que definir dizer o que os outros querem que se diga, que no o que preciso dizer para definir. Direi melhor: uma espiral um crculo virtual que se desdobra a subir sem nunca se realizar. Mas no, a definio ainda abstrata. Buscarei o concreto, e tudo ser visto: uma espiral uma cobra sem cobra enroscada verticalmente em coisa nenhuma. (Fernando Pessoa).

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    RESUMO

    Este trabalho tem como tema a anlise da abordagem sociolgica desenvolvida pelo socilogo alemo Norbert Elias (1897-1990).

    A teoria de processo e figurao desenvolvida pelo autor ao longo de sua vida fundamenta-se na relao funcional de interdependncia recproca que se estabelece entre os indivduos vivendo em sociedade. Com essa postura, Norbert Elias transpe o campo das dicotomias j determinadas, pois estabelece a priori uma relao de interdependncia entre indivduo e sociedade. Tal abordagem terica tem por objetivo a construo de modelos de anlise, empiricamente embasados, calcados em uma perspectiva processual, de longo prazo, onde se identifique, simultaneamente, as alteraes na estruturas sociais, para que, assim, possa-se chegar a visualizar a direo de seu curso. Outro apoio conceitual ao modelo terico, alm da noo processual, a idia de figurao, esta consiste, basicamente, na compreenso das organizaes sociais famlias, escolas, cidades ou estratos sociais como sendo formadas pelas relaes de interdependncia entre os indivduos. Em uma figurao so analisadas as dinmicas das inclinaes individuais que levam varias pessoas a se unirem em formarem uma sociedade. Dessa forma, os sentimentos e padres de comportamento individuais so levados em considerao em igualdade com a anlise de macroestrutura social.

    Neste trabalho, cada conceito ser tratado isoladamente, porm sem que se perca a relao entre eles. Isso se deve a uma escolha didtica, para que fique claro ao leitor as especificidades seja da noo de processo, seja da noo de figurao, bem como a maneira que se relacionam.

    Considerando que os arcabouos tericos e empricos no nascem descolados de um contexto social e histrico, bem como so igualmente fruto de percepes individuais de quem os produz, este trabalho apresenta ainda uma biografia concisa de Norbert Elias.

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    Abstract

    This doctoral thesis is dealing with the analysis of the sociological approach developed by the German sociologist Norbert Elias (1897-1990).

    The process and figuration theory developed by the author during his lifetime is based on the idea of functional relations of mutual interdependence established between individuals living in society. From this starting point, Norbert Elias establishes a priori a relationship of interdependence between individual and society, transcending the field of predetermined dichotomies. Such theoretical approach aims at the construction of analytical models that are empirically substantiated and based on a long-term and process-related perspective. By identifying the changes occurring within social structures, it renders possible to visualize the direction of their course.

    In addition to the notion of process, the idea of figuration has been considered as part of Elias theoretical model. This idea comprises basically an understanding of social organizations families, schools, cities or social classes as being formed by relations of interdependence between individuals. In a given figuration the individual penchants are analyzed that bring different people to come together making up a society. Thus, sentiments and patterns of individual behavior are considered in the same way as the social macro-structure is analyzed.

    In this work, each concept is treated separately, but without ignoring the relation between them. This is due to a didactical choice in order to clarify to the reader the specifics of the two concepts, process and figuration, as well as the ways that characterize their interrelation.

    Taking into consideration that the theoretical and empirical frameworks do not come into being detached from a specific social and historical context and, in addition, have to be understood as the fruits of the individual perceptions of whom has been responsible for generating them, this thesis presents also a short biography of Norbert Elias.

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    Sumrio

    Introduo 01

    Captulo 1 A Trajetria de Norbert Elias: vivencias que inspiram teorias 19 1.1. Estabilidade e ruptura 26 1.2 Mudanas da trajetria e o fim da Repblica de Weimar 37 1.3 O exlio e o recomeo 51

    1.4. Apenas um elo na cadeia de geraes 73 Captulo 2 Perspectiva processual: direes de processos sociais e conhecimento 101 2.1 Para a construo de uma abordagem processual 104 2.2. Sociologia do conhecimento: uma perspectiva processual 118 2.3 As direes do conhecimento: relao entre engajamento e distanciamento 133 2.4 Para uma compreenso processual do conhecimento: Teoria simblica 139 2.5 Consideraes metodolgicas 146

    Captulo 3 Figuraes e relaes de interdependncia: o papel das emoes 165

    3.1 A perspectiva figuracional 166

    3.2 Figuraes e a importncia das emoes 176

    3.3 Sociologia figuracional: emoes e normas sociais 191

    Consideraes Finais 203

    Bibliografia 225

    Anexos 233

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    Introduo

    O presente trabalho tem como objetivo analisar a abordagem sociolgica proposta pelo conjunto da obra do alemo Norbert Elias.

    Norbert Elias insere-se na produo sociolgica europeia ao longo do sculo XX. Filsofo de formao, seus primeiros trabalhos buscaram elaborar uma crtica teoria kantiana do conhecimento Idia e indivduo: uma contribuio para a filosofia da histria.1 A mudana para a sociologia decorreu, em grande parte, das limitaes encontradas pelo autor no campo da filosofia, que oferecia uma viso cindida entre o indivduo e a produo de suas ideias. Segundo Elias, a sociologia oferecia condies para que essa perspectiva fosse ampliada; a liberdade desse campo que ainda estava em fase de consolidao permitia que o pesquisador ousasse na construo e desenvolvimento de suas pesquisas.

    Uma das obras mais conhecidas de Elias, a publicao de dois volumes em 1939, O processo civilizador (1993 e 1994a), pode ser considerada um expoente dessa situao de relativa independncia de ideias no campo da sociologia. Isso no significa, contudo, que no houvesse uma rigorosa avaliao do meio acadmico sobre as produes de sua rea, que eram submetidas aos cnones vigentes. A inovao de O processo civilizador est em trazer para o debate sociolgico a tematizao sobre as transformaes das emoes e da estrutura da personalidade como fruto das interaes sociais, alm de aliar essas transformaes ocorridas na esfera das personalidades individuais s transformaes ocorridas no mbito da formao dos Estados Nacionais europeus. Com essa obra, Elias inicia uma jornada para desenvolver e aprofundar uma abordagem sociolgica que primou pela relao entre indivduo e sociedade, uma perspectiva que supere a dicotomia vigente nas cincias sociais e humanas que separa o indivduo produtor de conhecimento do meio no qual esse conhecimento gerado.

    1 Idee und Individuum. Ein Beitrag zur Philosophie der Geschichte. (Elias, 2006a)

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    A consequncia, segundo Elias, de aceitar uma anlise balizada por um paradigma dicotmico a reificao, a reduo tanto das categorias de anlise quanto dos resultados da pesquisa. Para o autor, ... conceitos como indivduo e sociedade no dizem respeito a dois objetos que existiriam separadamente, mas a aspectos diferentes, embora inseparveis, dos mesmos seres humanos, e que ambos os aspectos (e os seres humanos em geral) habitualmente participam de uma transformao estrutural (Elias, 1994a: 220). Assim, contrariando as heteronomias vigentes, Elias segue na direo de esclarecer a relao que necessariamente se estabelece entre esses dois conceitos habitualmente tratados em separado. A teoria de processos e figurao desenvolvida pelo autor ao longo de sua vida fundamenta-se na relao funcional de interdependncia recproca que se estabelece entre os indivduos. Com essa postura, Elias transpe o campo das dicotomias, pois estabelece a priori uma relao entre indivduo e sociedade. Esta conduta de anlise se faz presente j em sua primeira publicao O processo civilizador , porm no a vemos prontamente estruturada como uma abordagem paradigmtica. O que na verdade vai-se consolidando ao longo dos anos.

    A discutida ciso entre agncia e estrutura uma caracterstica presente na formao da sociologia como matria cientfica. Herdeira dos mtodos e procedimentos das cincias fsicas e naturais, a sociologia trouxe consigo a mesma marca reificadora daquelas cincias. O uso de conceitos prprios do campo das cincias naturais, se, por um lado, auxiliou a sociologia a alcanar um status cientfico, por outro lado, limitou sua perspectiva a uma anlise esttica dos eventos sociais. Segundo Elias (2004: 14, 15):

    Tem-se verificado uma tendncia para tornar cientficos modelos de pensamentos e expresso usados naquilo que hoje designamos por cincia fsica, em ntida distino com o mundo humano e social. Muitas das descobertas das estruturas qumicas e fsicas passaram para o estoque de conceitos e palavras usados quotidianamente na sociedade europia, enraizando-se nela. Muitas palavras e conceitos cujas formas atuais derivam essencialmente da interpretao dos fatos naturais foram transferidos indevidamente para a interpretao dos fenmenos humano e sociais. (...). Por isso impedem que se

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    desenvolva um modo mais autnomo de falar e de pensar, mais adequado s particularidades especficas das figuraes humanas.

    O surgimento da sociologia no cenrio europeu do sculo XIX se deve tambm a uma mudana nos padres de sensibilidade da poca. A necessidade de uma cincia sobre as transformaes correntes no mundo social surge da crescente percepo dos problemas dentro daquele contexto. A sociologia como disciplina de conhecimento sobre a realidade social mais especificamente como uma cincia que prope esclarecer as relaes sociais, os diferentes processos de formaes societais (no apenas no que tm de comum, mas principalmente no que apresentam de anomia) nasceu em um contexto de complexas transformaes estruturais do mundo ocidental europeu no sculo XIX.2 Essas transformaes tinham como caracterstica o desalojamento de uma ordem instituda tanto nacionalmente formao dos Estados modernos e as respectivas formas de governo; a monarquia como internamente: formao de classes sociais que se autonomizaram perante o governo. A clebre frase de Marx, Tudo que slido se desmancha no ar, nos oferece de forma concisa a compreenso do perodo: uma ordem slida, calcada em valores supremos e transferida ao longo de vrias dinastias, vai perdendo lugar para outra ordem social, na qual o poder poltico e econmico passa para as mos de uma burguesia industrial que j se configura em luta com a classe trabalhadora.

    A necessidade de explicao dos fenmenos sociais intensifica-se medida que as relaes sociais se diversificam e tornam-se mais complexas. Como afirmou Merton, a sociologia surgia no sculo XIX como uma nova cincia de um assunto muito antigo (Merton, 1968: 58). Assim, a sociologia concentra seu foco de anlise nos problemas presentes, mas com vistas a explic-los em suas singularidades e regularidades, e, por conseguinte, oferecer respostas para solucion-los. Vemos, portanto, que a sociologia nasce com a clara preocupao com o futuro das organizaes sociais, e a primeira tarefa atribuda a ela por seus

    2 No o objetivo aqui tratar da histria da sociologia, existem inmeros trabalhos competentes a esse

    respeito. O propsito apenas introdutrio. Ver (Aron, 1982) e (Bottomore, 1978).

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    fundadores era oferecer conhecimentos suficientes para assegurar uma ordem regular e organizada.

    Para August Comte, considerado por muitos o fundador da sociologia, a questo pertinente que se colocava era como manter a evoluo da sociedade no caminho regular e moralmente correto, ou seja, Comte pensava a sociedade de uma forma geral, desenvolvendo um processo:

    As nossas verdadeiras necessidades lgicas convergem, pois, essencialmente para este comum destino: consolidar, tanto quanto possvel, por nossas especulaes sistemticas, a unidade espontnea do nosso entendimento, estabelecendo a continuidade e a homogeneidade de nossas diversas concepes e fazendo-nos achar de novo a constncia no meio da variedade de modo a satisfazer igualmente s exigncias simultneas da ordem e do progresso. (Comte, 1976: 27)

    Elias credita a Comte duas inovaes importantes e necessrias para o desenvolvimento da sociologia, que significaram o rompimento com o pensamento filosfico dominante. A primeira, como pudemos perceber, era a preocupao com o processo do desenvolvimento humano, que deveria se desenvolver em uma direo moralmente correta. A preocupao era com o futuro das sociedades humanas, no mais com a racionalidade do indivduo autonomizado: Para onde vamos? Onde nos leva o desenvolvimento da humanidade? Ser que se orienta na direo devida e ser essa a direo dos meus objetivos e ideais? O modo como Comte ataca estas questes trai o velho dilema que sempre confrontou os filsofos (...). Comte considerou algumas vezes a evoluo do pensamento humano apenas como um dos problemas-chave da evoluo da humanidade (Elias, 2004: 36).

    A segunda inovao de Comte diz respeito introduo do sujeito pensante na rede de relaes sociais. A produo de conhecimento no mais compreendida como mrito de um sujeito isolado, mas como um processo contnuo no qual o indivduo se insere: A transio de uma teoria filosfica para uma teoria sociolgica do conhecimento, o que Comte realizou, surge

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    essencialmente com a substituio da pessoa individual, enquanto sujeito do conhecimento, pela sociedade humana (Elias, 2004: 38).

    Dessa forma, vemos que Elias resgata as tendncias inovadoras da sociologia no que diz respeito sua ruptura com a filosofia, afirmando a necessidade de uma autnoma cincia da sociedade. No entanto, a afinidade com Comte esbarra na direo moral que este confere ao desenvolvimento humano. Para Elias, os processos de desenvolvimento no correspondem a uma direo estabelecida por uma vontade individual ou geral. Os processos so cegos, mas cabe sociologia examinar e interpretar (...) as foras compulsivas que agem sobre as pessoas nos seus grupos e sociedades empiricamente observveis (Elias, 2004: 16). So essas foras, segundo o autor, que do a direo dos processos sociais.

    A inclinao da sociologia em estudar e explicar os fenmenos sociais, considerados anomias e entraves ao desenvolvimento da humanidade, reforada por mile Durkheim, considerado, ao lado de Comte, um dos fundadores da sociologia. No entanto, o que gostaramos de ressaltar no o desenvolvimento da sociologia, mas que aspectos desse desenvolvimento firmaram sua caracterstica particular de cincia social. Nesse sentido, encontramos em Durkheim uma postura de anlise social que refora a ciso entre indivduo e sociedade, como podemos observar no trecho a seguir:

    O Sistema de sinais de que me sirvo para exprimir o pensamento, o sistema monetrio que emprego para pagar dvidas, os instrumentos de crdito que utilizo nas minhas relaes comerciais, as prticas seguidas na minha profisso, etc., etc. funcionam independentemente do uso que delas fao (...). Estamos, pois, em presena de modos de agir, de pensar e de sentir que apresentam a notvel propriedade de existir fora das conscincias individuais. (Durkheim, 1983: 87, 88)

    Em Durkheim observamos a predominncia do mundo social sobre as explicaes do mundo natural e mental nos quais os indivduos esto inseridos. Com isso, o mundo social apresenta-se como algo externo e supra-individual. Segundo Elias (2004: 129), Durkheim (...) se deparou com problemas que se

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    centravam na existncia de fenmenos sociais exteriores ao indivduo e sua conscincia ntima e, junto com estes, um conjunto de problemas mais antigos da teoria do conhecimento que giram em torno da existncia de objetos exteriores e da sua relao com o sujeito gnosiolgico individual e da sua conscincia, esprito, razo e outros atributos igualmente internos.

    Encontramos em Weber, um dos responsveis pelo estabelecimento cientfico da sociologia, uma postura contrria de Durkheim. A sociologia compreensiva inaugurada por Weber props interpretar a atividade social e com isso explicar de forma causal seu desenvolvimento e seus efeitos. A interpretao no corresponde a um decifrar das aes sociais, mas ela nos conduz a considerar o sentido que os atores sociais atribuem s suas prprias aes. Dessa forma, a sociologia compreensiva define os fenmenos sociais a partir de condutas individuais. Na interpretao weberiana, cada ao dotada de um sentido subjetivo atribudo pelo agente, isto , o sentido de uma ao no pode, portanto, ser apreendido como sendo de carter objetivo, correto ou verdadeiro.

    Quanto livre, isto , quanto mais a deciso do agente for tomada apenas com base em ponderaes prprias, no pressionadas por coao externa nem paixes irresistveis, tanto mais a motivao se adapta, ceteris paribus, s categorias fim e meios (...). Quanto mais livre, no sentido aqui empregado, a ao, tanto menos traz em si o carter do decurso natural; mais se realiza, finalmente, aquele conceito de personalidade que encontra a sua essncia na constncia de sua relao interior com determinados valores e significados ltimos da vida, que se exprimem em suas aes e fins, e, assim, se convertem em ao teleolgica racional. (Weber, 1995: 97)

    Elias, em oposio a Weber, situa o indivduo em uma densa trama social, e a abordagem de processos e figurao analisa as aes individuais como aes funcionais e interdependentes. Para contra argumentar a posio weberiana, Elias lana mo de um exemplo dado pelo prprio Weber para definir o que no deve ser considerada uma ao social: Segundo Weber, abrir um guarda-chuva quando chove no uma ao social. Aos seus olhos, a ao de abrir um guarda-chuva realizada sem que se atente aos outros. claro que nunca lhe ocorreu que os guarda-chuvas s se encontram em certas sociedades, no se fabricando,

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    nem se utilizando em outras (Elias, 2004: 130). Vemos, portanto, que Elias localiza as aes individuais em um contexto sociocultural de relaes individuais diretas e indiretas. A ao de abrir um guarda-chuva corresponde a uma ao social construda em uma sociedade onde se convencionou usar, fabricar e comercializar este objeto.

    As posies dos principais expoentes da sociologia levantadas nessa pesquisa mereceriam um maior aprofundamento, no entanto seu tratamento, ainda que superficial, tem o objetivo de servir de guia para o estabelecimento das oposies que parecem irreconciliveis no mbito das cincias sociais, em geral, e na sociologia em particular. A anlise sociolgica sempre precisou se debater entre um dos opostos, ou o indivduo em detrimento da sociedade, ou a sociedade em detrimento do indivduo. esse o dilema que vimos acima exposto nas consideraes sobre Comte, Durkheim e Weber.

    O que observamos ao longo do desenvolvimento da sociologia como matria cientfica a sua crescente diferenciao: quanto mais complexas se tornam as organizaes sociais, tanto mais a sociologia se pluraliza e enseja a formao de novas teorias, sejam elas de micro, mdio ou macro alcance. Os limites encontrados por essas correntes tericas esbarram no apenas no alcance de suas explicaes, mas tambm porque os respectivos alcances revelam de forma mais aguda a polarizao agncia/estrutura. As crticas normalmente dirigidas s macroteorias referem-se a generalizaes dos sistemas sociais e, consequentemente, a pouca, ou quase nenhuma, ateno dispensada com as particulares caractersticas de uma determinada sociedade. No se credita a um modelo sociolgico macroterico a capacidade de predizer com margem de segurana o funcionamento de mecanismos sociais, por generalizar de forma rgida as estruturas e mecanismos de funcionamento sociais. No que tange micro-sociologia e sociologia de mdio alcance, criticado o reduzido potencial de alcance, pois podem contribuir para estudos de problemas locais e pontuais.

    A retomada, ento, ainda que de forma muito simplificada, de um quadro crtico do desenvolvimento da sociologia tem por finalidade introduzir nesse

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    mesmo quadro uma abordagem de processos sociais de longa durao, com o objetivo de enriquecer o debate sociolgico em geral no que diz respeito ao alcance da sociologia na atualidade. A abordagem sociolgica de Elias prope a superao dessa dicotomia pela articulao contnua entre as formas de organizao sociais e manifestaes individuais.

    Ao final de sua longa vida, com 93 anos, Elias conseguiu esboar, segundo sua prpria aspirao, um programa de abordagem sociolgica sobre o desenvolvimento social de longo prazo, ao qual ele denominou Teoria de processos e figurao. Essa abordagem terica prope modelos de anlise calcados em uma perspectiva processual, de longo prazo, na qual se identifiquem as alteraes nas estruturas sociais e possa-se assim chegar a visualizar a direo de seu curso. O outro apoio conceitual ao modelo terico a ideia de figurao, que consiste basicamente na compreenso das organizaes sociais como famlias, escolas, cidades ou estratos sociais como sendo formadas pelas relaes de interdependncia entre os indivduos. Em uma figurao so analisadas as dinmicas das inclinaes individuais que levam vrias pessoas a se unirem e formarem uma sociedade. Dessa forma, os sentimentos e padres de comportamento individuais so levados em considerao em igualdade com a anlise de macroestrutura social.

    A teoria de Processos e figurao teve sua trajetria marcada por longos perodos de interrupo. Em 1939, com a concluso de O processo civilizador, Elias deduziu um modelo terico de anlise. O modelo terico e emprico que essa obra inaugura consiste no estudo de longo prazo de comparaes entre as fases de desenvolvimento de uma determinada sociedade, em estrita conexo com as fases de alteraes comportamentais e nas estruturas das personalidades individuais. Isso significa analisar, ao mesmo tempo, o indivduo e o meio social. Elias concluiu de seu estudo que um processo civilizador corresponde a uma centralizao poltica de poder e, ao mesmo tempo, a padronizao de normas sociais que obrigam o convvio sob a gide de uma sociedade.

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    O autor afirma que essa orientao de modelo de anlise pode ser utilizada nos lugares onde se deseje descobrir, de forma estruturada, os caminhos que conduziram a uma determinada figurao ao seu estado atual. Com tal mapeamento possvel entrever as reais origens de problemas sociais e assim influenciar positivamente suas solues. Vale lembrar que o estabelecimento de normas que regulem o convvio social no garante que elas sejam estticas. As normas e regras de convvio social sofrem, igualmente, transformaes e podem perder sua fora legitimadora de coeso social. Quando isso ocorre, sinal de que se coloca em marcha mais avanada o que Elias denominou processo de decivilizao sobre o qual trataremos mais adequadamente nas consideraes finais deste trabalho.

    A noo de processos j estava pronta no primeiro trabalho de grande envergadura de 1939 e, embora a noo de figurao fosse evidente, ainda no havia sido devidamente nomeada. Apenas trinta anos mais tarde, a noo dinmica dos indivduos com suas emoes e personalidades agindo em interrelao tomou forma sob o conceito de figurao. Este passou a ser utilizado mais sistematicamente por Elias a partir da dcada de 1970, e est mais bem esclarecido no livro Was ist Soziologie? (2004). Com o binmio processos e figurao, o autor designa sua abordagem de Teoria de processos e figurao. Veremos ao longo dos escritos de Elias, bem como daqueles que o citam, que os conceitos so muitas vezes usados separadamente, podendo-se ouvir teoria da figurao ou teoria processual. O importante a associao intrnseca entre esses dois conceitos.

    Neste trabalho, trataremos cada conceito isoladamente, porm sem que se perca a relao entre eles. Na verdade, ora a luz jogada sob um, enquanto o outro permanece na sombra, ora inverte-se o procedimento. Isso se deve a uma escolha didtica, para que fique claro ao leitor as especificidades de cada um e a maneira como se relacionam.

    Um estudo sobre a abordagem sociolgica de Norbert Elias justifica-se por duas razes. A primeira diz respeito necessidade de explicar melhor ao leitor de

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    Elias o que sua abordagem e sobre quais bases est fundamentada. Com isso, espera-se minimizar julgamentos prematuros e parciais que o leitor possa adquirir sobre a singularidade da contribuio de Elias, cuja obra muitas vezes mal interpretada, subestimada ou superestimada. A segunda justificativa, relacionada primeira, refere-se a evidenciar os contornos da abordagem de Elias, apontando suas limitaes e potencialidades para o fortalecimento do campo sociolgico e das cincias sociais.

    Vemos que a sociologia de Norbert Elias inscreve-se em um cenrio de amplo debate sociolgico. Elias no apenas herdeiro de um ethos cientfico gerado na consolidao da sociologia como matria cientfica na Alemanha nas primeiras dcadas do sculo XX, mas, dado o amplo espectro de sua abordagem, dialoga com as correntes mais contemporneas das reas das cincias sociais. No entanto, ainda existem algumas dificuldades, em certo sentido compreensveis, de trabalhar com a abordagem desenvolvida por ele. Isso de deve, principalmente, ao fato de Elias no ter sistematizado seu aporte de forma que este servisse de guia queles que desejassem utiliz-lo. Apesar de suas obras mais conhecidas, como O processo civilizador (1993 e 1994a), A sociedade de corte (1995), Os estabelecidos e os outsiders (2000), Mozart (2005a) e Os alemes (1997c) apresentarem de forma clara os procedimentos de pesquisa e a perspectiva terico-emprica que guiaram os objetivos de cada trabalho, falta uma estruturao comum entre desenvolvimento terico, pesquisa emprica e mtodos utilizados.

    A ausncia de um corpo estruturado das bases tericas que sustentam as produes de Elias acaba por gerar mal-entendidos sobre a abordagem eliaseana. Muitas vezes, suas obras so escolhidas como fonte de referncia emprica, sendo apenas citadas, sem que se considere a relao terica complexa que o autor desenvolve entre as noes de processos e figuraes. justamente esse aporte terico o fio condutor de todas as obras de Norbert Elias.

    Um outro problema, tambm decorrente da dificuldade de compreenso sobre a articulao terica de Elias, diz respeito ao desenvolvimento de crticas

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    fragmentrias perspectiva sociolgica de Elias.3 Podemos encontrar nas palavras de Zygmunt Bauman (1998: 31) um exemplo de uma crtica comum abordagem eliaseana. Ao afirmar que Elias faz da histria recente como sendo aquela que elimina a violncia da vida diria (...), Bauman considera de forma equivocada as afirmaes de Elias sobre o resultado da anlise de longa durao realizada em O processo civilizador. A violncia no afastada ou suprimida. O processo de centralizao poltica dos Estados europeus concentrou nas mos do Estado o monoplio do uso da violncia. Em completa concordncia com Weber, Elias explica como esse processo se deu, e como uma crescente internalizao do controle dos afetos humanos correu na direo da concordncia social na observao das regras e condutas do conviver. A seu favor, Elias argumenta que:

    3 Existem muitas crticas pertinentes feitas a Norbert Elias, assim como crticas que se equivocam na

    avaliao da anlise que fazem da perspectiva terica de Elias. Nas consideraes finais deste trabalho, tanto algumas crticas pertinentes quanto as que se equivocam sero tratadas de forma a evidenciar os pontos convergentes e divergentes.

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    Surge como evidncia para muitas pessoas que a descrio de qualquer tendncia a longo prazo no fluxo figuracional dos acontecimentos passados implica, imediatamente, uma previso definitiva para o futuro. Se na modelao do comportamento interpessoal se demonstrou uma tendncia civilizadora a longo prazo, aceita-se sem discusso que o investigador procurou provar que as pessoas so obrigadas no futuro a se tornarem mais civilizadas. (...). Quem quer que se preocupe com a construo de modelos de desenvolvimento social de base emprica, est sujeito a defrontar-se com a obstruo constante dos argumentos que se tornaram correntes, em oposio aos modelos de desenvolvimento de geraes anteriores. (Elias, 2004: 175).

    A abordagem de Elias composta, como j observamos, pela articulao dinmica entre dois conceitos: o conceito de processo e o de figurao. Muitas crticas tomam os conceitos de forma isolada, tirando assim sua fora de anlise, e no atentam para o fato de que o corpo da abordagem caracterizado pela relao entre ambas.

    Uma vez esclarecidas, ainda que de forma genrica, algumas questes relacionadas justificativa deste trabalho, possvel, ento, apresentar os objetivos principais que se impuseram a essa tarefa. O primeiro objetivo refere-se a uma apresentao da composio da abordagem eliaseana. Norbert Elias pretendeu desenvolver um arcabouo sociolgico terico-emprico que pudesse dar conta de uma variedade de questes sociais. Com esse arcabouo, ele almejava superar a dicotomia balizadora das diferentes abordagens sociolgicas, a saber: a dicotomia entre agncia e estrutura, ou como Elias mais comumente a chamou de dicotomia entre indivduo e sociedade. O segundo objetivo que aqui se coloca diz respeito ao alcance e contribuio dessa abordagem para a teoria social contempornea. Em outras palavras, este trabalho procura mostrar em que medida a perspectiva sociolgica eliaseana pode contribuir para pensar questes contemporneas.

    Para lograr esses objetivos tratamos de esmiuar a abordagem de Elias, ainda que de forma exaustiva, a fim de deixar clara sua composio e aplicao. A partir desse primeiro passo, foi possvel vislumbrar sua real potencialidade, incluindo a suas limitaes, para contribuir para uma melhor compreenso das

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    problemticas atuais, dentre as quais podemos citar, de forma generalizada, a dificuldade em lidar com as formas antigas e crescentes de violncia, bem como para uma discusso do sentido da vida moderna. Essas questes so amplas e complexas, mereceriam uma considerao mais adequada. No entanto, sero abordadas de forma mais restrita dada a prpria natureza desse trabalho, que no consiste em um debate sistemtico sobre as formas de violncia contempornea ou sobre os significados do viver construdos socialmente.

    Para concluir, aps termos discorrido sobre o tema deste trabalho, sua justificativa, bem como seus objetivos, seria conveniente uma vez mais reforar a contribuio que este trabalho pode oferecer ao arcabouo sociolgico. O desenvolvimento do conhecimento sociolgico fruto do desdobramento de vrias abordagens sociolgicas particulares. Essas, por sua vez, originam-se em contextos sociais e histricos dos mais variados. Assim, o que convencionamos chamar de sociologia constitudo por vrias sociologias, formas diferentes de abordar, com diferentes mtodos, o objeto comum: o mundo social. As vrias escolas normalmente concorrem para afirmar seu prprio mtodo ou teoria sobre as questes sociais que propem analisar. Podemos sintetizar esse argumento quando nos referimos ao debate em torno da dicotomia agncia/estrutura, tida como a balizadora das abordagens das cincias sociais.

    A sociologia de Elias vem se inscrever nesse debate com a proposta de superao da dicotomia. Pois, segundo o prprio Elias, estabelecer os perfis de anlise com base em pares dicotmicos empobrece a pesquisa cientfica e deixa a desejar no que diz respeito aos resultados obtidos.

    Chegamos assim a um ponto importante da nossa discusso. O exame detalhado de uma especfica abordagem sociolgica que se incumbe de superar a diviso dicotmica constitutiva do campo sociolgico pode auxiliar a compreenso da complexidade inerente rea de pesquisa sociolgica. No caso especfico, compreender a sociologia de Norbert Elias pode significar a ampliao da perspectiva sociolgica presente no debate contemporneo em teoria social.

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    Considerando que os arcabouos tericos e empricos no nascem descolados de um contexto social e histrico, bem como so igualmente fruto de percepes individuais de quem os produz, esta tese apresenta ainda uma biografia concisa de Norbert Elias. A finalidade dessa composio lanar luz sobre a relao, quase sempre negligenciada, entre os acontecimentos vividos, as percepes elaboradas de um indivduo e sua produo intelectual. Com esse intuito em vista, possvel alcanar uma compreenso mais realista e crtica, nesse caso especfico, da abordagem sociolgica desenvolvida por Norbert Elias. A biografia que aqui se apresenta constitui material de apoio para compreender o desenvolvimento da abordagem eliaseana. Segundo Mennell (1990b: 152), Norbert sempre disse que o mais importante era seu trabalho, e no a sua vida; mas isso uma contradio a seus prprios princpios. Para ele, toda explicao sociolgica considerada inadequada se no se tiver tempo para um de seus eixos principais, e no se pode facilmente compreender sua obra sem situ-la no curso de sua vida.4

    Por fim, nos pareceu conveniente o esclarecimento sobre algumas consideraes metodolgicas que envolvem este trabalho. Dado o carter terico desta tese, a pesquisa apoiou-se necessariamente no conjunto das obras de Norbert Elias nas lnguas alem, inglesa e portuguesa, e em obras de experts em Norbert Elias, dentre eles Goudsblom (1977), Mennell (1989), Dunning (2003). Parte da pesquisa foi realizada com o auxlio de bolsa sanduche fornecida pela CAPES em cooperao com o DAAD na Universidade de Potsdam, Alemanha. O perodo foi dividido em dois estgios que se intercalaram. Um estgio foi reservado pesquisa biogrfica, e ao trabalho de anlise de textos, o que ofereceu a possibilidade de contato com a literatura internacional sobre o autor, alm do acesso a textos de Norbert Elias publicados na Alemanha e Inglaterra. O

    4 Norbert always said that it was his work, not his life, that was important; but that was a contradiction of

    his own principles. For he regarded any sociological explanation as inadequate if it did not have time as one of its principal axes, and one cannot easily understand his work without setting it in the course of his life. (Mennell: 1990b, 152)

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    segundo estgio foi dedicado pesquisa no Arquivo de Literatura Alem (DLA) em Marbach. Esse arquivo abriga o esplio de Norbert Elias.

    O arquivo de Elias comporta um acervo rico e volumoso de boa parte de seus manuscritos, muitos ainda inditos, textos de aulas, troca de correspondncias, documentos pessoais e profissionais, palestras gravadas ainda em fitas cassete. Esse material est devidamente inventariado em trs grandes catlogos. O primeiro catlogo traz o inventrio do arquivo pessoal de Elias, todos os documentos referentes sua vida pessoal e profissional. O segundo traz o inventrio da biblioteca de Elias classificada em vrias reas temticas e com textos marcados e no marcados. Muitos livros so de difcil acesso, pois so muito antigos e deteriorados pelo tempo. O terceiro catlogo traz a relao de todos os manuscritos de Elias, divididos por reas, e ttulos de temas abordados por Elias. Faz ainda parte desse catlogo uma pasta com uma relao das correspondncias de Norbert Elias.

    A pesquisa realizada no arquivo em Marbach foi significativa pois pde iluminar vrias questes pertinentes ao processo intelectual de Norbert Elias. Dessa forma, foi possvel tornar mais ntidos os contornos pessoais do autor traados na interao humana com seu tempo, seus pares e as pessoas mais prximas. Veremos que a biografia apresentada no primeiro captulo tem suas subdivises caracterizadas pelo tipo de material encontrado sobre cada perodo da vida de Elias. Ora quem nos narra a histria o prprio Elias atravs de depoimentos, ora as correspondncias trocadas por ele, e ora os textos das aulas ministradas.

    O perodo de pesquisa no exterior foi profcuo e possibilitou um maior aprofundamento sobre a abordagem de Norbert Elias, bem como sua relao com a teoria social contempornea. Uma vez tratados aqui as motivaes, objetivos e procedimentos da pesquisa, devemos apresentar a forma que esse contedo adquiriu neste trabalho. Assim, esta tese apresenta a seguinte configurao:

    O primeiro captulo traz a biografia do autor de forma a dar destaque aos momentos da produo de sua obra. Ele est dividido em quatro fases, cada fase

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    corresponde aproximadamente a um perodo de 20 anos. As etapas da vida de Norbert Elias narradas na dissertao so tratadas e apresentadas de forma diferente. Isso se deve ao tipo de material encontrado que ajuda a delinear a trajetria do socilogo. A primeira fase, por exemplo, trata um pouco da infncia, das experincias familiares e da participao de Elias na Primeira Grande Guerra. O tom dessa narrativa dado pelos relatos em entrevista do prprio Norbert Elias e por livros e textos produzidos sobre ele. A segunda parte da biografia trata um perodo mais maduro, porm tambm tem como apoio literatura secundria sobre o autor. A terceira e a quarta parte so mais ricas em material, h trocas de correspondncias, impresses pessoais mais contemporneas registradas sobre Elias, e praticamente esse material que nos d um quadro dos anos mais produtivos da vida de Norbert Elias.

    O segundo captulo aborda, de forma mais sistemtica, a perspectiva processual de Norbert Elias, sem contudo dissoci-la da noo de figurao. A sociologia processual caracterizada pelo estudo de um tema em seu desenvolvimento de longa durao. Nesse sentido, Elias apoia-se nos dados histricos para encontrar o material de sustento aos modelos tericos que desenvolveu. A viso processual necessria para uma pesquisa sociolgica deve considerar, igualmente, de forma crtica, as abordagens correntes sobre a produo e aplicao do conhecimento. Visando essa postura crtica, o captulo trata a relao entre as formas predominantes de produo de conhecimento e uma perspectiva processual de abordagem do conhecimento humano. Por fim, trataremos de forma mais pontual as questes metodolgicas levantadas pelas obras de Norbert Elias.

    O terceiro captulo foca a anlise figuracional em relao com as alteraes nas emoes e personalidades humanas, bem como sua funo para formas normativadas de comportamento. Fecha-se assim o panorama geral sobre a abordagem de Norbert Elias: teoria dos processos e figuraes.

    Nas consideraes finais retomaremos o argumento central da tese e, a partir disso, desenvolveremos uma breve discusso sobre os limites da

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    abordagem de Elias apontados por algumas crticas relevantes sobre a inteno de uma abordagem sociolgica que se dispe a superar a dicotomia caracterstica do campo sociolgico: indivduo/sociedade. Por fim, com o apoio dessas crticas, poderemos traar, ainda que sucintamente, alguns caminhos futuros para a abordagem eliaseana.

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    No a vida do indivduo to mais valiosa quanto de toda espcie? Pois cada ser humano singular j um mundo, que

    nascer e morrer com ele, sob cada lpide repousa uma histria do mundo. (Heine)

    Captulo 1

    A trajetria de Norbert Elias: vivncias que inspiram teorias

    As biografias, sejam curtas ou extensas, desempenham um papel importante para a compreenso da formao de uma personalidade. Elas tornam conhecido o processo de uma vida singular entrelaada ao seu contexto histrico e social. Assim, o que poderia sugerir um culto personalidade torna-se um modo relacional para apreender uma poca e seu contexto. Esse um objetivo por que a inclumos neste trabalho. O objetivo principal, se que se pode fazer tal diviso, evidenciar, atravs de sua trajetria individual, o desenvolvimento de sua abordagem sociolgica, pois, no nosso entender, uma diviso entre vida pessoal e vida profissional inviabilizaria a compreenso do que procuramos propor como anlise processual e figuracional.

    O desenho biogrfico que traamos neste trabalho apoia-se na prpria abordagem de Elias, e resultado de uma pesquisa intensiva nos arquivos pessoais do autor, em alguns trabalhos biogrficos publicados enquanto Elias ainda vivia e em pesquisas sobre trajetrias individuais e produes intelectuais. A seguir, procuraremos descrever de forma breve e informativa os caminhos desse processo.

    Existem dois trabalhos biogrficos relevantes sobre Norbert Elias, que procuraram dar a mesma nfase tanto vida pessoal como carreira profissional

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    de Elias, alm de situar sua trajetria no contexto histrico-social.5 O primeiro trabalho, mais completo, de autoria do professor alemo Hermann Korte, chama-se: Sobre Norbert Elias: o vir a ser de um cientista do humano, publicado inicialmente em 1988.6 O segundo trabalho do pesquisador e socilogo alemo Heinhard Blomert e trata de um perodo especfico da vida acadmica em Heidelberg no perodo entre guerras. O livro intitula-se Intelectuais de partida: Karl Mannheim, Alfred Weber, Norbert Elias e as cincias sociais em Heidelberg no perodo entre guerras.7 Outro tipo de material biogrfico importante a entrevista biogrfica de Elias concedida a Heerma van Voss e A. Von Stolk em 1984, publicada com o ttulo de Norbert Elias por ele mesmo.8

    Aps o falecimento do autor, em 1990, a Norbert Elias Foundation preparou o esplio de Elias e o ofereceu ao governo alemo. Assim, o Arquivo de Literatura Alem, em Marbach, no sul do pas, acolhe e cuida do acervo atualmente. Dessa forma, o arquivo de domnio pblico, com a exceo de troca de correspondncias entre pessoas que esto vivas, salvo seu expresso consentimento. O acesso aos documentos pessoais de Norbert Elias abre a possibilidade de uma nova perspectiva sobre sua trajetria e o desenvolvimento de sua abordagem sociolgica, uma vez que coloca disposio do pesquisador uma srie de informaes pessoais, com significativo contedo afetivo.

    Com o apoio das j citadas biografias, de entrevistas de Elias publicadas, experincias comuns compartilhadas e tambm publicadas, como o caso do livro do editor de Elias, Michael Schrter,9 bem como documentos pesquisados no arquivo de Marbach cartas, notas de aula, manuscritos nos foi possvel traar uma modesta biografia, que difere das j publicadas por trazer um tipo de material que guia nossa percepo para a relao entre os contedos emotivos e os acontecimentos vividos.

    5 Existem, obviamente, outros trabalhos que procuraram analisar a trajetria de Elias, no entanto, esses

    trabalhos do maior nfase vida profissional e procuram dar esclarecimento a pontos de difcil compreenso da obra de Elias. Ver a respeito, (Van Kriegen, 1998); (Blomert, 1989). 6 Ver a respeito, (Korte, 1997).

    7 Ver a respeito, (Blomert, 1999).

    8 Ver a respeito, (Elias, 1996).

    9 Ver a respeito, (Schrter, 1997).

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    Em consonncia com a perspectiva processual de Norbert Elias, o traado de sua biografia intelectual apenas faria sentido se apresentasse a trajetria individual como processo. Embora se tenha conhecimento geral sobre a vida do autor, falta-nos a perspectiva do entrelaamento entre os eventos histricos, contexto social, relaes pessoais e a expresso de toda essa experincia do viver em sua obra.

    A abordagem de Ceclia Salles sobre o processo de produo artstica nos ajudou a compreender a importncia da interpretao do processo de criao de uma obra, e no apenas o produto final. Segundo Salles, o pesquisador que se incumbe de desvendar os meandros do processo de criao artstica, denominado crtico gentico, ao narrar a gnese da obra (...) pretende tornar o movimento legvel e revelar alguns dos sistemas responsveis pela gerao da obra. Essa crtica refaz, com o material que possui, a gnese da obra e descreve os mecanismos que sustentam essa produo (Salles, 2004: 13). Dessa forma, procuramos, com a anlise dos documentos encontrados em Marbach, lanar luz sobre episdios que nos ajudariam a compreender o processo de desenvolvimento intelectual de Norbert Elias.

    Ao tomarmos de forma anloga o processo de criao intelectual e cientfico e o processo de criao artstica, vemos que ambos apresentam semelhanas significativas no que se refere s influncias recebidas do mundo social. Embora uma corrente de pensamento, como o caso da produo intelectual e cientfica, esteja to firmemente sujeita a um mtodo, possvel observar a relevncia da vida cotidiana, do contexto histrico e cultural. Vemos que o processo individual se localiza em um tempo e em um espao, e o entrelaamento desses elementos influenciam diretamente a criao artstica e intelectual. O autor, o artista, esto em intrincada relao com o mundo que os rodeia, no esto apartados dele, mas sim em interao.10

    10 Podemos ter como exemplo o trabalho de Philip Roth. Em Shop Talk, Roth entrevista cinco renomados

    escritores Primo Levi, Ahron Appelfeld, Ivan Klma, Isac Bahevis e Milan Kundera sobre suas raras experincias de vida, e assim poder perceber o processo criativo e suas razes nas histrias de vida to singulares. Ver a respeito, (Roth, 2005).

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    Gostaramos de reiterar que o propsito desta pequena biografia o de dar relevo abordagem sociolgica de Norbert Elias, porm considerando seu processo, dando ateno aos movimentos do autor em sua trajetria. No , portanto, nosso intuito desenvolver reflexes aprofundadas sobre a personalidade de Norbert Elias. Nesse sentido, por bem admitirmos que essa trajetria no constitui uma apresentao biogrfica completa. Tanto a apresentao e interpretao do material analisados so insuficientes para fornecer um quadro integral do autor, de seu tempo e do desenvolvimento de sua obra.

    Uma vez feita essa ressalva, nos sentimos na obrigao de adiantar ao leitor algumas informaes sobre o autor que surgiram durante a pesquisa, pois entendemos que estas preparam o terreno, constituem um tipo de contexto preliminar sobre Norbert Elias.

    Norbert Elias vrias vezes afirmou que no havia uma ntida separao entre seu trabalho e sua vida pessoal.11 Seu arquivo em Marbach confirma essa afirmao. A maioria dos documentos arquivados refere-se vida acadmica, que parece ter sido o centro sobre o qual girou sua vida. No entanto, a impessoalidade prpria desse crculo foi permeada pela pessoalidade afetiva de Elias. As relaes dentro desse crculo foram tratadas com bastante civilidade e cordialidade. As correspondncias quase sempre mostram um Elias gentil e cordato, e falando sobre si mesmo, o que podemos entrever deste pequeno trecho extrado de uma carta de 1977 de Elias, ento com 80 anos, ao ento maduro Bourdieu:

    Caro Pierre Bourdieu, Eu gostei muito da forma como voc apresentou meu paper. Ele ficou muito melhor do que em ingls ou alemo (...). Eu devo aprender com voc como apresentar melhor as minhas coisas. Eu escrevo muito vagarosamente (ao menos na maior parte das vezes) e sem qualquer interrupo, sem dizer a mim mesmo: agora aqui um ponto final. D um subttulo e deixe claro que voc est comeando um novo ponto.12

    11 Ver a respeito, (Elias, 1996).

    12 Cpia do original em anexo nmero 01.

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    A trajetria de Elias, apesar das rupturas contingentes da vida, mostrou seguir uma direo, ou talvez convenha chamar de vocao, constantemente alimentada para a vida acadmico-universitria. De tal forma que a maioria de suas relaes de amizade provem deste meio. Foi perguntado a ele em uma entrevista se ele no havia se arrependido de no ter se casado ou tido filhos.13 J com 87 anos, sua resposta foi bem convencional, afirmou que no havia como conciliar casamento e carreira, que para ele existia uma rivalidade entre esses dois projetos. Porm, Elias encontrou na docncia, no trabalho intelectual, o que poderamos chamar de sentido existencial. Eu sempre gostei muito de dar aulas para estudantes, e voc pode tomar isso como uma substituio, se quiser, do fato de que o ensino tem algo de paternal em si mesmo (Elias, 1996: 99).14

    A dedicao acadmica no foi to prontamente reconhecida. Norbert Elias viveu anos em completo anonimato. Este fato pode ser explicado pelos tempos difceis em que viveu, como veremos mais apropriadamente adiante. No entanto, o prprio autor reconhece ser um outsider no mundo acadmico, pois no era filiado a nenhuma corrente dominante de pensamento. A essa inadequao correspondeu a construo de uma abordagem cientfica de sociedade que procura superar as divises dicotmicas do saber; a qual Norbert Elias chamou de Teoria da figurao.15 O acompanhamento de sua trajetria, como veremos, evidenciar as etapas de formao e consolidao dessa teoria, alm de expor, como seu sinuoso caminho, que no comeou com a difcil publicao dos dois volumes de O processo civilizador em 1938 e 1939, mas sim com as heranas de sua origem: judeu, nascido na Alemanha em 1897.

    Segundo o prprio Elias (2005: 14): Para se compreender um indivduo, necessrio saber quais so os desejos dominantes, para quais realizaes ele aspira. Se a sua vida corre para ele de forma significativa ou no, depende de se,

    13 Ver a respeito, (Elias, 1996).

    14 (...) ich habe immer sehr gern Studenten unterrichtet, und das knnen Sie, wenn Sie wollen, einen Ersatz

    nennen. Das Unterrichten hat etwas Vterliches an sich. (Elias, 1996: 99). 15

    Embora Norbert Elias no tenha escrito uma obra que sistematize sua teoria figuracional, possvel compreend-la em vrios de seus textos. (Ver Elias 1994a, 1997a, 1997b, 1997c, 1998, 2000 e 2004)

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    e at que ponto, ele capaz de realiz-la.16 Esse desejo dominante, mencionado por Elias, formado no incio da infncia com a convivncia e socializao, e se fixa gradualmente com o passar dos anos como a sua prpria forma de vida. Logo, o que poderemos perceber desde o incio a tendncia de Elias a se tornar um cientista social, ou cientista do humano, como preferia ser chamado, pois para ele eram os seres humanos pessoas completas, e deveriam ser considerados como tais, e no apenas suas aes, ideias, experincias ou sentimentos, separadamente, que no raro esto no centro das pesquisas sociolgicas.

    A fim de melhor acompanhar e compreender o entrelaamento da trajetria de vida com a produo intelectual, a biografia que segue composta por quatro fases que atravs da linearidade deixam entrever aqueles processos singulares de formao da personalidade tramados com o mundo social. A primeira fase, que compreende os perodos entre 1897 e 1924, nos mostra um perodo de abandono de vises de mundo estveis e equilibradas, um perodo de rupturas. A segunda fase, que abrange os perodos entre 1924 e 1933, se, por um lado, revela a afirmao da postura acadmica de Norbert Elias, por outro, evidencia as dificuldades impostas pelo regime nazista. A terceira fase, mais extensa, compreende o perodo de exlio iniciado em 1933, a produo de O processo civilizador, as dificuldades para construir novamente uma vida acadmica, at o retorno de Gana em 1969. A quarta e ltima fase dedicada ao perodo entre 1968 e 1990; ela se revela, curiosamente, a fase mais produtiva de Elias que contava com 71 anos quando experienciou o xito, aps 30 anos, de O processo civilizador.

    16 Um einen Menchen zu verstehen, muss man wissen, was die beherrschenden Wnsche sind, nach deren

    Erfllung er sich sehnt. Ob sein Leben fr ihn selbst sinnvoll verluft oder nicht, hngt davon ab, ob und wieweit er sie zu verwirklichen vermag. (Elias, 2005: 14)

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    1.1. Estabilidade e ruptura

    A civilidade, a amabilidade, a curiosidade intelectual e a sabedoria parecem ser caractersticas consensuais entre aqueles que conheceram Norbert Elias. Mesmo contando com idade avanada, Elias despertava um tipo de interesse tpico sobre sua trajetria de vida. Cas Wouters narra que quando conheceu Elias pessoalmente em Amsterdam, em 1969, fez a ele uma pergunta que beirava a ingenuidade, porm que refletia a j conhecida reputao de Elias.17 Fiz uma pergunta ingnua e direta a Elias, se ele poderia explicar como sua sabedoria se desenvolveu. Pergunta difcil. Eu no sei, ele comeou a responder, rindo ironicamente. Talvez seja por eu ter viajado muito. Vocs todos parecem to confinados a seu prprio pas. (Wouters, 2008: 226).18

    Elias faleceu com 93 anos, em 1990. Atravessou o sculo XX e viveu momentos histricos decisivos para as sociedades ocidentais. Com mais de 90 anos, contava com a prudncia prpria dos ancies, porm era portador de uma combatividade prpria da juventude. Essa energia era dedicada essencialmente ao trabalho intelectual. Aps sua morte, a publicao pstuma de trs livros testemunha a perseverana no trabalho, e em sentido mais geral, no que conferia a Elias o significado do viver.

    No obiturio escrito para o jornal alemo Die Zeit, Ulrich Greiner compartilha com o leitor a admirao que Elias despertava, principalmente porque o autor mantinha uma altivez inabalvel no sentido que desenvolveu para sua vida. Era como se Elias, na percepo de quem o homenageia, fosse portador de um segredo, no o da longevidade, mas o segredo de ter construdo e mantido um sentido dignamente humano para sua existncia.

    17 Cas Wouters socilogo e atualmente pesquisador da Utrecht University Amsterdam. Foi durante anos

    colaborador e assistente de Norbert Elias. 18

    I asked Elias the nave and blunt question whether he could explain the development of his wisdom. Difficult question, I dont know, he began his answer, and laughing mischievously he proceeded, Maybe its because I have travelled a lot. You all seem so confined to your own country. (Wouters, 2008: 226).

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    O Segredo de Norbert Elias, um dos grandes socilogos deste sculo, no fcil de descrever. Ele foi um homem com vitalidade e apaixonado, at em alta idade. Recentemente, com 92, ele respondeu pergunta, O senhor um ser humano feliz? Sim, eu sou feliz porque realizei razoavelmente a tarefa que me foi colocada19 (Greiner, Ulrich).

    A tarefa constantemente mencionada por Elias era, em uma linguagem acadmica, o estabelecimento das bases de uma abordagem sociolgica que fosse empiricamente comprovvel. Porm, se nos detivermos mais pausadamente sobre os desgnios de tal tarefa, veremos que Elias no se enclausura nas especialidades prprias das cincias sociais. Pelo contrrio, ele procura a interdisciplinaridade, transformar em campo de conhecimento sociolgico a interseco entre as vrias disciplinas das cincias sociais e humanas. A sociologia , na viso de Elias, a disciplina da sociedade, das relaes sociais por excelncia, e por este motivo cabe a ela a tarefa maior de descobrir como e por que os indivduos se ligam em vrios perodos da histria, e em que medida essa ligao causa problemas com o convvio social.

    Paulatinamente tomei conscincia desta tarefa, ainda de forma vaga no meu tempo em Heidelberg, e um pouco mais ntida quando estive em Frankfurt. Enfrentei esta tarefa, a de esboar uma teoria central da sociologia, que se aproximasse da empiria, que fosse, portanto, passvel de reviso e de correo; que proporcionasse o fundamento de uma construo terica, sobre o qual futuras geraes pudessem construir; um fundamento que, dependendo do caso, elas possam refutar, corrigir ou transformar. Com crescente conscincia, persegui essa tarefa, e trabalhei com ela at hoje, no decorrer de todas as misses especiais que foram-se colocando no meu sinuoso caminho. (Elias, 1996: 172) 20

    19 Das Geheimnis des Norbert Elias, eines der grten Soziologen dieses Jahrhunderts, ist nicht leicht zu

    beschreiben. Er war ein vitaler und leidenschaftlicher Mann, bis ins hohe Alter. Krzlich erst, da war er 92, antwortete er auf die Frage Sind Sie ein glcklicher Mensch?: Ja. Ich bin glcklich, weil ich die Aufgabe, die sich mir gestellt hat, einigermaen erfllt habe. (Greiner, Ulrich. Norbert Elias, Zum Tod des grossen Soziologen. Die Zeit, Frakfurt, 10 de agosto de 1990). 20

    Mir selbst kam diese Aufgabe allmhlich zu Bewusstsein noch vage in der Heidelberger, etwas schrfer umrissen in der Frankfurter Zeit, und dieser Aufgabe, eine Zentraltheorie der Soziologie zu entwerfen, die empirienahe, also uberprfbar und korrigierbar ist, den Grundstock eines Theoriegebudes zu legen, auf dem sptere Generationen aufbauen, das sie je nachdem verwerfen, korrigieren oder auch weiterentwickeln knnen dieser Aufgabe ging ich mit wachsender Bewusstheit nach und arbeitete an ihr bis heute durch alle die vielen Sonderaufgaben hindurch, die meines gewundenen Weges kamen (Elias, 1996: 172).

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    A convico do cumprimento de uma tarefa, embora imbuda de uma aura de uma nobreza predestinada, foi-se formando em um processo de desenvolvimento de autoconhecimento, no foi um bem natural. O processo individual do vir a ser urdido cotidianamente e articula-se com os processos de desenvolvimento histrico e social. Pode-se afirmar que o indivduo ao fim de sua vida passou por um processo, que ele em sua singularidade difere da criana e do jovem que foi um dia. Hume confessou, certa vez, que no conseguia compreender em que sentido o adulto que ele era naquele momento podia ser o mesmo menino que um dia ele foi. Tambm aqui a resposta que a identidade no tanto a de uma substncia, mas mais ainda a continuidade das transformaes que conduzem de um estgio a outro, e tambm nesse caso se trata de uma continuidade rememorada. (Elias, 1988: 191)21

    As contingncias da vida ofereceram o material para a percepo de uma misso e, consequentemente, seu cumprimento. Norbert Elias teve uma vida regrada, calma e segura at os 18 anos de idade. Essa figurao muda drasticamente com seu alistamento voluntrio para lutar na Primeira Grande Guerra.

    Norbert Elias nasceu em 1897, em Breslau, antigo territrio alemo. Filho nico e superprotegido de uma abastada famlia judia, Elias viveu a infncia e boa parte da adolescncia em um slido e protegido ambiente familiar. Essa segurana poltica e social era vivenciada por grande parte das famlias burguesas alems, e era o reflexo da pacificao e delimitao das fronteiras do prprio Estado. A Alemanha vivia um perodo de tranquilidade aps a unificao da nao em 1871. O Segundo Reich no trouxe uma ordem mais segura apenas para os alemes, mas tambm para os judeus, que gozavam de maior liberdade e puderam ascender socialmente. Elias relata que, sob o imprio de Guilherme II, os judeus vivenciaram o respeito a seus direitos civis. Se um judeu tivesse conflitos com um no judeu e precisasse ir a tribunal, ele poderia contar que seus direitos

    21 Hume bekannte einmal, er knne nicht verstehen, in welchen Sinne der Erwachsene, er er heute sei,

    derselbe sei wie das kleine Kind, das er einst war. Auch hier leuted die Antwort, dass der Identitt nicht so sehr eine der Substanz ist als vielmehe eine der Kontinuitt der Wandlingen, die von einer Stufe zur nchsten fhren; und auch in diesem Falle handelt es sich um eine erinnerte Kontinuitt (Elias, 198: 191).

  • 29

    seriam garantidos. Esse perodo contrasta drasticamente com os anos subsequentes, com a derrota da Alemanha na Primeira Grande Guerra, com o fim da Repblica de Weimar e com a ascenso do Partido Nacional Socialista em 1933.

    Elias foi uma criana frgil, segundo ele mesmo, contraiu todos os tipos de doenas infantis que se possa imaginar. O amparo familiar se fazia presente cada vez que adoecia; toda a famlia se voltava para ele. O medo da morte estava exorcizado pelo zelo e cuidado. At hoje eu vejo minha me sentada preocupada ao p de minha cama. Na verdade, eu no me lembro de ter sentido nenhum medo da morte, mesmo se ele estivesse presente. Mas todas essas coisas, sexualidade, morte estavam restritas aos bastidores. Meus pais eram, ambos, pessoas muito boas, e eu sabia que poderia confiar plenamente neles no com essas palavras, mas como um sentimento (Elias, 1996: 23).22

    A preocupao dos pais com a fragilidade do filho fez com que ele recebesse aulas particulares em casa, at ir para o Johannes Gymnasium com dez anos de idade, considerado poca um excelente ginsio de ensino laico, frequentado por vrios alunos judeus de Breslau.23 O ambiente familiar era percebido por Elias com naturalidade. Os papeis eram desempenhados com perfeita naturalidade. O pai, Hermman Elias, era um bem-sucedido industrial, e sua me, Sophie Elias, uma zelosa e amorosa me. Elias atribua essa tranquilidade harmonia da desigualdade. A criana vivenciava o afeto, a segurana material, proporcionada por essa diviso hoje vista como desigual. Certamente que essas sensaes foram suficientes para proporcionar criana afeto e auto-estima. Mas tambm podem ter sido as bases de um aprendizado para a relativizao das situaes complexas.

    22 Ich sehe bis heute meine Mutter vor mir, wie sie besorgt an meinen Bett sa. Eigentlich kann ich mich an

    keine Todesangst erinnern, auch wenn sie dagewesen sein muss. Aber alles dies, Sexualitt un Tod, wurde vllig hinter den Kulissen gehalten. Meine Eltern waren beide sehr gute Menschen, und ich wusste, ich konnte mich absolut auf sie verlassen nicht mit solchen Worten, aber als ein Gefhl. (Elias, 1996: 23). 23

    Devido ao ensino laico, e presena de vrios professores judeus no quadro docente, como alunos judeus que frequentavam o colgio, o Johannes Gymnasium foi fechado em 1933 pelo governo nacional socialista. Ver a respeito, (Korte, 1997).

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    Elias nunca se referiu me como uma mulher submissa ou subjugada, nem tampouco ao pai como um homem que desse preferncia realizao pelo trabalho, e, por conseguinte, como o provedor por excelncia. A autoridade era paterna. O pai foi um homem bem-sucedido e orgulhoso de sua realizao. Elias o definiu como um homem extremamente honesto, bem-sucedido e muito disciplinado.

    Vemos que a temtica da disciplina se faz presente na vida de Elias desde muito cedo, atravs do exemplo familiar. A percepo da necessidade da disciplina para obter autocontrole sobre afetos, emoes, fez parte de uma cultura social prussiana. Elias, em entrevista a Carmen Thomas, afirmou que a forma de se obter disciplina na sua poca de juventude era extremamente dura, mas que as pessoas comeam a perceber que a disciplina necessria para o convvio com outro, e comeam a procurar formas mais amenas de autodisciplina.24

    A disciplina prussiana certamente foi fundamental para a sobrevivncia de Elias durante a Primeira Guerra Mundial. Com 18 anos incompletos, em 1915, Elias, assim como quase todos seus colegas do Gymnasium, alista-se voluntariamente no exrcito. Esse alistamento voluntrio era comum e esperado dos jovens alemes. Graas ao treinamento rgido, intenso e disciplinado do exrcito prussiano, o jovem Elias teve condies de sobreviver guerra.

    Korte, em sua biografia sobre Elias, afirma que: Certamente, foi uma ruptura traumtica; do lar rico e de confivel segurana afetiva para as trincheiras de guerra.25 Esse fato contribuiu, por um lado, severamente para a runa de uma ingnua viso de mundo. Um mundo ordenado, seguro, dividido, com lugares definidos e delimitados, e por outro lado, para a formao de uma personalidade mais madura e disciplinada. Vagarosamente se modela a personalidade do jovem Elias, assume os primeiros contornos. Lar judeu, formao humanista, disposio para o duro trabalho intelectual, e a compreenso da necessidade de

    24 Ver a respeito, (Carmen Thomas, entrevista).

    25 Ver a respeito, (Korte, 1997).

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    autodisciplina descrevem esses contornos apenas de forma incompleta, porm fornecem informao sobre a orientao fundamental. (Korte, 1997: 75)26

    Norbert Elias, compreensivamente, no gostava de recordar o perodo que serviu como soldado. Nas poucas comunicaes que fez respeito era evidente o constrangimento que sentia quando o tema era mencionado. Esse embarao devia-se, naturalmente, ao fato de algum como ele, cuja postura sempre foi favorvel paz e ao entendimento, ter servido como voluntrio. Mas existe ainda um segundo motivo para o mal-estar: Elias tinha um trauma, viveu um choque traumtico, e precisou voltar a Breslau. No conseguia se lembrar do final do perodo em que serviu no front de batalha, nem que tipo de experincia foi o motivo desencadeador do choque. Esse evento ficou como uma vivncia obscura, perdida no labirinto de sua psique. Provavelmente, a dificuldade de falar sobre esse perodo esteja relacionada a duas situaes: esquecimento de algo que se viveu, completa incapacidade de resgatar a memria da vivncia, e os horrores comuns a todas as guerras.

    A guerra foi uma das experincias mais traumticas. Dessa atenciosa casa familiar partir, com 17 anos, direto para o exrcito Prussiano. Em 1915 eu fui como voluntrio de guerra para o exrcito. E depois veio o de costume: logo depois do Oeste, Somme, a grande misria, o terrvel, inacreditvel... Eu era telegrafista, mas eu no quero mais falar sobre isso.27

    O cenrio mundial durante a Primeira Guerra era o de uma clara diviso: de um lado a Trplice Aliana, de outro, a Trplice Entente. Curiosamente, os pases envolvidos nessa guerra viam-se a si mesmos como civilizados. A competitiva configurao formada por esses pases - Frana e Inglaterra de um lado,

    26 Langsam formt sich die Persnlichkeit des jungen Elias, nimmt erste Konturen an. Jdisches Elternhaus,

    humanistische Bildung, Bereitschaft zu harte intellektueller Arbeit und die Einsicht in die Notwendigkeit von Selbstdiziplin beschreiben diese Konturen sicherlich nur unvollstndig, gegen aber doch Auskunft ber die grundstzliche Ausrichtung (Korte, 1997: 75). 27

    Trecho transcrito de entrevista concedida por Norbert Elias em 30 de maio de 1985 a Carmen Thomas da WDR. Der Krieg... es war eines der traumatischen Erlebnisse. Aus diesem behteten Haushalt, mit 17 Jahren pltzlich in die preuische Armee zu kommen. 1915 ging ich als Kriegsfreiwilliger .... zur Armee. Und dann kam das bliche: erst nach dem Osten, dann Somme, die ganze Misere, die furchtbare, unglaubliche... Die Menschen, die den Zweiten Weltkrieg mitgemacht haben, knnen sich kaum noch vorstellen, was der Schtzengrab der Ersten war ... Ich war Telegraphist, aber ich will davon nicht mehr erzhlen.

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    Alemanha e Prssia, de outro lado - na busca pela hegemonia no continente europeu, evidenciou a fragilidade do ideal de paz alcanado, principalmente, com a tardia unidade do Estado alemo.

    As preocupaes visveis de Norbert Elias no final da dcada de 1930, j s portas da Segunda Guerra Mundial, com o processo de pacificao social, o qual ele chamou de processo civilizador, foram frutos de inquietaes que necessitaram de vrios anos para tomar a forma de tema, de problematizao sociolgica. Seguramente, a experincia pessoal na Primeira Grande Guerra foi uma das mais marcantes em sua vida. No foi possvel para Elias sair inclume, as vivncias como soldado tiveram seus significados reelaborados ao longo de toda a vida e influenciaram o amadurecimento intelectual do autor.

    Menos ingnuo, Elias retorna da guerra e, em dvida quanto carreira a seguir, optou por duas. Em 1918 inicia seus estudos em filosofia e medicina na Universidade de Breslau. Como Norbert Elias tencionava conciliar as duas carreiras uma incgnita. Mas o que chama a ateno a escolha. Medicina era a carreira desejada por seu pai. Hermann Elias desejou ser mdico, porm as circunstncias o impediram, e assim deu sequncia aos negcios familiares j tradicionais, a tecelagem, uma das ocupaes mais comuns entre os judeus da poca. Elias no se decidiu pela medicina por imposio paterna, antes, por admirao e afeio ao pai.

    A escolha pelo curso de filosofia vai ao encontro das necessidades intelectuais do prprio Elias. Desde a infncia, o gosto pela erudio de forma geral era cultivado pela educao familiar e reforado, mais tarde, pelo rigoroso ensino no Johanes Gymnasium. Assim, a escolha de dois cursos mostra-se como uma tentativa de conciliar sua prpria vocao com o desejo de satisfazer e agradar ao pai. Korte argumenta que a escolha pela filosofia continha em si um desafio. Mesmo com a aparente aceitao da ascenso dos judeus, a carreira universitria era um terreno rduo e quase impossvel de se fixar.28

    A filosofia foi ocupando mais o horizonte de Elias e, ao fim de dois anos, aps passar pelas provas intermedirias de medicina, o autor vai deixando a

    28 Ver a respeito, (Korte, 1997).

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    carreira mdica de lado e dedica-se cada vez mais filosofia. Porm, o aprendizado em medicina foi incorporado viso de mundo, ajudou a fortalecer as primeiras bases da concepo do mundo social do autor, segundo a qual o todo s poderia ser compreendido em relao ao funcionamento integrado de suas partes. Essa concepo, desenvolvida largamente a posteriori como base da prpria Teoria da figurao, foi tambm no intencionalmente responsvel pela ruptura de Elias com a carreira em filosofia.

    O fato de que meus estudos de medicina formarem uma das experincias de base, que tiveram influncia na minha mudana da filosofia para a sociologia, tornou-se claro para mim s mais tarde. Mas at nos anos 60, nos meus seminrios introdutrios para os estudantes de sociologia, eu tinha minha disposio, de vez em quando, o modelo do crebro e de suas partes. Parecia-me que, como estudante de sociologia, seria imprescindvel saber o mais geral sobre a constituio do sistema nervoso humano, para poder avanar na imagem do ser humano, necessria para a compreenso das relaes societais, a imagem do ser humano sintonizado com a vida entre humanos, animais, plantas e minerais. (Elias, 18, 19; 2006e) 29

    Tornar-se filsofo e seguir carreira acadmica na Alemanha era o caminho visvel e desejado por Elias. Entretanto, havia um descontentamento latente com o conhecimento filosfico, que se manifestou seriamente na tese de doutorado e no embate que levou ruptura com o orientador, o filsofo neo-kantiano Richard Hnigswald, e com a filosofia.

    A tese em filosofia Ideia e indivduo. Um exame crtico do conceito de histria no foi defendida no ano de 1922.30 Porm, a no concordncia com a concepo kantiana da histria e consequentemente a elaborao de uma

    29 Dass meine Medizinstudium zumindest eine der Grunderfahrungen bildete, die bei meinem bertitt von

    der Philosophie zur Soziologie mitspielten, wurde erst spter klar. Aber ich hatte noch bis in die sechziger Jahre hinein bei meinen Einfhrungsvorlesungen fr Soziologiestudenten gelegentlich ein zerlegbares Gehirmodell zur Hand. Das Grbste ber den Aufbau des menschlichen Nervensystems, so schien es mir, msste man als Soziologiestudent wissen, um sich zu dem fr das Verstndnis gesellschaftlicher Zusammenhnge unentbehrlichen Menschenbild vorzuarbeiten, zum Bild des von Grund her auf das Leben unter Menschen, Tieren, Pflanzen und Mineralien abgestellten Menschen (Elias, 2006e: 18, 19). 30

    A dissertao sob o ttulo Idee und Inviduum. Eine kritische Untersuchung zum Begriff der Geschichte no foi defendida em 1922, mas apenas em 1924, Elias cede ao orientador e altera passagens em seu texto e muda o ttulo da tese para Idee und Individuum. Ein Beitrag zur Phisophie der Geschichte. Elias no possuia mais um exemplar completo de sua dissertao, e o texto foi publicado de forma fragmentada. (Ver: Elias, 2006a)

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    dissertao crtica provocaram a crise com seu orientador. Nessa dissertao j se observa de forma clara a tendncia para superar a dicotomia analtica entre indivduo e sociedade. Elias questiona se o Eu seria objetivamente comprovvel. A resposta positiva, mas sob a condio da existncia da multiplicidade de Eus. Eu no posso saber sobre mim, eu no sou, enquanto eu no me referir claramente aos outros Eus, e me diferenciar deles (Elias, 2006a: 74).31 A dissertao defendida apenas dois anos mais tarde, em 1924, teve por exigncia do orientador as ltimas pginas reescritas, e Elias literalmente rasurou os trechos conclusivos com os quais o orientador no havia concordado. Assim a tese foi defendida com outro ttulo, dessa vez mais conciliador: Ideia e indivduo. Uma contribuio para a Filosofia da Histria. Elias recebeu, em 1924, seu ttulo de doutor, com uma tese rasurada, e teve mais certeza de que a filosofia no oferecia as perspectivas de abordagem que ele procurava. Esse fato, como argumenta Korte, foi importante para a formao e afirmao da personalidade de Elias. O jovem estudante se posicionou por suas convices e sobreviveu ao conflito com uma pessoa poderosa. Isso foi para o jovem indivduo uma experincia importante de ruptura, que pode conduzir probidade do pensamento a um novo conhecimento uma experincia que se constituiu em mais um elemento de sua personalidade (Korte, 1997: 81).32

    A ruptura com o orientador revelou uma mudana de curso mais radical. Com a impossibilidade de permanecer na Universidade de Breslau e continuar a carreira acadmica em filosofia, devido ao conflito com Hnigswald, Elias decide ir para Heidelberg, um renomado centro universitrio. A escolha por Heidelberg no foi aleatria: o jovem estudante j havia visitado a universidade anos antes, quando cursou uma disciplina com o filsofo Karl Jaspers. Em 1924, tenta a habilitao em filosofia com Jaspers, este, porm, no o aceita. Elias ento, sem

    31 denn ich kann nicht um mich wissen, ich bin nicht, sofern ich nicht eindeutig auf andere Iche bezogen,

    von ihnen unterscheiden bin (Elias, 2006a: 74) 32

    Der junge Student hate sich fr seine Einsichten eingestezt und den Streit mit einem Mchtigeren durchgestanden. Es war fr den jungen Menschen eine wichtige, wegweisende Erfahrung, dass die Redlichketi des Denkens zu neuem Erkenntnissen fhren kann eine Erfahrung, die zu einem weiterem wichtigen Baustein seiner Persnlichkeit wurde (Korte, 1997: 81)

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    slidos conhecimentos em sociologia, desiste da habilitao em filosofia e consegue a aceitao de Alfred Weber para a habilitar-se em sociologia.

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    1.2 Mudanas da trajetria e o fim da Repblica de Weimar

    Certa vez Elias (2006c: 50) afirmou que o ser humano um processo.33 A frase, embora curta, deixa margem a uma srie de interpretaes; poder-se-ia pensar em processo biolgico, em transformao emocional e psquica, no desenvolvimento de um trajeto profissional, um desenrolar gradual de identificao social. No entanto, a percepo de Elias vai urdir todos esses elementos, e o ser humano que ele enxerga uma trama complexa, em constante tecer.

    A imagem complexa oferece uma moldura, mas deixa o contedo a cargo das especificidades de cada processo, de cada personalidade, tempo e lugar. Se as imagens projetadas de trajetrias seguem rumos no planejados, nem sequer imaginados, ainda assim possvel seguir uma inclinao, uma vocao, que ao mesmo tempo em que serve de guia, tambm conduzida pelos episdios fortuitos do viver.

    A pequena cidade de Heidelberg, situada no sudoeste da Alemanha, representava no incio do sculo passado um importante centro universitrio. Segundo Elias, Heidelberg representava um tipo de Meca para os socilogos. L se fixaram Max Weber e seu irmo caula Alfred Weber. Aps a morte de Max Weber, sua viva, Marianne Weber conduziu um clebre crculo de intelectuais. A importncia desse grupo era tal que um aspirante carreira acadmica em Heidelberg deveria ser admitido primeiramente nesse crculo. Esse costume j enraizado conferia aura aristocrtica e de prestgio a quem fosse primeiramente aceito por Marianne Weber. Elias em sua conhecida entrevista rememora a figura de Marianne e essa situao:

    33 So mag sich also auch das sprachliche Herkommen in uns etwas struben, wenn man den Satz hrt: Der

    Mensch ist ein Prozess. Aber vielleicht hilft diese Aussage dem Vorstellungsvermgen voraus. (Elias, 2006c: 50). Assim pode ser que a forma de falar nos cause certa resistncia (o costume idiomtico linguagem) quando se ouve a frase: O ser humano um processo. Mas talvez essa afirmao de antemo ajude a imaginao.

  • 38

    Marianne Weber era uma mulher impressionante. Ela me deu a impresso de ser uma robusta camponesa intelectual, que tinha os ps no cho, que sabia administrar sua casa e sua fazenda e que velava pelo seu patrimnio. Quando se pertencia a seu crculo, podia-se contar com ela. Eu no sei se isso correto, mas eu tinha a impresso de que sem essa forte mulher, Max Weber no teria tido a perseverana necessria para triunfar em tudo o que realizou. (...)

    Certo dia, depois de me dizer algumas palavras amveis, ela me convidou para fazer uma exposio em sua casa, durante uma tarde. Isso era de praxe. Eu esperava por aquilo, mas o convite poderia ter demorado um pouco. O fato de ele ter sido feito era um bom sinal. (...) e trs semanas mais tarde, eu apresentei em sua casa, se bem me lembro, foi na varanda, a minha pequena exposio sobre a sociologia da arquitetura gtica. (...) Ao final, aplaudiram-me educadamente e me disseram algumas palavras amveis. No salo da viva de Max Weber eu no fui rejeitado. (Elias, 1996: 126, 127).34

    A negativa de Karl Jaspers em admitir Elias como seu orientando e candidato a habilitao em filosofia abre caminho para a possibilidade de habilitao em outra rea, a sociologia. Anos antes, em 1919, Elias ainda estudante em Breslau cursou alguns seminrios em Heidelberg, em especfico, com Jaspers. Nesse primeiro contato, toma conhecimento da crescente influncia da sociologia no ambiente acadmico. Quando retorna a Heidelberg em 1924, a sociologia mostra-se como um campo promissor. Elias relata que durante seu primeiro perodo no teve em absoluto nenhuma conexo com a sociologia, porm quando retornou a (...) sociologia estava na moda em Heidelberg, o que no tinha

    34 Marianne Weber war eine eindrucksvolle Frau, sie machte auf mich den Eindruck einer robusten

    intellektuellen Grossbauerin, die fest auf dieser Erde steht die Haus und Hof zusammenzuhalten Weiss, die ber das Ihre wacht. Wenn man zu den Ihren gehrte, konnte man auf sir verlassen. Ich weiss nicht, ob es stimmt, aber ich hatte die Vorstellung, dass Max Weber ohne diese starke Frau nicht die Durchhaltekraft gehabt htte, all das zu schaffen, was er fetiggebracht hat. (...) Eines tages, nach einem paar freundlichen Worten, lud sie mich ein, einmal an einen ihrer Nachmittage etwas vorzutragen. Das war blich. Ich hatte es erwartet, aber die Einladung htte ausbleiben knnen. Dass sie kam, war ein gutes Zeichnen. (...) und drei Wochen spter hielt ich dann bei ihr, wenn ich mich recht entsinne auf dem Balkon, meinen kleinen Vortrag ber die Soziologie der gotischen Architektur. (...). Am Ende gab es hflichen Applaus und freundliche Worte. Ein kleiner Schrit auf dem Wege zu einer Universttslaufbahn. In Salon der Witwe Max Webers ich war nicht verworfen worden. (Elias, 1996: 126, 127).

  • 39

    acontecido durante minha primeira temporada (Elias, op. cit. em Blomert, 1999: 239)35

    Segundo a narrativa de Blomert, Elias trazia consigo de sua formao em Breslau uma forte orientao para a histria, e ele no havia ainda conhecido ligao entre material histrico e estrutura social, como era ensinada em Heidelberg por Alfred Weber.36

    Elias se candidata a habilitao com Alfred Weber apenas entre 1928 e 1929. Este, no entanto, adverte a demora, uma vez que havia quatro candidatos frente de Elias. Esse fato revela-se desanimador, pois significaria uma espera de vrios anos. Alcanar a ctedra de professor era um percurso de srias privaes. O aspirante deveria se dedicar carreira durante alguns anos, participando de seminrios, assumindo aulas, e sem receber nada por isso.37 A demora para Elias seria longa. Paralelamente orientao de Alfred Weber, Elias conhece Karl Mannheim de quem se torna amigo e assistente informal. Segundo Blomert (1999: 241), a posio institucional de Elias estava definida como habilitante de Alfred Weber, e como docente (nos seminrios de Mannheim), assim ele era ao mesmo tempo professor e aluno no InSoSta.38

    Eu me tornei muito prximo de Mannheim, que no era muito mais velho que eu, ns nos queramos muito bem e nos tornamos bons amigos. Mannheim era sem sombra de dvida um homem brilhante e vivia naquela poca seu apogeu; cada vez mais ele atraa estudantes para si, que se afastavam dos velhos professores, como Alfred Weber. Existia

    35 (...) sociology was fashionable in Heidelberg which it had not been during my first stay (Elias, op. cit.

    Blomert, 1999: 239). 36

    Ver a respeito, (Blomert, 1999). 37

    Max Weber em Cincia como vocao expe a situao de quem aspira carreira universitria na Alemanha: Para um jovem cientista sem fortuna pessoal , com efeito, extremamente arriscado enfrentar os azares da carreira universitria. Deve ele ter condies para subsistir com seus prprios recursos, ao menos durante certo nmero de anos, sem ter, de maneira alguma, a certeza de que um dia lhe ser aberta a possibilidade de ocupar uma posio que lhe dar meios de viver decentemente (Weber, 1993: 18). 38

    (...) als Habilitant Alfred Webers, und als Dozent (in Seminaren von Mannheim), so war er gleichzeitg Lehrer und Lernender am InSoSta. (Blomert, 1999: 241)

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    uma forte tenso entre ambos, ainda que ela se apresentasse de forma muito civilizada (Elias, 196: 46).39

    Elias decidiu se tornar socilogo com quase 30 anos. O contato prximo com Alfred Weber e Karl Mannheim exerceu forte influncia sobre sua escolha, mas tambm influenciou sobremaneira a perspectiva sociolgica desenvolvida por Elias anos mais tarde. Um dos pontos centrais da abordagem sociolgica do conhecimento sob a perspectiva de Elias se refere transmisso geracional de conhecimento. Aprendemos de outros que nos antecederam. Norbert Elias fazia parte de uma gerao de intelectuais, cujas tendncias estavam inscritas nas formas de pensar, por exemplo, os problemas sociolgicos.

    Embora Elias fale muito pouco sobre as influncias que recebeu, um olhar mais atencioso sobre o desenvolvimento da sociologia alem na dcada de 20 nos mostrar, sem muita surpresa, que a tendncia de anlise sociolgica comparativa e histrica se fazia presente com os trabalhos reconhecidos de Max Weber, como A tica protestante e o esp