O púlpito barroco português e os seus conteúdos ...ler. · PDF fileO...

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Via Spiritus 11 (2004) 111-148

O plpito barroco portugus e os seus contedos doutrinrios e sociolgicos a pregao seiscentista do Domingo das Verdades

As snteses que publicmos no Dicionrio de Histria Religiosa1 e no volume dedicado poca moderna da Histria Religiosa de Portugal ajudam a compreender o panorama da oratria sacra no barroco portugus2. Ao dar estam-pa em 1960, precedido de um breve comentrio, o manuscrito 362 da Biblioteca Nacional, com a compilao de sermes avulsos impressos desde 1551 a 1706, inventariados por Bernardo Gomes, Maria de Lurdes Belchior Pontes, a partir da seriao temtica do compilador, teceu alguns considerandos a atender, que no deixmos de tomar em conta3. Por outro lado, os vrios sermonrios que analis-mos, de Francisco de Mendona a Joo de Ceita, de Filipe da Luz a Antnio Viei-ra, de Rafael de Jesus a Antnio Franco, ou seja, alguns dos mais representativos sados ao longo da poca urea at decadncia do barroco, bem como os para alm de um milhar de sermes avulsos compulsados, permitiram-nos confirmar estas duas linhas axiais: a existncia de uma pregao ordinria, confinada, no ca-lendrio litrgico, prpria do tempo desde o Advento ao ltimo domingo depois do Pentecostes, com as celebraes dos mistrios de Cristo e da Virgem, e as fes-tas obrigatrias do santoral, em dia fixo, no decorrer do ano; e a pregao extra-ordinria de sermes lutuosos, gratulatrios, deprecatrios, penitenciais e outros. O teor destas pregaes pode ser doutrinrio, panegrico, moralista e apologtico, ou haver algo de tudo isso, numa simbiose hbrida, a tornar dificultosa a aplicao

1 Joo Francisco MARQUES, Oratria Sacra ou Parentica, in Dicionrio da Histria Religiosa de Portugal, PV Apndices, Lisboa, 2001, 470-510.2 Joo Francisco MARQUES, Pregao, in Histria religiosa de Portugal, vol. 2, Lisboa, 2001, 393-417.3 Maria de Lourdes BELCHIOR, A oratria sacra em Portugal no sculo XVII, segundo o manuscrito 362 da Biblioteca Nacional de Lisboa, in Arquivos de Bibliografia Portuguesa, ano VI, ns 23-24 (Coimbra, 1961), 5-49.

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de uma malha tipolgica. Aniversrios de natalcios rgios, exquias, tardes de Advento e Quaresma, misses populares e autos de f, assembleias capitulares de ordens religiosas e snodos diocesanos, sagraes de templos e canonizaes, profisses monsticas e tomadas de hbito, bem como um leque de devoes cen-tradas em invocaes de Cristo, englobando os Passos, o sofrimento da Cruz e as sagradas Chagas, a acrescentar s numerosssimas de louvor e proteco da Vir-gem Maria e ao infindo cortejo dos santos padroeiros, taumaturgos e intercessores, passando pelo pietismo dolorido e penitente das lgrimas do apstolo Pedro e de Maria Madalena, so circunstncias que proporcionam desenvolvimentos ditados pela natureza do acto pio e pelos sentimentos que o pregador pretende despertar nos ouvintes. O catequtico e o asctico, o emotivo e o tico constituem os mares em que navega esta pregao barroca, a partir de Trento normativamente pautada ou, ao menos, recomendada. Os desvirtuamentos e excessos que a caracterizam, em obedincia aos modismos retricos e literrios, podem ver-se na denncia de Vieira no sermo da sexagsima4.

A esquematizao de escopo homilitico, no obstante a diviso em pon-tos, perdura na maioria do sermonrio barroco, servindo-se o orador do ncleo inspirativo que o tema evanglico proporciona para a distribuio e o teor dos de-senvolvimentos. Bem recomendavam aos pregadores as constituies diocesanas ps-tridentinas, com as do Porto de 1687, algum domnio da psicologia de massas, de conhecimento do meio, de prudncia nas exigncia da mensagem a transmitir5. O panegrico dos santos, a exaltao das qualidades do defunto, eclesistico ou leigo, e as reflexes moralistas a propsito dos pecados e virtudes, estas mais pa-lavrosas do que de autntico sumo asctico, saturavam a oratria sacra barroca. A exposio doutrinariamente slida dos dogmas da f, estilo sermo francs coevo, mui raro encontrar na parentica dos meados do sculo XVII a XVIII, que alis cede o passo a esse apostilhar o Evangelho, de que fala Vieira, j que a elo-quncia eclesistica trocara o docere pelo delectare6. E, sem cincia teolgica ou inteno de transmiti-la de forma intendvel e despida de subtilezas conceitistas, nem conscincia do ridculo, persistiam a ignorncia religiosa e o ridculo que provocava o riso dos ouvintes, como na realidade sucedia, para cujas sequelas as disposies sinodais chamavam a ateno7.

4 Ver edio do Sermo da Sexagsima, com apresentao crtica e notas de Margarida Vieira MENDES, Sermes do Padre Antnio Vieira, 3 ed., Lisboa, 1987, 101-108.5 Titulo IV, constituiam IV, Constituies Sinodaes do Bispado do Porto (1687), Coimbra, Jos Ferreira Impressor, 1690, 266.6 Sermo da Sexagsima, in op. cit., 111.7 Constituies Sinodaes do Bispado do Porto, 266.

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O sermo barroco portugus, facto, inscreve-se em circunstncias hist-ricas, culturais, sociolgicas e devocionais, marcadas pela atmosfera da poca e pela disciplina e orientao doutrinria tridentinas8. O ambiente inquisitorial que se abateu sobre a sociedade portuguesa nos finais do reinado de D. Joo III, com acentuada presso sobre a produo literria, tambm se fez sentir no plpito. Os colgios jesuticos e o empenho das ordens mendicantes, bem como de carmelitas, agostinhos e jernimos, na educao da juventude e na catequese, so credores do esforo feito para se mudarem mentalidades e condutas morais e religiosas, afectando a espiritualidade e a piedade popular. O humanismo renascentista, se incrementou a admirao pelo classicismo greco-latino, abriu-se a um biblismo polifacetado de que a parentica se tornou eloquente eco. A ascese penitencial, a atraco mstica, a pobreza, a condenao pblica de injustias e abusos de poder, do perjrio e corrupo de costumes, da licenciosidade, e do cortejo de infantic-dios e perverses sexuais motivam insistentes apelos converso, ao aperfeioa-mento individual, reconciliao e ao perdo sacramental. A reforma das ordens religiosas e da disciplina monstica corria paralela requerida para toda a igreja catlica, atingida pelo desgaste de males antigos e profundos. A criao de semi-nrios e de novas universidades visava a elevao intelectual do clero diocesano, o mais abandonado. A pregao barroca de toque evanglico soava, quando pre-sente, a corajosa denncia da falta de temor de Deus e de amor virtude. Havia, ao ser proclamada a palavra de Deus, exemplificaes, expressas ou veladas, ad-moestaes, conselhos e reflexes doutrinrias intencionais, a pretexto da verdade e da hipocrisia, da justia e da obedincia, como ao dever da correco fraterna. As celebraes do calendrio litrgico e as frequentes ocasies em que se recorria ao acto religioso como meio para, em momentos de alegria e temor, se agradecer e solicitar o auxlio divino, deram lugar a um discurso eclesistico com largo reflexo de problemas e matrias profanas. Pretextos ocorrentes no escasseavam para que o sermo enveredasse, ntida ou subtilmente, por caminhos onde transpareciam preocupaes sociais e polticas imediatas a incrementar. E, se a argumentao respeitava a estrutura religiosa e a expresso a linha retrica preceituada, a sua veemncia traduzia o temperamento do pregador, mobilizando os sentimentos do

8 As Constituies Diocesanas, sadas de snodos posteriores ao Conclio de Trento, citam, quanto pregao, as normas decretadas. da Sesso V, de 17 de Junho de 1546, o Decretum secundum: super lectione et praedicatione de verbi Dei concionatoribus et quaestoribus eleemosynariis. Ver texto completo, v.g., in Les Conciles Oecumeniques. 2 Les Decrets, dir. de G. Alberigo, Paris, 1994, c. 9-17, 1363-1365 (669-671).

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auditrio em ordem aco. Aqui se recorta a importncia desta parnese, como elemento catalizador de atitudes colectivas que se pretendiam fomentar9.

Se a tendncia moralista afecta, em geral, a pregao, uma vez que a con-verso interior tem a sua traduo na conduta honesta segundo os ditames da lei divina, a poca barroca, de ndole pessimista e discurso morigerador, acabava por aceitar esses tons de severa repreenso e aconselhamentos prticos em ordem a uma vida virtuosa, garante da salvao individual. A liberdade disfrutada, ao tem-po, pelo plpito vinha, assim, ao encontro da orientao e teor que alguns ora-dores sacros imprimiam aos sermes do 5 domingo da Quaresma o domingo das verdades , proporcionando alguns dos mais tpicos espcimes desse perodo, mormente de seiscentos, pelo olhar crtico que assestam sobre a sociedade portu-guesa coeva.

Da havermos escolhido uns tantos para detida anlise.

dever do pregador evanglico, reconhea-se, proclamar a verdade com desassombro e independncia. De resto, ao surgir no plpito, no era outra a ati-tude que, em teoria, dele se esperava, se bem que, na prtica, muito dependia da qualidade da pessoa, das circunstncias do discurso e do lugar da pregao. Por outro lado, no existia motivo para caber a um dia, melhor que a outro, o desem-penho desta obrigao. Os textos bblicos, prprios da celebrao eucarstica, con-densavam potencialmente vasta matria para se escolherem temticas, motivarem desenvolvimentos, legitimarem hermenuticas e acomodaes aplicveis s ne-cessidades do auditrio, actualidade de acontecimentos e conjunturas. Constitua assim o sermo, sobretudo em tempos mais recuados e de generalizada carncia de alfabetizao, um mass media poderoso, de enorme eficcia colectiva. Reflexo de doutrinas, ideologias e mentalidades, torna-se tambm barmetro e directrio da conscincia religiosa e da conduta moral dos fiis. Na cadncia ritmada dos ciclos litrgicos, no escasseavam ao pregador ensejos para insistir em certas exposies analticas em que a denncia de vcios e a proposta de virtudes eram pertinentes e podiam ser concretizadas atravs de referncias vida quotidiana e oportunas admoestaes de acordo com a especificidade do auditrio.

Mltiplos so os t