Negros Da Terra - Fichamento

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O livro aborda a trajetória dos paulistas no apresamento dos índios e do papel dos bandeirantes.

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  • FICHAMENTO

    NEGROS DA TERRA

    NEGROS DA TERRA

    MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: ndios e bandeirantes nas

    origens de So Paulo. So Paulo: Companhia das Letras, 2005.

    CAP.: 01 A TRANSFORMAO DE SO PAULO INDGENA: Sculo XVI

    ... Aquilo que parecia uma aliana inofensiva e at salutar logo mostrou-se

    muito nocivo para os ndios. As mudanas nos padres de guerra e as graves

    crises de autoridade, pontuadas pelos surtos de contgios, conspiraram para

    debilitar, desorganizar e, finalmente, destruir os Tupiniquins. (p. 17).

    ... Durante este perodo [sculo XVI], as aes e reaes indgenas foram

    contrrias s expectativas portuguesas e, como tais, pesaram de modo

    significativo na elaborao de uma poltica lusitana de dominao na regio. Os

    portugueses, em sua relao com os ndios, buscaram impor diversas formas

    de organizao do trabalho e, em contrapartida, defrontaram-se com atitudes

    inconstantes que oscilaram entre a colaborao e a resistncia. No entanto,

    das diversas formas de explorao ensaiadas, nenhuma delas resultou

    satisfatria e, igualmente, contribuindo para a desorganizao social e o

    declnio demogrficos dos povos nativos. Como consequncia, os

    colonizadores voltaram-se cada vez mais para a opo do trabalho forado na

    tentativa de construir uma base para a economia e sociedade colonial. Neste

    sentido, podem-se situar as origens da escravido no Brasil tanto indgena

    quanto africana nesta fase inicial das relaes luso-indgenas. (p. 18).

    OS TUPI NA ERA DA CONQUISTA

  • ... Sem fazer justia enorme complexidade das estruturas sociais do Brasil

    quinhentista, podemos destacar, de forma sinttica, alguns elementos

    constitutivos dessa dinmica: o processo de fragmentao e reconstituio dos

    grupos locais, os papis de liderana desempenhados pelos chefes e xams e,

    finalmente, a importncia fundamental do complexo guerreiro na afirmao da

    identidade histrica destes grupos. [...] eles ajudam a explicar no apenas as

    bases histricas sobre as quais os padres de resistncia e adaptao

    indgenas repousavam, como tambm os meios pelos quais a dominao

    portuguesa foi possvel. (p.p. 18 19).

    ... os europeus do sculo XVI procuraram reduzir o vasto panorama

    etnogrfico a duas categorias genricas: Tupi e Tapuia. A parte tupi desta

    dicotomia englobava basicamente as sociedades litorneas em contato direto

    com os portugueses, franceses e castelhanos, desde o Maranho a Santa

    Catarina, incluindo os Guarani. [...] a denominao Tapuia aplicava-se

    frequentemente a grupos que eram pouco conhecidos dos europeus. [...] Ao

    que parece, a denominao representava pouco mais que a anttese da

    sociedade tupi, sendo portanto, projetado em termos negativos. (p.p. 19 20).

    ... diversas comunidades podiam manter relaes bastante estreitas,

    amarradas em redes de parentesco ou aliana, sem que estas relaes,

    porm, se caracterizassem enquanto unidades polticas ou territoriais

    expressivas. De fato, a unio entre unidades locais sofria constantes mutaes

    decorrentes de circunstncias histricas, uma vez que as frenqentes [sic]

    mudanas na composio de alianas influam no carter e durao de laos

    multicomunitrios... (p. 21).

    ... o que se sabe de certo que estas aldeias no constituam povoados fixos

    e permanentes, pois, aps alguns anos, os grupos tendiam a mudar-se para

    um novo local... (p. 22).

    Diversos motivos podiam contribuir para o deslocamento de uma aldeia: o

    desgaste do solo, a diminuio das reservas de caa, a atrao de um lder

    carismtico, uma disputa interna entre faces ou a morte de um chefe.

    Contudo, qualquer que fosse a razo, a repetida criao de novas unidades de

  • povoamento constitua evento importante, envolvendo a reproduo das bases

    principais da organizao social indgena... (p. 22).

    A emergncia de unidades independentes de povoamento estava ligada

    capacidade do chefe em mobilizar parentes e seguidores. Apesar de a principal

    fonte de autoridade do chefe provir do seu papel de liderana em situaes

    blicas, suas responsabilidades eram, tambm, atinentes organizao da

    vida material e social. [...] Ele no apenas trabalhava ao lado dos seus

    seguidores, como tambm fornecia o exemplo [...] De fato, a liderana poltica

    raramente correspondia a qualquer privilgio econmico ou posio social

    diferenciada. (p. 23).

    Da mesma forma, os limites da autoridade dos chefes sempre permaneciam

    sujeitos ao consentimento dos seus seguidores. [...] Os primeiros jesutas [...]

    lamentavam com freqncia [sic] a ausncia de um rei entre os Tupi,

    reconhecendo que a fragmentao poltica servia de obstculo ao seu

    trabalho... (p. 23).

    Embora, efetivamente, a principal fonte de autoridade repousasse na

    habilidade do chefe em mobilizar guerreiros, este possua outros atributos

    significativos. Nota-se, como exemplo, a virtude oratria, que figurava de modo

    importante na formao de um grande lder indgena... (p. 24).

    Este mesmo papel guardio das tradies era compartilhado com os

    xams, ou pajs, que s vezes acumulavam, tambm, autoridade poltica. [...]

    Sua autoridade derivava principalmente do conhecimento esotrico que

    possuam, resultado de longos anos de aprendizado com xams experientes...

    (p.p. 24 25).

    Alm dos pajs, residentes nas aldeias, a vida espiritual dos povos tupi-

    guarani era, igualmente, marcada pela eventual presena de profetas

    ambulantes, chamados carabas. Apesar de estranhos comunidade, os

    carabas exerciam grande influncia sobre os habitantes das aldeias... (p. 25).

    Exmios oradores, estes profetas transitavam de aldeia em aldeia, deixando

    uma mensagem messinica entre os ndios... (p. 25).

  • O discurso proftico convencia aldeias inteiras a embarcarem em longas

    viagens em busca de um paraso terrestre, uma terra sem mal, onde a

    ambulncia, a eterna juventude e a tomada de cativos predominavam. [...] Com

    efeito, o discurso do profeta dialogava com elementos fundamentais, os quais

    situavam os Tupi num dimenso histrica: movimentos espaciais, liderana

    poltica, xamanismo e, sobretudo, guerra e sacrifcio de cativos. (p.p. 25 26).

    Entre os Tupiniquim, a liderana poltica e espiritual atingia sua maior

    expresso no contexto da guerra. Nestas ocasies, os chefes preparavam os

    planos de batalha e comandavam os guerreiros; os xams, atravs da

    interpretao de sonhos e outros signos, determinavam quando os ataques

    seriam mais proveitosos; e os carabas exaltavam o ideal guerreiro em seus

    discursos. ... (p. 26).

    Os primeiros relatos coloniais, apesar das diferenas que apresentam,

    destacam trs elementos crticos que tiveram importncia crucial nas relaes

    intertribais e, posteriormente, euroindgenas. Estes seriam: a trama da

    vingana, as prticas de sacrifcio e antropofagia, e a complexa configurao

    de alianas e animosidades entre aldeias. (p. 26).

    Na regio do planalto, os Tupiniquim e seus inimigos [...] proporcionaram belos

    exemplos de guerra intestina. [...] Anchieta, quando refm entre os Tupinamb,

    presenciou a armao de duzentas canoas para a guerra contra os

    portugueses, cada uma com capacidade para vinte a trinta guerreiros, alm das

    armas e mantimentos. (p. 26).

    ... Ao definir os inimigos tradicionais e reafirmar papis dentro das unidades

    dentro das unidades locais a vingana e, de modo geral, a guerra foram

    importantes na medida em que situavam os povos tupi em uma dimenso

    histrico-temporal. Durante a sua estadia entre os Tupinamb, Jean de Lry

    transcreveu um interessante discurso indgena que sugeria o significado da

    guerra na preservao da memria do grupo local. [...]:

    Nossos predecessores, dizem falando sem interrupo, uns aps outros, no s

    combateram valentemente mas ainda subjugaram, mataram e comeram muitos inimigos,

    deixando-nos assim honrosos exemplos; como pois podemos permanecer em nossas

    casas como fracos e covardes? Ser preciso, para vergonha nossa, que os nossos inimigos

  • venham buscar-nos em nosso lar, quando outrora a nossa nao era to temida e

    respeitada das outras que a ela ningum resistia? Deixar a nossa covardia que os margai

    [maracajs ou termenins] e os pero-angaip [portugueses] que ainda valem, invistam

    contra ns? (p. 27).

    Assim, ao que aprece, a guerra indgena fornecia um lao essencial entre o

    passado e o futuro dos grupos locais. A vingana em si consumava-se de duas

    maneiras tradicionais: atravs da morte do inimigo durante a batalha ou atravs

    da captura do mesmo e execuo posterior no terreiro... (p.p.27 28).

    ... apesar do xito de alguns jesutas e capuchinhos em persuadir grupos a

    desistirem da antropofagia, os missionrios no conseguiam abafar to

    facilmente o ritual de morte no terreiro. Isso sugere, mais uma vez, que a

    consecuo da vingana com ou sem antropofagia constitua a fora motriz

    da guerra indgena ao longo do litoral brasileiro. (p. 28).

    Assim, a guerra, o cativeiro e o sacrifcio dos prisioneiros constituam as bases

    das relaes entre aldeias tupi no Brasil pr-colonial. [...] E, aps as vitrias ou

    derrotas, aliados e parentes reuniam-se nas aldeias anfitris: nas vitrias para

    saborear a vingana; nas derrotas, para reconstruir aldeias destrudas e

    recompor populaes destroadas. A dinmica das relaes entre unidades

    locais, expressa nos termos do conflito ou da aliana, por sua ve