Ennio Morricone: O “Canone Inversoâ€‌ - Anais - ANPPOM .Ennio...

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  • Ennio Morricone: O Canone Inverso

    Orlando Marcos Martins Mancini Resumo Este trabalho tem como foco a msica Canone Inverso de Ennio Morricone composta para o filme homnimo de 2000, dirigido por Rick Tognazzi. A partir da indagao de porque Morricone utilizou uma forma contrapontstica hermtica num filme hollywoodiano?. O que se desvela a recorrncia estrutural da montagem cinematogrfica, ou seja, o contedo dramtico est em relao direta com a msica que reflete simetricamente na macroestrutura do filme os mesmos padres do Cnone Inverso musical. Palavras-chave Ennio Morricone, Msica de Cinema, Msica para Filme, Trilha Sonora. Abstract This work focuses on the Ennio Morricones Canone Inverso, music composed to the director Rick Tognazzis homonymy film from 2000. The analysis on Morricones music started with the assumption of why did Morricone utilize a hermetic counterpoint form inside a Hollywood film? The revealed is the structural recurrence of the film editing, i.e., the dramatic content is on direct relation with the music itself which reflects symmetrically on the film macrostructure the same musical Canone Inverso patterns. Objetivos Essa comunicao tem por objetivos: revelar a importncia da msica na construo da idia de realidade verossmil, resultado da combinao audiovisual (imagens em movimento, msica, sons e dilogos) manipulada pelos diversos componentes do objeto audiovisual. destacar as contribuies permanentes de Ennio Morricone na msica para filmes a partir da anlise de alguns de seus processos composicionais presentes no filme Canone Inverso Making Love de 2000, dirigido por Rick Tognazzi. Justificativa Esse trabalho se justifica na medida em que busca focar a msica como parte integrante da narrativa audiovisual de um filme, apresentando possibilidades ainda pouco exploradas e concentradas na busca do desvelamento da complexidade da montagem cinematogrfica e da prpria produo de filmes em sua relao direta com a msica.

    Mancini3@terra.com.br Doutorando pela Unicamp. Mestre pela Unesp. Membro do Grupo de Pesquisa em Msica Aplicada Dramaturgia e ao Audiovisual da UNICAMP. Professor titular do Centro Universitrio FIAM FAAM FMU rea de Contraponto e Composio. Orientador Prof. Dr. Claudiney Rodrigues Carrasco (Professor da Unicamp na rea de Trilhas Sonoras)

  • Fundamentao terica Os crculos acadmicos cinematogrficos, musicolgicos e as suas teorias, at o momento, tendem a eludir os assuntos referentes msica de cinema ou ignorando-a completamente, ou relegando a ela um status menor. Mesmo que alguns tericos tenham abordado o assunto, muitas vezes com contribuies ricas e provocativas, suas contribuies no foram suficientes o bastante, no sentido de permitir uma reconsiderao crtica do objeto audiovisual cinematogrfico luz da posio ocupada pela msica nos ltimos 60 anos (cinema sonoro). Os filmes, programas de televiso e outros meios audiovisuais no so somente endereados aos olhos (viso). Eles colocam seus expectadores seus expectadores audiovisuais num modo especfico de recepo, que Michel Chion chama de udio- Visual. Michel Chion em seu livro Audiovisual procura demonstrar a realidade da combinao audiovisual realidade onde uma percepo influencia a outra, transformando-a. Enfatiza que ns nunca vemos a mesma coisa quando tambm ouvimos conjuntamente; e tambm no ouvimos a mesma coisa quando tambm vemos conjuntamente. Portanto, devemos ir alm das preocupaes que simplesmente identificam as chamadas redundncias entre os dois domnios e dos debates sobre a inter-relao das foras (a famosa questo do sculo 18, o que mais importante, som ou imagem?).

    Como ainda muito recente, a novidade desta forma de abordagem tem recebido muito pouca considerao. Na insistncia do discurso de que assistimos (vemos) um filme ou um programa de televiso, persistimos em ignorar como as trilhassonoras-[musicais] modificam a nossa percepo. No melhor dos casos, alguns esto satisfeitos com um modelo aditivo, de acordo com o qual presenciar um espetculo audiovisual assistir imagens MAIS ouvir sons. Cada percepo permanece quase que no seu prprio compartimento.

    Procedimentos metodolgicos Esse trabalho tem um carter exploratrio. A idia central, alm de proporcionar maior explicitao do problema relacionado msica de cinema, procurou elucidar alguns aspectos de como a msica de Ennio Morricone Canone Inverso no filme homnimo de Rick Tognazzi (2000) assume diversas funes na narrativa do contexto audiovisual. Os procedimentos envolveram as seguintes etapas: assistncia e decupagem do filme; levantamento bibliogrfico de situaes, lugares e pessoas relacionadas ao filme; transcrio e anlise da msica. A anlise da msica de Morricone para o Canone Inverso iniciou com a indagao de porque Morricone utilizou uma forma contrapontstica estrita num filme hollywoodiano? Posteriormente, como a msica est to hermeticamente entrelaada na narrativa desse filme, realizamos uma abordagem cronolgica de suas inseres. Embora nosso enfoque sobre sua msica tenha sido construdo a partir de um ponto de vista terico, estrutural e formal, alguns temas no-musicais relevantes percepo da msica como parte da experincia de assistir o filme tambm foram vitais buscando contemplar tambm uma forma que pudesse ser compreendida por aficionados no especializados. Discusso e resultados A obra de Ennio Morricone (Roma, 10 de novembro de 1928) vasta e sua longa carreira artstica inclui um amplo espectro de gneros de composies, da msica absoluta, como

  • ele gosta de se referir ao seu repertrio de concerto, msica aplicada, msica feita sob encomenda para cinema, teatro, rdio e televiso. Seu grande desejo sempre foi o de ser reconhecido como um compositor no rotulado. Porm, toda conotao, muitas vezes pejorativa, ligada msica funcional popular acabou, em inmeras ocasies, demarcando-o simplesmente como bom arranjador ou como compositor de msica para cinema, na maioria das vezes Westerns. Apesar disso, Morricone nunca deixou de escrever msica de concerto e sua imensa obra coloca-o entre os msicos mais produtivos do sculo 20. Dentro de sua vasta dedicao como compositor de msica para cinema, Ennio Morricone abordou praticamente todos os gneros cinematogrficos: drama, comdia, terror, cinema blico, cinema de denncia social, thrillers, ertico, policial, gangsters, westerns, histrico, etc. Em muitos deles registrou trabalhos que se converteram em referncias sobre a manipulao musical inserida no objeto audiovisual. A msica do filme Canone Inverso possibilitou a abordagem de alguns aspectos no encontrados com muita freqncia nos filmes que vo desde a utilizao da escrita contrapontstica imitativa pura na composio de uma msica utilizada como personagem principal do filme, a forma de sua utilizao reflete-se na prpria estrutura da montagem seqencial do filme. O que o Cnone Inverso do Canone Inverso? O cnone inverso um dos muitos procedimentos contrapontsticos que, utilizados primeiramente pelos compositores franco-flamengos na Itlia a partir dos sculos 14 e 15, foram retomados por J.S.Bach, no sculo 18 e, no sculo 20, pela segunda escola de Viena. Essas tcnicas, conhecidas pela maioria dos grandes compositores, ligam-se a pensamentos lgico-matemticos da msica que foram rechaados por algumas correntes histricas que viam em tal procedimento uma espcie de prejuzo, j que tal condicionamento matemtico, segundo essa corrente, lega um status maior razo em detrimento da emoo como base da composio. O Procedimento Imitativo em msica (mimesis) em msica se d na recorrncia ou reutilizao de idias musicais por componentes diferentes de uma mesma textura sonora (vozes diferentes, instrumentos diferentes, partes diferentes etc.) engendrando derivaes que so normalmente classificadas tecnicamente como imitao, repetio, variao, seqncia ou progresso; e, a partir dos critrios paramtricos de igualdade e/ou diferena, o da prpria simetria, que constitu, em ltima instncia, uma unidade primria da forma musical. Esse um dos paradigmas mais marcantes no pensamento da chamada forma musical ocidental: gerar novas idias a partir da relao observada em idias anteriores, ou seja, tpico no encadeamento entre as partes que compe um todo (seus diversos momentos), o relacionamento do momento atual com um momento anterior que, por sua vez, relacionado com um mesmo momento inicial ou ideal. Esse sistema de encadeamento relacionado contribui viso de um todo articulado e orgnico, ou seja, o relacionamento do todo com suas partes e das suas partes com o todo engendra uma integralidade, uma unidade , que pode at superar o prprio todo. Desde pelo menos a Idade Mdia, isto pode ser observado na forma como os compositores sentiam-se atrados pelo efeito de uma mesma idia meldica reutilizada por uma segunda voz, mas que iniciava essa idia aps uma primeira voz t-la apresentada em sua totalidade

  • ou em parte. Este procedimento gerou o que hoje chamamos, em msica, de Imitao e, posteriormente, de Estilo Imitativo. As primeiras imitaes foram denominadas a partir do sculo 12 de Repeticio vocis. Os procedimentos ligados imitao foram amplamente desenvolvidos e implementados, como podemos constatar na grande maioria dos compositores do sculo 16, a chamada poca de ouro do contraponto, e, em particular na obra de G. P. Palestrina e Orlando di Lassus, mais tarde, no sculo 18, na de J. S. Bach e G. F. Haendel. Percy Goetschius (1902:61) expe os vrios modos de imitao vinculados ao desenvolvimento de recursos temticos. Sua classificao predominantemente polifnica e sintetiza um tipo de pensamento ocidental ligado ao contraponto, como pode ser observado na definio de imitao oferecida por Knudd Jeppesen (1939:63):

    Imitao em msica significa uma maneira de escrita na qual uma voz imita ou mimetiza a outra, assumindo o mesmo tema, de tal forma que as vozes se sucedem com o mesmo material meldico.

    Atravs da imitao as voz