Enfim, Freud! Freud no seu tempo e no .mo, Freud e os Estados Unidos, Freud e os charutos, Freud

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  • Michel Rotfus - Traduo: Bernardo Maranho - Reviso da traduo: Carlos Antnio Andrade Mello

    89Reverso Belo Horizonte ano 37 n. 70 p. 89 102 out. 2015

    O campo da biografia deve igualmente se tornar o nosso, FreudFreud no seu tempo e no nosso, o ltimo livro de Elisabeth Roudinesco, foi publicado em 11 de setembro de 2014.

    Isso no seria cultivar o paradoxo e ofender aquele que ela denomina em seu livro Herr Professor,1 com uma afeio marcada por uma familiaridade insolente e amistosa, visto que bem conhecida a hostilidade dele s biografias?

    [...] [E]le sempre tinha um certo deleite com a ideia de que seus futuros bigrafos pudessem se atrapalhar. Tambm destruiu

    cartas que Wilhelm Fliess lhe enviara. Mais tarde, em 1936, tentar em vo persuadir sua cara Princesa Marie Bo-naparte de no conservar as dele que ela adquirira de um marchand (roudinesco, 2015, p. 83).

    No Freud quem escreve a seu ami-go Arnold Zweig, mesmo quando este completa oitenta anos: Quem se torna bigrafo se restringe a mentir, dissimular, embelezar e at esconder sua prpria falta de compreenso?

    No entanto, ele no hesita em se contradizer e refutar a si mesmo. No ele seu prprio bigrafo em dois ensaios

    Enfim, Freud!...Freud no seu tempo e no nosso

    roudinesco, E. Freud en son temps et dans le ntre. Paris: Seuil, sept. 2014.

    Michel RotfusTraduo: Bernardo Maranho

    Reviso da traduo: Carlos Antnio Andrade Mello

    ResumoEste texto de Michel Rotfus analisa o livro de Elisabeth Roudinesco Freud no seu tempo e no nosso evidenciado sua novidade radical, resultado de suas escolhas historiogrficas e de sua escrita romanesca. Essa biografia histrica prope uma narrativa que faz do texto uma biografia--romance-epopeia, to cativante quanto luminosa.

    Palavras-chaveBiografia de Freud, Histria da psicanlise, Historiografia, Roudinesco.

    1. Depois de mltiplos aborrecimentos administrativos e sem ter jamais lecionado, j que optara pela carreira de mdico municipal, Freud obtm enfim, em fevereiro de 1902, a nomeao to desejada de professor extraordinrio, o que significava que seus trabalhos comeavam a ser reconhecidos. A partir de ento, ele ser Herr Professor (roudinesco, 2014, p. 123).

  • Enfim, Freud!... Freud no seu tempo e no nosso Roudinesco, E. Freud en son temps et dans le ntre. Paris: Seuil, sept. 2014.

    90 Reverso Belo Horizonte ano 37 n. 70 p. 89 102 out. 2015

    de um lirismo exaltado, um de 1915, A histria do movimento psicanaltico, o outro de 1925, Um estudo autobiogrfico, consa-grado a uma apresentao do autor por ele mesmo, na qual ele alimenta o mito do autoengendramento da psicanlise por seu prprio inventor? Nesses dois textos, escritos na tradio do romance de for-mao, ele d a imagem de um fundador de uma cincia nova, sem passado, sem companheiros de gestao e de percurso, nascida de uma imaculada concepo a partir de seu crebro, inventor genial e solitrio, e combatendo seus dissidentes.

    Quando anuncia para Jung seu projeto de estender suas investigaes ao campo da arte e, em particular, a Leonardo da Vinci, Freud escreve:

    O domnio da biografia deve igualmente se tornar o nosso. Desde meu retorno, tenho tido uma s ideia. O enigma do carter de Leonardo da Vinci se tornou de sbito transparente para mim. Seria esse, portanto, um primeiro passo na biografia (roudinesco, 2014, p. 203).

    Esse interesse pela biografia continua pre-sente at seus ltimos dias, quando ele es-creve esse verdadeiro romance histrico (roudinesco, 2014, p. 476-479), Moiss e o monotesmo. Ademais, ligado por laos de amizade a William Bullitt, diplomata e conselheiro do presidente Woodrow Wil-son a partir de 1930, escreve junto com ele uma biografia do presidente americano.

    Desde sempre, ele sonhava escrever uma verdadeira psicobiografia que seria muito diferente, por seu estilo, do ensaio liter-rio que consagrara a Leonardo da Vinci (roudinesco, 2014, p. 477).

    O livro s vem a ser publicado, em ingls, em 1967.

    Em 1924, Fritz Wittels, um dos pri-meiros discpulos e membro da Sociedade psicolgica da quarta-feira, publica a pri-

    meira biografia de Freud. Bastante irritado por conta desse livro e do retrato feroz que Wittels faz dele, apresentando-o como um tirano, Freud envia ao autor a lista das numerosas inexatides e das retificaes a efetuar. [...] [M]aneira de provar que, em todas as circunstncias, ele se preocu-pava com a exatido dos fatos, sublinha Elisabeth Roudinesco (roudinesco; Plon, 2006, p. 1120).

    A autora, alis, aps uma recente apresentao de seu prprio livro,2 co-mentou, rindo: Ele teria feito o mesmo comigo e enviado a lista dos meus erros, pedindo para retific-los.

    Uma biografia necessria...Essa biografia de Freud foi aclamada por toda a imprensa como um evento de des-taque na temporada literria. Recebeu o Prix Dcembre e o Prix des prix. Do jornal Le Monde ao Libration, do JDD ao Sud--Ouest, do Point ao Nouvel Observateur e a Image du monde, passando por Art-Press e Tet et les Inrocks, no h um jornal, uma revista, que no a tenha tratado elogiosamente. O mesmo se verifica no exterior: esto em curso tradues para o ingls, o espanhol, o portugus, o alemo, o japons, o lituano, o croata, o albans e o chins (e ela ser na China a primeira biografia de Freud).

    A vida de Freud j foi examinada e analisada tantas e tantas vezes que de se perguntar o que ainda possvel escrever a seu respeito que no seja mera repetio. E, contudo, ainda h o que dizer.

    Essa nova biografia se impunha: o inventrio encontrado no prefcio e na bibliografia final o demonstra. Aps a de Fritz Wittels (1999)3 e a de Jones (2006), monumental, criticada em seguida pelos

    2. Les rendez-vous de la Barge, pniche-caf, em 3 dez. 2014.3. WITTELS, F. Freud et la femme-enfant. Les mmoires de Fritz Wittels, suivi de: Sigmund Freud - lhomme, la doctrine, lcole. Paris: PUF, 1999. (Col. Bibliothque de la Psychoanalyse).

  • Michel Rotfus - Traduo: Bernardo Maranho - Reviso da traduo: Carlos Antnio Andrade Mello

    91Reverso Belo Horizonte ano 37 n. 70 p. 89 102 out. 2015

    trabalhos de Ellenberger (2001), a ltima biografia histrica at ento era a de Peter Gay, publicada em 1988 e traduzida para o francs em 1991.

    A biografia de Ernest Jones, monu-mental obra-prima, rigorosa em sua do-cumentao, dominou durante dcadas. Desempenhou o papel de uma histria oficial, que dava uma imagem respeitvel e imaculada de Freud. J a de Peter Gay fazia de Freud um erudito ingls da poca vitoriana, essencialmente darwiniano e racionalista, sem relao com Viena nem com a Europa central. Sobre esses trabalhos, vieram se superpor numerosas publicaes, pintando retratos de Freud bem diversos, variveis ao gosto das esco-las, kleinianas, lacanianas, ps-freudianas, culturalistas, etc. Alm disso, Freud e... se puseram a prosperar: Freud e o judas-mo, Freud e os Estados Unidos, Freud e os charutos, Freud e a cocana... declinando os diversos aspectos de sua vida, de seus pacientes, de seu convvio social e de suas obras. Sobre tantas camadas interpretati-vas, desenvolveram-se, do outro lado do Atlntico, os ataques dos Freud-bashing (os destruidores de Freud) e, na Frana, os de seus aproveitadores os autores do Livro negro da psicanlise e, em seguida aquele, caricatural, do texto-bomba de Michel Onfray , que encenaram as lendas som-brias de um Freud detestvel, falsificador e mentiroso, incestuoso, vido e avaro, admirador de Mussolini, pacturio com os nazistas e assassino de suas irms...4

    Essas lendas e esses rumores, mistura-dos a toda sorte de elementos biogrficos em todo caso estabelecidos, formaram uma imagem embaralhada, na qual

    [...] bem difcil para ns saber quem era Freud verdadeiramente, tamanho o

    excesso de comentrios, fantasias, lendas e rumores, que terminou por encobrir o que foi o destino paradoxal desse pensa-dor (roudinesco, 2014, p. 11).

    Era necessria uma nova biografia, que preenchesse as lacunas, retificasse as aproximaes e desse um basta s lendas e aos rumores, tomados a tal ponto como verdadeiros que so ainda hoje objeto do comentrio de especialistas.

    Novas publicaes da imensa cor-respondncia de Freud, mas tambm a abertura, enfim, dos arquivos da Library of Congress, em Washington, para livre consulta dos historiadores,5 trouxeram novos esclarecimentos e facilitaram essa empreitada.

    Elisabeth Roudinesco diz6 ter sentido a necessidade de escrever essa biografia, que no tem por finalidade responder aos ataques contra Freud ou fazer oposio a uma anti-hagiografia, mas que depende de uma lgica interna: aps ter trabalhado tanto sobre a histria da psicanlise, impu-nha-se a ela dedicar-se de seu fundador. Vinte e um anos de um trabalho aprofun-dado com seu seminrio7 sobre a histria da psicanlise e os diversos aspectos da vida e da obra de Freud, seu dicionrio da psicanlise, sua histria da psicanlise na Frana, cujo terceiro volume inteiramen-te consagrado a Lacan, seus livros e suas intervenes diversas, notadamente no campo sociopoltico, sempre sob o ngulo

    4. Ver meu artigo que mostra o carter escandaloso e derrisrio de livro de Goce Smilevski, La liste de Freud: .

    5. Kurt Eissler consagrou sua vida constituio dos ar-quivos da LoC. Contudo, ele ps em prtica uma poltica de reteno desastrosa, que favoreceu uma historiografia tornada quintal do legitimismo psicanaltico e, alm dis-so, como sublinhou Peter Gay, [...] a defesa do segredo [...] s pde favorecer a proliferao dos rumores mais extravagantes (roudinesco; Plon, 2006, p. 457-458).6. Noite de apresentao do seu livro, em 12 fev. 2015, no Espace des Femmes Antoinette Fouque, 35 rue Jacob, Paris.7. Seminrio em que ela continua seu ensino na cole Normale Suprieure da Rue dUlm.

  • Enfim, Freud!... Freud no seu tempo e no nosso Roudinesco, E. Freud en son temps et dans le ntre. Paris: Seuil, sept. 2014.

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