Eiiti Sato

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    09-Jan-2017
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    As Relaes Internacionais, a Sociologia e os Debates Correntes sobre Con-flito, Cooperao e Mudanas na Ordem Internacional 1.

    Eiiti Sato2

    Relaes Internacionais : Um Campo de Estudo Antigo e Tambm Moderno

    Apesar de ser uma disciplina relativamente nova, quando comparada com outros ramos da cincia,

    a constituio do campo das Relaes Internacionais como rea distinta de estudo j completou

    oito dcadas. Apesar disso, as relaes com outros campos do conhecimento continuam sendo

    objeto de reflexo. Este trabalho procura analisar a particular utilidade da Sociologia na compreen-

    so dos fenmenos internacionais hoje marcados pelo novo terrorismo, pela globalizao e pelo

    aumento do distanciamento entre as sociedades industrializadas e as naes mais pobres. Os a-

    contecimentos mais recentes observados no meio internacional tm suscitado muitas perguntas

    que transcendem as abordagens mais estritas oferecidas pelas categorias de anlise das relaes

    internacionais. O fenmeno do novo terrorismo, por exemplo, envolve no apenas a esfera da a-

    o poltica de Estados ou de instituies internacionais, mas envolve crenas e valores religiosos

    e suas manifestaes seculares; envolve questes tnicas, conflitos entre tradies culturais e

    demandas econmicas e sociais da modernidade, alm, naturalmente, de envolver tambm as no-

    vas dimenses da interao internacional abertas pela integrao da vida econm ica e poltica em

    escala efetivamente global.

    Outros fenmenos marcantes das relaes internacionais da atualidade, tais como o narcotrfico,

    a lavagem de dinheiro, as questes ambientais ou a formao de redes internacionais no campo

    das finanas, da tecnologia e do manejo do conhecimento, tambm demandam o emprego de re-

    cursos analticos amplos e interdisciplinares. Nesse quadro, abordagens mais restritas tpicas da

    cincia moderna, que procura restringir ao mximo suas construes analticas s especificidades

    de uma classe de fenmenos podem ser muito pouco produtivas ou mesmo levar a concluses

    equivocadas.

    O tema das Relaes Internacionais estabeleceu -se como campo de estudo na modernidade de-

    pois da Primeira Guerra Mundial. Apesar de tudo, as questes envolvendo as relaes entre Esta-

    dos e povos, em especial a guerra e a paz, sempre foram objeto de reflexo dentro das mais dife-

    rentes tradies culturais de que se tem notcia. Desde a Antigidade, a reflexo sobre a guerra, a

    paz, a formao de alianas ou a natureza e o emprego do poder associado ordem poltica e a

    cdigos de conduta dos homens constituem parte essencial das obras mais notveis que fo rmaram

    as bases do pensamento filosfico, histrico e jurdico da vertente cultural a que chamamos de

    Ocidente.

    1 Trabalho preparado para o XXV Congresso da Associao Latino-Americana de Sociologia, 22-26/agosto/2005. UFRGS, Porto Alegre, RS. 2 Professor do Instituto de Relaes Internacionais da Universidade de Braslia.

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    Esse fato no ocorre, por exemplo, com uma disciplina como a Economia. Muito embora a ativida-

    de econmica sempre tenha feito parte da existncia das sociedades organizadas, as questes

    fundamentais da Economia o que produzir, por que produzir, como produzir e para quem produ-

    zir somente na modernidade deixaram de ser parte integrante de ritos religiosos, de obrigaes

    afeitas a categorias sociais ou de sistemas de exerccio de poder dentro dos grupos sociais. Em

    outras palavras, at o advento da modernidade, os fundamentos da vida econmica eram explica-

    dos basicamente por outras instncias da ordem social. O cultivo da terra sempre foi parte das ati-

    vidades que garantiam a subsistncia, mas, na maioria das correntes civilizatrias, era um tr abalho

    afeito a categorias sociais subalternas ou mesmo a servos e escravos. Nesse ambiente, o que de-

    terminava a atividade econmica deveria ser procurado em outros domnios da ordem social, e no

    em possveis motivaes ou leis do comportamento dentro da esfera estrita da vida econmica.3

    Na Grcia de Xenofonte, a oikonomia referia-se essencialmente administrao dos recursos e

    das necessidades do domnio familiar, e atividades como o artesanato eram consideradas indignas

    de homens honestos. Da mesma forma, na Idade Mdia, a prtica de emprestar dinheiro era um

    pecado, e o campons um membro de uma categoria social inferior. Alm disso, a pilhagem, a

    conquista e a escravido eram prticas aceitas e que passaram a ser condenadas apenas na mo-

    dernidade. Thomas More , em sua Utopia, publicada j em plena poca mercantilista, retrata a vida

    econmica como algo essencialmente moral, assentada sobre cdigos e obrigaes capazes de

    eliminar completamente o instinto de posse dos indivduos e de transformar ouro e pedras precio-

    sas em bens sem valor e at mesmo desprezveis, usados apenas pelas crianas como brinque-

    dos.4 A viso de More sobre os fundamentos da vida econmica estava associada s crticas dos

    humanistas ordem social e poltica de seu tempo, fundadas essencialmente no domnio moral,

    mas mostra tambm que alguns elementos da economia no sentido moderno, como o uso da mo-

    eda e o sentido do valor do trabalho j despontavam.

    A tradio aristotlica, que ligava a noo de bem-estar com a virtude, influenciou fortemente o

    pensamento medieval e tambm serviu de base para o incio da reflexo sobre a economia na mo-

    dernidade. Adam Smith era professor de moral, e sua obra mais notvel guarda muito do mesmo

    sabor da famosa Fbula das Abelhas escrita por Bernard de Mandeville meio sculo antes da Ri-

    queza das Naes.5 A tese contida na Fbula das Abelhas a idia de que a prosperidade no

    precisa ser produto do comportamento virtuoso dos indivduos mas que, em larga medida, so os

    vcios privados, tais como a ambio, a vaidade ou mesmo o orgulho, que impulsionam a produo

    de riquezas. Com efeito, a metfora da mo invisvel, na mesma direo, procura mostrar que h

    uma fora oculta sob a lgica da vida econmica que faz com que os indivduos, ao buscarem seu

    3 Sobre a vida econmica na Antigidade grega ver M. AUSTIN & P. VIDAL-NAQUET, Economia e Socie-dade na Grcia Antiga (Edies 70, Lisboa, 1986) e sobre a economia na Idade Mdia ver M. BLOCH, A Sociedade Feudal (Edies 70, Lisboa, 2001). 4 THOMAS MORE, Utopia. Instituto de Pesquisa de Relaes Internacionais IPRI/FUNAG; Edit. Uni-versidade de Braslia, 2004. A primeira edio da obra, em latim, foi publicada em 1516. 5 BERNARD DE MANDEVILLE era mdico e teve uma vida marcada por comportamento social bastan-te controvertido. Sua obra inclui, alm de escritos sobre questes mdicas, reflexes sobre as fbulas de ESOPO e sobre as lies de seu contemporneo LA FONTAINE. The Fable of the Bees: or Private Vices, Public Benefits foi escrito em duas etapas e publicada pela primeira vez em 1729.

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    progresso e bem-estar, mesmo de forma egosta, promovem o bem-estar de sua comunidade, que

    se beneficia de seu esforo e engenho. Para Smith, a liberdade econmica era inseparvel de sua

    dimenso moral.

    Karl Polanyi, numa interpretao mais voltada para a antropologia econmica, faz distino entre a

    atividade econmica exercida antes e depois do advento da era moderna.6 Para Polanyi, s na

    modernidade a economia tornou-se uma atividade autnoma, desvinculando-se de outras instn-

    cias da sociedade e, em conseqncia, passando a demandar a construo de conceitos e recur-

    sos analticos prprios. Nas sociedades primitivas , as decises econmicas eram uma decorrncia

    de cdigos, costumes e padres afeitos a outras instncias, especialmente religio. Polanyi su-

    gere que, nessas sociedades, os fundamentos da atividade econmica poderiam ser de quatro

    tipos: a reciprocidade, a redistribuio, a economia domstica e a troca.

    Apesar de tudo, uma noo como a de mercado, to fundamental para a economia, apenas veio a

    se consolidar na modernidade. Obviamente, tudo isso no impede que os estudiosos de nosso

    tempo empreguem seus instrumentos de anlise para interpretar fenmenos econmicos ocorridos

    em outros tempos. O estudioso apenas precisa prestar ateno no fato de que as atividades eco-

    nmicas eram determinadas por motivaes originadas em outras esferas.

    No caso das Relaes Internacionais, no entanto, as reflexes sobre a paz e a guerra e sobre for-

    mas de convivncia entre povos e sociedades podem ser encontradas em documentos to antigos

    e to diversos como a Bblia e as tragdias gregas. Uma das obras mais citadas, e que mostra a

    familiaridade dos antigos com conceitos empregados at hoje no estudo das Relaes Internacio-

    nais, , sem dvida, A Histria da Guerra do Peloponeso, escrita h quase 2.500 anos. Logo no

    incio, Tucdides enuncia o conceito de equilbrio de poder como motivo da guerra e a naturalidade

    com que o emprega revela que essa era uma noo verdadeiramente corrente entre seus contem-

    porneos: A explicao mais verd ica, apesar de menos freqentemente alegada, , em minha

    opinio, que os atenienses estavam tornando-se muito poderosos, e isto inquietava os lacedem -

    nios, compelindo-os a recorrerem guerra. 7

    Portanto, o que diferencia as Relaes Internacionais como campo de estudo da modernidade

    dessa reflexo vinda desde a Antigidade , essencialmente, o esforo de organizar o instrumental

    de anlise a partir dos recursos tericos e metodolgicos oferecidos pela cincia social moderna e,

    nesse quadro, a Sociologia teve um destacado papel, inclusive pelos muitos autores da especial i