Cinco Ideias Equivocadas Sobre Indios Palestra CENESCH

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    05-Jul-2015
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CINCO IDIAS EQUIVOCADAS SOBRE OS NDIOS 1Jos Ribamar Bessa Freire2

Introduo Gostaria de iniciar a minha fala informando vocs sobre o lugar de onde estou falando. Sou exprofessor da Universidade do Amazonas, onde trabalhei de 1977 a 1986, inicialmente no curso de Comunicao Social e depois no curso de Histria, onde lecionei as disciplinas Etnohistria e Histria do Amazonas. Fui fundador e primeiro editor do Porantim, jornal do CIMI Conselho Indigenista Missionrio, dedicado causa indgena. Atualmente, sou professor da UERJ Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde coordeno desde 1992 o Programa de Estudos dos Povos Indgenas. Na palestra de hoje, vou falar um pouquinho sobre o meu trabalho e, depois, penso refletir com vocs sobre cinco idias equivocadas que muita gente no Brasil ainda tem quando se refere aos ndios. importante discutir essas idias equivocadas, porque com elas no possvel entender o Brasil atual. Se ns no tivermos um conhecimento correto sobre a histria indgena, sobre o quePalestra proferida no dia 22 de abril de 2002 no curso de extenso de gestores de cultura dos municpios do Rio de Janeiro, organizado pelo Departamento Cultural. Parte dela havia sido tema de uma conferncia em 22 de maro de 2000, gravada e transcrita pelo Centro de Estudos do Comportamento Humano (CENESCH), de Manaus (Am). Decidimos manter, no texto escrito, as marcas da oralidade, para preservar a estrutura do texto original. As duas instituies UERJ e CENESCH publicaram o artigo em suas respectivas revistas. FREIRE, J.R. Bessa. Cinco idias equivocadas sobre o ndio. In Revista do Centro de Estudos do Comportamento Humano (CENESCH). N 01 Setembro 2000. P.17-33. Manaus-Amazonas. FREIRE, J.R. Bessa. A herana cultural indgena: quem so os herdeiros?. In CONDURU, R. e SIQUEIRA, V. B Polticas pblicas de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Rio. Sirius/FAPERJ. 2003. Esta ltima verso, preparada em 2009, com algumas mudanas e acrscimos, o resultado das oficinas realizadas com professores da rede pblica de ensino para a implementao da Lei 11.645 de maro de 2008, uma delas em Japeri, em parceria com o professor Alosio Monteiro da UFRRJ.2 1

Professor da Faculdade de Educao da UERJ e coordenador, desde 1992, do Programa de Estudos dos Povos Indgenas. Professor do Programa de Ps-Graduao em Memria Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro UNI-Rio.

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aconteceu na relao com os ndios, no poderemos explicar o Brasil contemporneo. As sociedades indgenas constituem um indicador extremamente sensvel da natureza da sociedade que com elas interage. A sociedade brasileira se desnuda e se revela no relacionamento com os povos indgenas. ai que o Brasil mostra a sua cara. Nesse sentido, tentar compreender as sociedades indgenas no apenas procurar conhecer o outro, o diferente, mas implica conduzir as indagaes e reflexes sobre a prpria sociedade em que vivemos. No entanto, constatamos que muito pouco foi feito para conhecermos a histria indgena. A produo de conhecimentos nesta rea no condiz com a importncia do tema. As pesquisas so de uma pobreza franciscana. O resultado disso a deformao da imagem do ndio na escola, nos jornais, na televiso, enfim na sociedade brasileira. Por que ns no temos histria indgena? Por que os prprios cursos universitrios de Histria no tm a disciplina histria indgena nos seus currculos? Durante muito tempo, a academia justificou a ausncia de pesquisas, alegando que no existem documentos escritos relacionados histria indgena. A USP tentou verificar se isso era verdade e, em 1991, a antroploga Manuela Carneiro da Cunha elaborou um projeto de mbito nacional, dirigido pelo historiador John Monteiro. Coordenei este projeto no Rio de Janeiro, trabalhando com uma equipe de 12 pesquisadores. Ns passamos dois anos e meio vasculhando 25 grandes arquivos do Rio de Janeiro, procurando manuscritos sobre a histria indgena. O resultado foi surpreendente. O Rio de Janeiro, como antiga capital, tem arquivos cujos acervos no se limitam ao local, ao regional, mas cobrem todo o Brasil. O Arquivo Nacional, por exemplo, com essa denominao, d uma idia de sua abrangncia. A Biblioteca tambm Nacional. O Instituto Geogrfico e Histrico Brasileiro, e assim por diante. No Rio esto os arquivos do Itamaraty, do Ministrio do Exrcito, da Marinha, arquivos religiosos como o do Mosteiro de So Bento ou o dos Capuchinhos, registrando informaes sobre os ndios em todo o pas. Num trabalho paciente, a equipe encontrou milhares de documentos sobre ndios. A USP publicou um livro com o resultado geral da situao dos arquivos nas capitais brasileiras. A UERJ publicou outro livro Os ndios em Arquivos do Rio de Janeiro, em dois tomos que esto aqui, em minhas mos. Estamos doando este exemplar para a biblioteca do CENESCH. Se houver interesse, podemos conversar mais sobre isso na hora do debate. um trabalho que serve

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de guia para os pesquisadores, porque diz para eles onde esto os documentos. Ele tem sido consultado por muitos estudiosos de universidades americanas, europias e brasileiras, entre os quais alguns professores da Universidade do Amazonas, como Luis Balkar S Peixoto Pinheiro, que defendeu em So Paulo tese de doutorado sobre a cabanagem, um importante movimento de resistncia do sculo XIX e Francisco Jorge dos Santos, cuja dissertao de mestrado sobre as guerras e rebelies indgenas na Amaznia do sculo XIX. Quando fizemos essa pesquisa, encontramos documentos sobre ndios em todo o territrio nacional, desde 1500 at os dias de hoje, mas o que nos interessava mais de perto era o Rio de Janeiro. Descobrimos que no estado do Rio de Janeiro, at o incio do sculo XX, existiam ainda grupos resistindo. No noroeste fluminense, na serra das Frecheiras, em 1830-40, ndios Puri, Coroado e Corop estavam nas mesmas condies que os Yanomami h 40 anos: sem maiores contatos com a sociedade regional. Ento, localizamos no mapa do Rio de Janeiro, no sculo passado, 15 aldeias. E a procuramos saber como e porque esses ndios foram varridos do mapa, o que afinal tinha acontecido com eles. Pensamos o seguinte: ora, se ainda no sculo passado existiam 15 aldeias indgenas, ento provvel que hoje ainda pudssemos encontrar documentos nas cidades onde essas aldeias estavam situadas. Com esta probabilidade, organizamos outro projeto de pesquisa. Formamos uma equipe com alunos da UERJ, percorremos quinze cidades do interior do Rio de Janeiro, fuando pequenos arquivos paroquiais, cartoriais e municipais. E a fomos gratificados, porque encontramos uma massa expressiva de documentos nos livros de batismo, de casamento e de bitos, nos processos judiciais e na documentao cartorial. Exploramos parte desse material, analisamos a documentao e publicamos este livro aqui Os Aldeamentos Indgenas do Rio de Janeiro que um livro paradidtico, destinado aos alunos das escolas de 1 e 2 graus. Tambm estamos doando este exemplar para a biblioteca do CENESCH. Nos dois ltimos anos, meu trabalho consiste em percorrer os municpios do Rio, fazendo oficinas com professores de Histria, que esto usando este livro na sala de aula. Desta forma, com esse trabalho de formiguinha,m pretendemos contribuir para mudar a imagem preconceituosa dos ndios que, de uma forma geral, veiculada pela escola. Mas necessrio aprofundar a pesquisa.

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Por ltimo, elaboramos tambm os Cadernos de Museologia, editado pela UERJ, com artigo de um antroplogo americano, James Clifford, sobre os museus tribais no Canad e outro artigo que escrevi sobre como os ndios descobriram o museu aqui no Brasil. Feita essa apresentao, na palestra de hoje queria destacar cinco idias relacionadas questo indgena, que no so corretas, mas que continuam presentes na cabea da maioria dos brasileiros. Depois, ento, abrimos para o debate.

Primeiro equvoco: o ndio genrico A primeira idia que a maioria dos brasileiros tem sobre os ndios a de que eles constituem um bloco nico, com a mesma cultura, compartilhando as mesmas crenas, a mesma lngua. Ora, essa uma idia equivocada, que reduz culturas to diferenciadas a uma entidade supra-tnica. O Tukano, o Desana, o Munduruku, o Waimiri-Atroari deixa de ser Tukano, Desana, Munduruku e Waimiri-Atroari para se transformar no ndio, isto , no ndio genrico. Algum a pode objetar: - Ah, mas existe tambm europeu como uma denominao genrica que engloba vrios povos de lnguas e culturas diversas e ningum questiona isso. verdade. No entanto, quando um portugus ou um francs dizem que so europeus, essa denominao genrica no apaga a particular. Eles continuam sendo, cada um, portugus ou francs. No entanto, no caso do ndio, o equvoco est em que o genrico apaga as diferenas. O ndio deixa de ser Tukano, Desana, etc. para se transformar simplesmente no ndio. Hoje vivem no Brasil mais de 200 etnias, falando 188 lnguas diferentes. Cada povo tem sua lngua, sua religio, sua arte, sua cincia, sua dinmica histrica prpria, que so diferentes de um povo para outro. S para dar uma noo para vocs sobre essa enorme diversidade, quando Frei Gaspar Carvajal desceu o rio Amazonas em 1540, encontrou aqui povos que falavam dezenas de lnguas diferentes, to diferentes entre elas como o portugus do alemo. O padre Acua, um jesuta que em 1640 acompanhou a expedio de descida de Pedro Teixeira, escreve que s no baixo Amazonas existiam pelo menos 150 povos, falando 150 lnguas diferentes. Por essa razo, o padre Antnio Vieira denominou o rio Amazonas de rio Babel. Recentemente, um trabalho feito pelo lingista tcheco Cestmir Loukotka, em 1968, sobre a classificao de lnguas,

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mostrou que na Amaznia brasileira, em 1500, eram faladas mais de 700 lnguas diferentes. No territrio que hoje o Brasil, eram faladas mais de 1.300 lnguas. O grau de intercomunicao entre elas varivel. A diferena que pode haver entre a lngua Macuxi e a Ingaric, ambas do tronco lingstico Karib, comparvel diferena existente entre o portugus e o espanhol, ou seja, possvel estabelec