BUARQUE Chico e Ruy Guerra_Calabar

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    09-Mar-2016
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Calabar. Peça de teatro de Rui Guerra e Chico Buarque.

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  • Desde 1973. quando meu espetculo foi trado e abortado pela represso cultural, Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, me parece um dos instantes mais maduros e mais responsveis da dramaturgia nacional. H sensibilidade e inteligncia na utilizao da matria histrica como instrumento capaz de instaurar uma conseqente reflexo que ultrapassa os limites de determinadas circunstncias poltico-econmicas e amplia o debate ideolgico de forma irnica, provocativa, apoiada em extrema e contagiante teatralidade, usando a postura critica e a desmedida coragem de assumir o grotesco. Calabar desmistifica o conceito de traidor e a noo vazia e abstrata de traio. Questiona valores e revela contradies com visceral humor. E um texto "malcomportado". E por isso estimula a elaborao de um espetculo debochado, capaz de assumir a quase anrquica mas organizada colagem e a justaposio de imagens e pocas. Meu espetculo de agora est bem distante da primeira verso: mudou o pas, mudei eu, mudou o teatro brasileiro, mudou a forma de discutir uma temtica que, infelizmente, permanece atual e vigente: traio e colonizao. Antes eu havia optado por um historicismo critico. Um painel didtico dentro do qual a rede de traies, o que o texto prope, aparecia como centro vital; hoje

  • escolhi a reflexo sobre a Histria a partir de

    uma colagem mais aberta e mais provocante,

    misturando tempo e espao, mergulhando mais

    fundo nas sempre claras contradies internas

    dos personagens, No para tornar o espetculo

    mais intimista, mas, ao contrrio, para torn-

    lo mais exteriorizado, mais teatral, no sentido

    do circo popular, No fundamental, entretanto,

    nossa obstinada crena na libertao nacional

    e na unidade das foras democrticas contra o

    arbtrio e a violncia faz com que nossos

    objetivos permaneam a provocar o debate de

    idias, a revolta dos sentimentos,

    a desconfiana pelo que nos apresentado

    cotidianamente como "normal", "certo",

    "eterno", "rotulado" Sabemos que o interesse

    dos dominadores divulgar a mistificao.

    E desistimos de buscar a verdade, certos de que

    a sociedade precisa ser transformada.

    Com Calabar queremos divertir o pblico,

    espalhando pontos de interrogao, dvidas e

    perplexidades. Surpreendendo pelo atualizado

    deboche critico, fundamentado num confronto

    realista com temas essenciais de nossa

    existncia de nao social-econmica-poltica-

    culturalmente ainda colonizada num tmido

    mas empenhado esforo de construo de uma

    democrtica cultura nacional-popular.

    Fernando Peixoto, 1980

  • Chico Buarque Ruy Guerra

    Calabar O elogio da traio

    LETRAS Chico Buarque e Ruy Guerra MSICA Chico Buarque

    Buarque, Chico; Guerra, Ruy Calabar o elogio da traio Literatura

    CIVILIZAO BRASILEw.

    32* edio

    S B D - F F L C H - U S P

    9 7 2 9 8

    Rio de Janeiro 2006

    L_tl-AUUISlAO PROGRAMA IN 111 l u DO MILNIO - CNPq

  • Sumrio

    A roda viva de Calabar: Dialtica da traio Chico/Ruy 7 Duas vezes Calabar Fernando Peixoto 13 Uma reflexo sobre a traio Fernando Peixoto 17 Ficha tcnica do primeiro espetculo 25 Ficha tcnica da nova verso 27

  • A roda viva de Calabar: Dialtica da traio

    CHICO. H uma diferena de seis anos de Roda viva para Calabar. Para mim, nessa faixa de 20 a quase 30 anos a gente muda muito. Calabar um trabalho bem mais ela-borado. Roda viva foi escrito, assim, em um ms, um ms e pouco, e praticamente remontado e reestruturado. Cala-bar, ns comeamos a fazer em agosto/setembro do ano passado, foi um ano de trabalho, de mudar no meio, co-mear tudo de novo. No que a gente tenha entregado o texto fechadssimo. um trabalho mais denso, e, por ou-tro lado, tambm um trabalho que exigiu pesquisas. um tema histrico. No um tema de televiso como Ro-da vivay um tema de experincia pessoal. E depois, um trabalho feito de parceria, o que j muda muita coisa. um trabalho totalmente diferente. Inclusive a montagem de Fernando Peixoto bastante diferente da do Jos Celso, apesar de o Fernando ter trabalhado muito com ele. outro tipo de teatro: aquele tipo de teatro de agresso no a inteno do Fernando, aquele negcio de entrar no meio do pblico... s tem um boi que voa...

    RUY. A montagem do Fernando uma coisa mais clssica, mas vai desde o Teatro de Revista at Planchon, se quiser. No h um interesse em revolucionar o teatro. Pelo con-trrio, a interpretao marcada num sentido assim bem quadrado.

  • CHICO. E tambm naquela poca alguma coisa era possvel* uma liberdade de improvisao. Tinha horas, em Roja viva, em que o personagem podia fazer o que queria. Ele falava o que bem entendia, dedicava o espetculo a quem queria, xingava os caras, ao Vinicius, por exemplo. Eu quando assistia a pea, era pichado sempre. Ento, hoje no pode mais fazer isso, quer dizer, o sujeito tem que se-guir direitinho o texto. A nica coisa que tem que so duas peas de teatro. Mas eu tambm j trabalhei com o teatro, desde o comeo, desde a msica para o poema de Joo Cabral, e fiz outras msicas para o Oficina. Meu tra-balho sempre foi muito ligado ao teatro.

    RUY. Antes de Calabar, a gente se preocupou mais com a traio; parece que Calabar veio com a preocupao da traio. E a traio um negcio que a gente pode bater em muitos nveis. Pode bater num nvel inteiramente meta-fsico. Pode bater num nvel inteiramente circunstancial. Pode bater num nvel ideolgico. E evidente que, para ns, no interessa discutir a traio de uma forma absolu-ta, porque a traio um tema filosfico. Eu acho que a traio um negcio que est patente no mundo moderno: o conceito de traio, o conceito de fidelidade. Voc pode citar Jane Fonda, pode citar a fidelidade ao poder do Ni-xon (que no quer dar as fitas). Onde que est a traio, no eleitorado dele, ou no?

    CHICO. Inclusive me lembro de que nessa poca eu estava escrevendo. A gente comeou a escrever. Tinha aquele epi-sdio da Jane Fonda, por exemplo, que a gente comentou, at: voc no vai colocar a Jane Fonda na pea, vai? Mas, mais ou menos, foi isso: um senador, no sei que, e quise-ram processar a Jane Fonda por crime de alta traio.

  • RUY. No comportamento dela em relao guerra do Viet-n, no ? Ento a traio... ou a fidelidade, hoje, um negcio que voc encontra em todas as reas de comporta-mento. Se voc quiser debater num nvel at pessoal, voc encontra um conceito de traio. Ento, a partir da, colo-camos a matria. difcil, portanto, de ver a gnese da coisa: se a gente buscou Calabar para debater a traio, ou se o Calabar justamente nos proporcionou o debate. No , pois, uma idia primeira a partir da qual voc desenvol-ve. um conjunto de coisas. O que se debate tambm em Calabar, no explicitamente, mas obrigatoriamente, o conceito de Ptria. Porque coisa fundamental da poca. Quer dizer: naquela poca, tnhamos os brasileiros, os por-tugueses, os espanhis, os holandeses, aquela confuso toda. Havia uma srie de divises internas. Mathias repre-senta toda uma.

    De "Cala Boca, Brbara", entrevista de Chico Buarque e Ruy Guerra, editada pelo DCE-PUC, Rio de Janeiro, 1973.

  • Duas vezes Calabar (datas)

    Pim de junho de 1973: Chico e Ruy me procuram em So Paulo. Trazem o texto de Calabar e a proposta de assumir a direo do espetculo. J havia muitos anos de amizade antes disso, mas partimos para uma verificao cr-tica mtua: Chico e Ruy foram para o Teatro So Pedro assistir um espetculo meu, Frank V de Drrenmatt, enquan-to eu fui para o bar Riviera ler o texto deles. O acerto foi se-lado na Baica. A pea estava liberada pela censura federal desde abril. Nas semanas seguintes, fui para o Rio: acerta-mos os produtores, Fernando Torres e Fernanda Montene-gro, e todos juntos acertamos a equipe de produo.

    Dia 25 de julho conclumos os ltimos detalhes, marca-mos a estria para novembro. Em agosto iniciamos a fase de preparao e escolha de elenco.

    Em setembro e outubro ensaiamos em Ipanema. Dia 30 de outubro entramos no Teatro Joo Caetano, no

    Rio. Trecho de uma anotao de trabalho desse dia: "Mais notcias da represso: Fernando telefona de Braslia avisando que o texto est sendo revisado pelo SNI e o prazo para uma soluo indeterminado. Isso pode paralisar tudo. Fao uma reunio de urgncia, no Museu de Arte Moderna, com Chico e Ruy. Nossa deciso ir at o fim. Na pior das hipteses, fil-mar o espetculo. Proponho tentar uma encenao em Bue-nos Aires, provavelmente com Nacha Guevara. Telefonarei ao Boal para saber das possibilidades e para prevenir Nacha Volto para o teatro. Os maquinistas esto terminando o tra-

  • balho. Ensaio cinco horas. A linguagem visual do espetcul finalmente se define. A estrutura se mantm slida no novo espao. Praticamente todos os atores encontram a equivaln cia entre o que havia sido ensaiado na casa da Vieira Souto H um material fascinante para trabalhar nestes prximos dias. Mas o que me pesa na cabea a quase certeza de q U e este espetculo nunca ser visto por ningum."

    A agonia termina definitivamente dia 13 de novembro depois de fracassarem todas as tentativas dos advogados em Braslia e depois de termos sido proibidos at mesmo de do-cumentar o espetculo (apesar disso, os ltimos trs ensaios foram feitos praticamente de portas abertas e muita gente assistiu; mesmo sem luz e som instalados, tudo funcionava, ainda que o trabalho no estivesse efetivamente concludo-do ltimo ensaio, guardo uma imagem significativa: havia dois garotos vendendo balas e chocolates na platia...): "Pa-rar tudo, no h outra alternativa. Uma definio do gover-no frente cultura: censura econmica. Mandaram dizer que no h proibio: apenas o texto ficar quatro meses preso para reviso. A censura foi censurada, por ordens superiores. O ensaio para a censura no foi autorizado, j que a pea est 'avocada por instncia superior para reexame do texto*. A censur