Ariosto OrlandoFurioso

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Transcript of Ariosto OrlandoFurioso

  • Ludovico Ariosto

    ORLANDO FURIOSOCANTOS E EPISDIOS

    PEDRO GARCEZ GHIRARDIIntroduo, Traduo e Notas

    Edio Bilinge

    ILUSTRAES GUSTAVE DORE

    Ateli Editorial

  • Copyright 2002 (Traduo, Introduo e Notas) Pedro Garcez Ghirardi

    Ttulo do original italianoOrlando Furioso

    ISBN 85-7480-075-9

    As ilustraes de Gustave Dor foram retiradas da edio de 1894 editada em Milopela Fratelli Treves, Editori, exemplar do acervo da Oficina do Livro Rubens Borbade Moraes, a quem agradecemos aqui na pessoa de Claudio Giordano.

    Editor

    Plinio Martins Filho

    Direitos em lngua portuguesa reservados ATELIE EDITORIALRua Manuel Pereira Leite, 1506709-280 Granja Viana Cotia SPTelefax (11) 4612-9666www.atelie.com.br / e-mail: atelie_editorial@uol.com.br

    2002Impresso no BrasilFoi feito depsito legal

  • SUMRIO

    POESIA E LOUCURA NO ORLANDO FURIOSOPedro Garcez Ghirardi

    O Paradoxo do Orlando Furioso................................................................... 9Ariosto, seus Tempos e a Criao do Orlando Furioso...................................... 10Centralidade da Loucura no Orlando Furioso................................................ 14Loucura e Arte no Orlando Furioso ..............................................................23Os Debates sobre o Orlando Furioso ............................................................ 27Ariosto entre os Leitores de Lngua Portuguesa ......................................................... 33Ariosto em Portugus ................................................................................................41

    ORLANDO FURIOSO

    Canto I: Proposio Batalha dos Pireneus Fuga de Anglica Combate en-tre Ferra e Rinaldo Queixas de Sacripante Uma donzela o vence As fontes do dio e do Amor................................................................... 51

    Canto II: Combate de Sacripante e Rinaldo Aventuras de Anglica Rinaldovai Inglaterra Tempestade no mar Bradamante encontra o traidorPinabel, que a abandona em uma gruta ...................................................71

    Canto III: Uma feiticeira profetiza a descendncia de Bradamante e ensina-lhecomo libertar Rogrio ...............................................................................91

    Canto IV: Bradamante liberta Rogrio e aprisiona o mago Atlante Rogrio mon-ta no hipogrifo e some pelos ares Aflio de Bradamante Rinaldo naEsccia Comea a histria da bela Genebra.........................................113

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  • O R L A N D O F U R I O S O

    Canto V: A dama resgatada conta a sua histria Calnia de Polinesso contra a prin- 133cesa Genebra A inocncia da princesa submetida prova das armas ..........

    Canto VI: Concluso da histria de Genebra Rogrio viaja no hipogrifo e chega auma ilha misteriosa O cavaleiro Astolfo, transformado em mirto, avisa-odas ciladas da maga Alcina Rogrio atacado pelos monstros .......................157

    Canto VII: A seduo de Alcina Bradamante procura Rogrio Com a ajuda deMelissa e do anel mgico, Rogrio descobre a verdadeira aparnciade Alcina e foge ...............................................................................................177

    Canto VIII: Fuga de Rogrio e libertao dos prisioneiros de Alcina Rinaldo vai daEsccia Inglaterra Desventuras deAnglica na ilha solitria As vtimasda Orca Orlando, inquieto, sonha e sai em busca de Anglica....................199

    EPISDIOS

    Canto IX: Orlando vence o rei da Frsia e destri o arcabuz .........................................229

    Canto X: Anglica e a Orca...............................................................................................235

    Canto XI: Orlando vence a Orca......................................................................................237

    Canto XII: Orlando no palcio encantado ...................................................................... 239Canto XIV: A Fraude Rodomonte................................................................................ 247Canto XV: Os Novos Argonautas O invulnervel Orrilo ...........................................249Canto XVIII: Medoro procura o cadver de seu rei .........................................................253Canto XXIII: A loucura de Orlando ................................................................................ 255Canto XXXIV: As harpias na Itlia Astolfo na lua .....................................................259Canto XXXV: Quem roubou o juzo de Ariosto O outro lado da Histria ..............265Canto XLIII: A taa dos maridos trados.........................................................................267Canto XLVI: O navio de Ariosto ...................................................................................... 271

    Notas aos Cantos e Episdios.............................................................................................273

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  • POESIA E LOUCURA NOORLANDO FURIOSO

    Pedro Garcez. Ghirardi

  • Dire, d'Orlando in un medesmo trattoCosa non detta in prosa mai, n in rima:Che per amor venne in furore e matto,D'uom the s saggio era stimato prima...

    ARIOSTO, Orlando Furioso

    O PARADOXO DO ORLANDO FURIOSO

    J nos primeiros versos de seu poema, Ariosto anuncia que cantar o que aindaningum ouvira "in prosa mai, n in rima"; ou seja, que mostrar algum que semprefoi tido por muito sensato ("si saggio"), o paladino Orlando, dominado agora pelaloucura furiosa ("in furore e matto"). Assim, a loucura est presente desde a propo-sio do poema, ou melhor, desde o ttulo, cabendo-lhe o lugar central at mesmono conjunto dos quarenta e seis cantos do poema (ao enlouquecimento de Orlandose dedica o canto XXIII).

    Pode parecer estranho o que se acaba de dizer, tratando-se de poema visto comoum dos pontos mais altos da cultura renascentista italiana, ou seja, de uma culturaconsiderada eminentemente racional e equilibrada. Uma cultura que talvez algunsdefinissem como normal, dando a este ltimo termo o sentido pleno. De fato, apesardas recentes revises e contestaes, continua ainda difundida a viso que remontaa Burckhardt, ou seja, a viso do Renascimento como poca em que a reflexo levaao rigoroso respeito de normas ou modelos esteticamente consagrados, poca de

    1. Canto I, oitava 2. A partir de agora, nas citaes do Orlando Furioso, os algarismos romanos remetero aocanto e os arbicos oitava. A sigla OF, que indica o poema segundo a edio aqui seguida (Garzanti,Milo, 1974), s preceder tais indicaes em alguns casos, para maior clareza.

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  • O R L A N D O F U R I O S O

    observncia de padres, enfim, poca por excelncia clssica. Na obra de Ariosto,contudo, a loucura ocupa lugar privilegiado, e a presena do modelo de Virglio,embora freqente, fica limitada a figuras ou episdios, cedendo, na estrutura geral, retomada de temas e personagens dos cantares medievais. Estamos, portanto, dian-te de um grande poema renascentista que parece, pelo assunto, medieval, e, pela cr-tica da racionalidade, romntico. No de estranhar que semelhante poema tenha,desde o incio, causado perplexidade.

    De fato, desde j se pode observar que uma das primeiras reaes ao OrlandoFurioso, atribuda ao cardeal d'Este, a quem Ariosto dedicara o poema, considerou-o, precisamente, obra de desvarios ou loucuras (corbellerie). Estas mesmas corbellerie,entretanto, encantaram leitores voltados para o conhecimento racional, como Ga-lileu, ou at racionalistas, como Voltaire. Assim, o poema de Ariosto cria um para-doxo que se impe ateno, principalmente hoje, quando, como se dizia, a prprianoo tradicional de Renascimento vem sendo repensada. Mas, antes de examinaresse paradoxo, convm dizer algo sobre o autor e a origem do Orlando Furioso.

    ARIOSTO, SEUS TEMPOS E A CRIAO DO ORLANDO FURIOSO

    O nome de Ludovico Ariosto est, ainda hoje, ligado ao da cidade de Ferrara,sua ptria adotiva. Mas o poeta nasceu em cidade vizinha, Reggio, em 1474. Muitocedo foi levado pelos pais para o centro poltico da regio, ento sede de esplndidacorte renascentista. Governada por uma das mais ilustres dinastias italianas, a casad'Este, Ferrara se havia tornado grande centro de cultura, graas ao mecenatismode seus duques.

    Preocupado com a subsistncia do filho (depois do qual viriam mais nove), opai o levou a estudar Direito. Os interesses de Ludovico, porm, eram outros. Sen-tia-se atrado pelos espetculos de teatro, patrocinados pela corte, onde se retoma-va a representao dos clssicos. Passou tambm a freqentar os cursos de um hu-manista, o agostiniano Gregrio de Espoleto. Foi esse mestre que o iniciou na culturaclssica, em particular na lngua latina, em que Ariosto comps poesias e da qualtraduziu comdias, cuja encenao dirigiu. Mas a morte do pai, em 1500, obrigou-o a interromper os estudos, por ter de assumir o sustento da me e dos irmos, umdeles invlido. Iniciava-se para Ariosto um perodo de privaes e incertezas, do qualo tiraria, em 1503, o emprego oferecido pelo cardeal d'Este, irmo do duque AfonsoI. O reconhecimento do poeta pelo emprego, conseguido nesse momento aflitivo,assegurou a lembrana do nome de algum que no chegou a perceber o valor daobra que o livraria do esquecimento.

    Ambicioso e mundano, o cardeal Hiplito d'Este, ao contrrio de seus antepas-sados, era homem de escasso interesse pelas artes. Embora assumisse a seu servio umpoeta e diretor de teatro j bem conhecido, era para outras funes que o havia cha-

    po

  • O R L A N D O F U R I O S O

    mado. Funes que iam desde os servios de criado de quarto at a limpeza dasestrebarias da casa: "di poeta cavallar mi feo ", escreveu Ariosto em uma de suas Sti-ras z , as mais brilhantes do Renascimento italiano. Alm desses trabalhos havia ou-tros, como as misses de correio particular. Uma delas quase custou a vida a Ariosto.Foi quando viajou a Roma, a