Antonio Jose Saraiva - Iniciac§aƒo a€ Literatura Portuguesa - do Barroco ao...

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António José Saraiva - Iniciação à Literatura Portuguesa - do Barroco ao Pré-romantismo

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  • personagens orientais que servem de porta-vozes a tais ideias, cuja responsabilidade dificilmente o autor pode-ria assumir. Tal como no-los apresenta F. M. Pinto, esses orientais sao os verdadeiros civilizados e os europeus os verdadeiros barbaros.

    T oda uma serie de reportagens se escreveram para urn publico interessado nos desastres e aventuras da navega~ao e foram publicadas em folhetos de cordel. Em certas situac;oes sao apresentadas como testemu-nhos de casos comoventes e impressionantes, o mais celebre dos quais tambem foi relatado por Camoes n'Os Lusiadas e por urn poeta narrativo chamado Jeronimo Corte Real. Estes folhetos de cordel foram mais tarde coleccionados na Hist6ria Tragico-Maritima por Ber-~~~--Q.?.~-~s de BntO(l 735-1736)~-----------

    ~- ~. ~--- "" .. ---~---~ ... -~-----

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    6 0 apogeu da agudeza

    0 discurso engenhoso

    A palavra barroco e imprecisa porque designa estilos diferentes, conforme as regioes, as epocas e OS generos. 0 barroco iberico resulta de uma convergencia entre o es tiio . ;-~ escolastico (que permanece ate ao s"&uFo x"Vil:'I),"~~ ' ; ; u7l" subtileza conceptualL. e o estilo. _clissicA&eiW!iagj~inte, com os seus elementos d~cor~~vos, senten~as antigas, exemplos e entidades mttologt-cas. Estas correntes convergem num discurso a que interessava menos a representa

  • Esse ou agudeza, c~o principal teorico foi em meados do seculo XVII o aragones Baltasar

    racian (Agudeza y Arte de Ingenio), ~a:'~_ava-se delibera-damente do real, ora pqr jog?~ de _cqp.c;;~itos ~1!!.- ~~_..e

    ---conCfulam::Qi.Ladoxos_de_ . .lJm.l!_preten~;!,.Jogic~~a n~ .RaJ.~Y-~'!:s.. .C2 n!;e.p ti~mg), __ qr.a..p.o.r..efe.!tos _ _de.brilbo _.e_ -~Urp.res.a. resultant~ .d!:>k~~.2.L!:~ J.1uninns.os.fwltisroo.),.. De Camoes a Gongora mede-se o caminho percorrido nessa direcc,;ao.

    0 P.e Antonio Vieira (1608-1697) caracterizou dois aspectos dominantes deste estilo: urn e 0 caracter hiperbolico e o preciosismo das imagens:

    [ ... ]a motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipfcios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, etc.

    Outro aspecto dominante sao as proporc,;oes entre as frases, que podem ser simetricas ou contrastantes. E o chamado estilo em xadrez:

    Se de uma parte esta branco, da outra ha-de estar negro;!!.e de uma parte esta r!:!:E:z da outra ha-de estar_noite; se de uma parte dizem }!!:'(: da outr~ hao-de dize~ se de uma parte dizem desceu, da outra vao diz~u.

    0 jogo do escritor engenhoso consistia em obter, como diz Gracian, uma .sorrespondencia entre dois

    .!,Xlremos, ou R.alavras significativas, correspondencia que podia ser de analogia ou de contraste.

    _!:ra.:~~~~~ Rodrif@_~ (c. 1580-1621), imitador de Camoes, cultivou o estilo engenhoso nos seus ro-mances pastoris em castelhano, genero entao ni.uito em voga. Mas na Corte da Aldeia ( 1619) assull!~.lUP-P~~l

    . ri~gor_ mJ!i!:o mais moderado do 9,!:1.~ o ci tadq Baltas_:u.: Gra.c:!~n, __ aq!_!1irador, alias, desta obra. Os dezas-.,. __ , .. _____ ,._ ___ "_

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    seis dialogos doutrinais, em que se tratam varios temas, desde as formulas de tratamento ate a maneira decente de referir as pernas das senhoras, travam-se entre inter-locutores que parecem constituir uma academia litera-ria ainda nao institucionalizada.

    Merece ser ref(jtido, como urn dos mais notaveis escritores enge$osos>>, Tome Pinheiro da V~a. (c. 1570-1656), autor de Fastiginia [sic], urn diario-carta de uma viagem a corte de Filipe Ill, em Valhadolid, que e urn dos melhores depoimentos antropologicos sobre os Portugueses, e tambem de al~ns textos de ficc,;ao reunidos sob o titulo de Novelas. E urn dos raros humo-ristas portugueses e urn prosador cheio de surpresas e achados. Q.s compatriotas do autor aparecem descri-tos, tal como os veem as damas castelhanas, como taca-nhos, bisonhos, saloios e merecedores de que as mulheres lhes ponham cornos. Trac,;a vigorosamente o contraste entre a melancolia saudosista portuguesa e ' \ a alegria castelhan~.~am OS Portugueses a cac,;a de - J' 'iun~ melancolia, e-sonham os Castelhanos de noite ~Gino poderao lev'.lr urn b~a. As sessoes privadas em que as damas contam anedotas de portugues ainda hoje provocam o riso.

    Outra obra assinalavel da prosa desta epoca e ~ de Furtar, de autor mal identificado. Trata-se de uma --~trra;"Visando a corrupc,;ao em todos os escaloes da sociedade. 0 seu caricter engenhoso esta patente nos titulos dos seus capitulos: unhas pacificas, unhas militares, unhas temidas, unhas timidas, unhas disfarr;adas, unhas maliciosas, unhas descuidadas, unhas sabias, unhas ignoran-tes, etc. A obra foi semiclandestina, embora dedicada ao rei D. Joao IV (datada de Amsterdao, 1652, mas real-mente impressa em Lisboa) e, para aumentar o seu escindalo, atribulda ao P.e Antonio Yieira .

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  • Pela vastidao e predicados da obra, este e D. Francisco Manl1~~ q~ M.elo sao os dois gran des escritor~S'aa epoca.

    Encontraram-se na corte de Lis boa, a corte do recem-proclamado D.Joao IV, nascidos no mesmo ano (1608), vindos de dois polos e de dois mundos culturais muito dissemelhantes: Antonio Vieira, clerigo educado na Baia, a mais remota provincia portuguesa e a mais inculta, nessa epoca, de familia modesta, e D. Francisco Manuel de Melo, vindo de Madrid, a mais requintada corte do mundo hispanico. U m tinha uma cultura de derigo medieval, a que nessa epoca e Iugar os jesuitas podiam dispensar nas suas aulas de forma~ao mis-sionaria; outro, as artes e maneiras cortesas com que se formava urn fidalgo de alta linhagem.

    0 P. e Antonio Vieira

    0 P.e Antonio Vieira prega ao modo tradicional, como ja pregava Santo Antonio de Lisboa, no seculo XIII. 9 serm_ao _co.us~ .. tia.. .~m interpretar o_..textQ sagrado ci--!~do ~.ill2e(,:a do s~.rm..[Q. Segundo a exegetica tradi-cional, ? -~~?':~

  • se manifestar. Par isso tambem ela da ensinamento com a palavra de Deus:

    _ Co"_lo h~~e ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas sao mmto dtstmt~s e m_uito claras [ ... ] E nem por isso temais que_ parec;a o estllo batxo: as estrelas sao muito distintas e mmto claras e altissimas.

    Par estes metodos verbais tratou Vieira OS proble-mas portugueses mais prementes do seu tempo, que e o tempo da guerra da mdependencia. Para ele as pala-vras nao eram urn instrumento para descobrir uma ver-dade ao entendimento, mas para motivar a vontade

    ~uma a~~ao. A ~ais famosa cria~ao da sua imaginac;ao e ~ teona do qumto_ imperio do mundo, sob a egide do ret de Portugal,. qumto imperio que seria inaugurado com a s~gtmda :nuda de Cristo a Terrae com a chegada do messtas d~s JUdeus: 0 qual seria D. Joao IV, a quem estava perfettamente destinado derrotar definitiva-mente ~s Turcos e reconduzir os judeus dispersos no

    mu~do a sua terra de origem, a Palestina. 0 ponto de parttda desta constru~ao eram as trovas do Bandana urn sapateiro de Trancoso contemporaneo de Gil Vi~ cente. Mas ja a Cr6nica do Imperador Clarimundo, de Joao de _Barros, apontava, como vimos, para uma monarquia umversal portuguesa. 0 quinto imperio tern a ver com a cr_enr;a n~ missao providencial dos Portugueses ( eqmvalente a dos Hebreus no seu tempo):

    ~ascer pequeno e morrer grande e chegar a ser homem. Por Jsso nos deu Deus tao pouca terra para o nascimento e tantas para a sepultura. Para nascer pouca terra, para morrer toda a terra. Para nascer Portugal, para morrer 0 mundo.

    . P: doutrin~ do quinto imperio, tal como e tratada par Vtetra, espectalmente na sua obra incompleta Hist6ria do

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    Futuro, tern urn lado pritico: obter o regresso a Portugal dos judeus fugidos e seus capitais. As circunstancias da conjuntura portuguesa, assim como a situac;ao dos indios no Brasil, foram par ele descritas com saliencia e realidade em varias cartas e relat6rios.

    A imaginac;ao verbal, e o estilo de pensar, com os seus paradoxos, aproximam o P.e Vieira de Fernando Pessoa; este chamou ao seu mestre .

    D. Francisco Manuel de Melo D. Francisco Manuel de Melo e um homem disperso

    em multiplas actividades e com tais e tao variados dotes que par isso mesmo nao se realizou plenamente. Apesar de uma vida de acr;ao intensa, como militar, diplomata e mundano, com projectos organizativos literirios e parti-cipac;ao em academias, deixou uma obra vastissima em portugues e em castelhano, repartida par todos ou quase todos OS generos cultivados na epoca, ate agora SO parcialmente publicados. Com razao disse de si mesmo:

    Quantas horas vivo como escrevo.

    Esta experiencia variada nao passa para as suas piginas de maneira concreta, confessional e imediata. Mas e filtrada par uma certa imagem mundana que o autor quer deixar de si e pelo discurso engenhoso com uma componente de humorismo discreto. Os anos de prisao em Portugal inspiraram-lhe urn soneto descritivo do seu triste calabour;o em que conclui:

    Sem amor, sem amigo, sem parente, Quem mais se d6i de v6s diz: Tal vida levo. Santa prol me Jaw

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  • E, tendo passado tres anos desterrado na Baia, refere as impressoes da terra numa breve frase lapidar:

    Paraiso de mulatos, purgat6rio de brancos, inferno de negros.

    Deixou centenas de Cartas Fmniliares, as quais, segundo ele diz:

    ( ... ]as mais foram escritas com sangue, enxutas com higri-mas, dobradas com singeleza, seladas pela desgrac;:a, levadas pela mofina.

    E e evidente, ja pelo estilo engenhoso desta frase, que as referidas cartas se distanciam da experiencia vivida para compor com ela uma imagem do autor.

    Como historiador, compos em castelhano a H4..toria . t/e los movimientos y separaci6n de Cataiia, de que foi pariiCipante, e em porfu"gues ~ l}:_f!_anaJ (entre outras obras incompletas). D. Francisco resume mu