anarquismo e anarquia - Errico Malatesta

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  • 1. Anarquismo e Anarquia Errico Malatesta Traduo: Felipe Corra Compilao: Vernon Richards

2. 2009 Projeto de capa: Luiz Carioca Diagramao: Farrer (C) Copyleft - livre, e inclusive incentivada, a reproduo deste livro, para ns estritamente no comerciais, desde que a fonte seja citada e esta nota includa. Fasca Publicaes Libertrias www.editorafaisca.net [email protected] [email protected] 3. Sumrio Anarquismo e Anarquia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4 Notas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11 4. O anarquismo em suas origens, aspiraes, em seus mtodos de luta, no est necessariamente ligado a qualquer sistema losco. O anarquismo nasceu da revolta moral contra as injustias sociais. Quando apareceram homens que se sentiram sufocados pelo ambiente social em que eram obrigados a viver, que sentiram a dor dos demais como se ela fosse a sua prpria, e quando estes homens se convenceram de que boa parte do sofrimento humano no conseqncia inevitvel das leis naturais ou sobrenaturais inexo- rveis, mas, ao contrrio, que deriva de realidades sociais dependentes da von- tade humana e que podem ser eliminados pelo esforo humano, abria-se ento o caminho que deveria conduzir ao anarquismo. Era necessrio encontrar as causas especcas dos males sociais e os meios corretos para destru-las. E quando alguns consideraram que a causa fundamental do mal era a luta entre os homens que resultava no domnio dos vencedores e a opresso e a ex- plorao dos vencidos, e viram que este domnio dos primeiros e esta sujeio dos segundos deram origem propriedade capitalista e ao Estado, e quando se propuseram derrubar o Estado e a propriedade, nasceu o anarquismo.1 Eu prero deixar de lado a incerta losoa e ater-me s denies comuns, que nos dizem que a anarquia uma forma de vida social em que os homens vivem como irmos, sem que nenhum possa oprimir e explorar os demais, e em que todos os meios para se chegar ao mximo desenvolvimento moral e material estejam disponveis para todos. O anarquismo o mtodo para realizar a anar- quia por meio da liberdade e sem governo, ou seja, sem organismos autoritrios que, pela fora, ainda que seja por bons ns, impem aos demais sua prpria vontade.2 A anarquia a sociedade organizada sem autoridade, compreendendo-se a autoridade como a faculdade de impor a prpria vontade. Todavia, tambm signica o fato inevitvel e benco de que aquele que melhor compreenda e saiba fazer uma coisa, consiga fazer aceitar mais facilmente sua opinio, e sirva de guia nesta determinada coisa aos que so menos capazes. Em nossa opinio, a autoridade no somente no necessria para a organi- zao social, mas, mais ainda, longe de beneci-la vive dela como parasita, im- pede seu desenvolvimento e extrai vantagens desta organizao em benefcio es- pecial de uma determinada classe que explora e oprime as demais. Enquanto h harmonia de interesses em uma coletividade, enquanto ningum deseja e nem tem meios de explorar os demais, no existem traos de autoridade. Quando, ao invs disso, h lutas intestinas e a coletividade se divide em vencedores e ven- cidos, surge ento a autoridade, que naturalmente usada para a vantagem dos mais fortes e serve para conrmar, perpetuar e fortalecer sua vitria. 5. 5 Errico Malatesta Por sustentarmos esta opinio somos anarquistas, e em caso contrrio, ar- mando que no poderia haver organizao sem autoridade, seramos autorit- rios. Porque ainda preferimos a autoridade que incomoda e desola a vida, desorganizao, que a torna impossvel.3 Quantas vezes temos de repetir que no queremos impor nada a ningum, que no acreditamos ser possvel nem desejvel beneciar as pessoas pela fora, e que tudo o que queremos que ningum nos imponha sua vontade, que nin- gum possa estar em posio de impor aos demais uma forma de vida social que no seja livremente aceita?4 O socialismo - e isso ainda mais verdadeiro no anarquismo - no pode ser imposto, seja por razes morais de respeito liberdade, seja pela impossibili- dade de aplicar pela fora um regime de justia para todos. Ele no pode ser imposto por uma minoria a uma maioria e tambm no pode ser imposto pela maioria a uma ou vrias minorias. E por isso que somos anarquistas, que desejamos que todos tenham a liber- dade efetiva de viver como queiram. Isso no possvel sem a expropriao daqueles que detm atualmente a riqueza social e sem colocar os meios de tra- balho disposio de todos.5 A base fundamental do mtodo anarquista a liberdade, e por isso comba- temos e continuaremos a combater tudo o que a violenta - liberdade igual para todos - qualquer que seja o regime dominante: monarquia, repblica ou qual- quer outro.6 Ns, ao contrrio, no pretendemos ter a verdade absoluta. Acreditamos que a verdade social, ou seja, o melhor modo de convivncia social, no algo xo, bom para todos os tempos, universalmente aplicvel ou determinvel de antemo. Ao invs disso, acreditamos que uma vez assegurada a liberdade, a humanidade avanar, descobrindo e realizando as coisas, gradualmente, com o menor nmero de comoes e atritos. Por isso, as solues que propomos dei- xam sempre a porta aberta a outras solues distintas e, esperamos, melhores.7 Aqueles que analisam minha pergunta: Como vocs faro para saber de que maneira se orientar, amanh, sua repblica?, opem-se, por sua vez, co- locando o seguinte: Como vocs sabem de que maneira se orientar seu anar- quismo?. E eles tm razo: so numerosos e extremamente complexos os fa- tores da histria, so to incertas e indeterminveis as vontades humanas, que ningum poderia colocar-se seriamente a profetizar o futuro. Mas a diferena que existe entre ns e os republicanos que ns no queremos cristalizar nosso anarquismo em dogmas e nem imp-lo pela fora; ser o que puder ser e se de- senvolver medida que os homens e as instituies tornem-se mais favorveis liberdade e justia integrais.8 6. Anarquismo e Anarquia 6 Temos em vista o bem de todos, a eliminao de todos os sofrimentos e a generalizao de todas as alegrias que possam depender das aes humanas; buscamos a paz e o amor entre todos os homens, uma sociedade nova e melhor, uma humanidade mais digna e feliz. Porm, acreditamos que o bem de todos no pode ser alcanado realmente sem o concurso consciente de todos; acredita- mos que no existem frmulas mgicas capazes de resolver as diculdades; que no h doutrinas universais e infalveis que se apliquem a todos os homens e a todas as situaes; que no existem homens e partidos providenciais que podem substituir utilmente a vontade dos demais pela sua prpria e fazer o bem pela fora; pensamos que a vida social toma sempre as formas que resultam do con- traste dos interesses materiais e dos ideais daqueles que pensam e reivindicam. E por isso, convocamos a todos a pensar e a reivindicar.9 O anarquista , por denio, aquele que no quer ser oprimido e que no quer ser opressor, aquele que deseja o maior bem-estar, a maior liberdade, o maior desenvolvimento possvel para todos os seres humanos. Suas idias e suas vontades tm origem no sentimento de simpatia, de amor, de respeito para com a humanidade: um sentimento que deve ser suciente- mente forte para fazer com que cada um queira o bem dos outros, assim como quer o seu prprio bem, renunciando as vantagens pessoais cuja obteno requer o sacrifcio dos outros. Se no fosse assim, por que o anarquista seria inimigo da opresso e no trataria, ao invs disso, de transformar-se em opressor? O anarquista sabe que o indivduo no pode viver fora da sociedade, na rea- lidade ele nem existiria, como indivduo humano, seno porque carrega dentro de si os resultados do trabalho de inumerveis geraes passadas, e aproveita durante toda sua vida a colaborao de seus contemporneos. O anarquista sabe que a atividade de cada um inuencia, de maneira direta ou indireta, a vida de todos, e reconhece, portanto, a grande lei da solidariedade que predomina tanto na sociedade como na natureza. E j que quer a liberdade de todos, deve necessariamente querer que a ao desta solidariedade necess- ria, ao invs de ser imposta e sofrida, inconsciente e involuntria, ao invs de ser deixada sua prpria sorte e ser explorada em vantagem de alguns poucos e em detrimento da maioria, torne-se consciente e voluntria e seja aplicada para o igual benefcio de todos. Ser oprimidos, ser opressores, ou cooperar voluntariamente para o maior bem de todos. No h nenhuma outra alternativa possvel; e os anarquistas esto naturalmente a favor, e no podem no estar, da cooperao livre e voluntria. No queremos aqui car losofando e falando de egosmo, altrusmo e complicaes similares. Estamos de acordo: todos somos egostas, todos bus- 7. 7 Errico Malatesta camos nossa satisfao. Porm, o anarquista encontra sua mxima satisfao na luta pelo bem de todos, pela realizao de uma sociedade na qual possa ser um irmo entre irmos, em meio de homens saudveis, inteligentes, instrudos e felizes. Por outro lado, quem puder adaptar-se, quem estiver satisfeito em vi- ver entre escravos e em obter lucro de seu trabalho no , e no pode ser, um anarquista.10 Para ser anarquista, no basta reconhecer que a anarquia um lindo ideal - coisa que, ao menos em teoria, todos reconhecem, incluindo os poderosos, os capitalistas, os policiais e, creio eu, at mesmo Mussolini. necessrio querer combater para chegar anarquia, ou ao menos se aproximar dela, tratando de atenuar o domnio do Estado e do privilgio, e reivindicando sempre mais liber- dade e mais justia.11 Por que somos anarquistas? Independente de nossas idias sobre o Estado poltico e sobre o governo, ou seja, sobre a organizao coercitiva da sociedade, que constituem nossa carac- terstica especca, e as idias referentes ao melhor modo de assegurar a todos o livre acesso aos meios de produo e a participao nas boas coisas da vida social, somos anarquistas por um sentimento que a fora motriz de todos os re- formadores sociais sinceros, e sem o qual nosso anarquismo seria uma mentira ou um contra-senso. Este sentimento o amor para com a humanidade, o fato de sofrer com sofrimentos dos demais. Se eu como, no posso faz-lo com gosto se penso que h gente que morre de fome; se compro um brinquedo para minha lha e me sinto muito feliz por sua alegria, minha felicidade logo se amarga ao ver que, diante da vitrine da loja h crianas com os olhos arregalados que se contenta- riam com um brinquedo que custa apenas algumas moedas, mas que no podem compr-lo; se me divirto, minha alma se entristece assim que penso que h infe- lizes companheiros que denham nas prises; se estudo ou realizo um trabalho que me agrada, sinto uma espcie de remorso ao pensar que h tantas pessoas que tm maior talento que eu e se vem obrigadas a perder sua vida em tarefas exaustivas, muitas vezes inteis ou prejudiciais. Claramente, puro egosmo, mas de um tipo que outros chamam altrusmo - chamem-no como quiserem - e sem o qual, no possvel ser realmente anarquista. A intolerncia frente opresso, o desejo de ser livre e de poder desenvolver completamente a prpria personalidade at o limite, no bastam para fazer de algum um anarquista. Esta aspirao liberdade ilimitada, se no for combi- nada com o amor pelos homens e com o desejo de que todos os demais tenham igual liberdade, pode chegar a criar rebeldes, que, se tiverem fora suciente, se transformaro rapidamente em exploradores e tiranos.12 8. Anarquismo e Anarquia 8 H indivduos fortes, inteligentes, apaixonados, com grandes necessidades materiais ou intelectuais que, encontrando-se por acaso entre os oprimidos, que- rem, a qualquer custo, emancipar-se e no se ofendem em transformar-se em opressores: indivduos que, sentido-se prisioneiros na sociedade atual, chegam a desprezar e a odiar toda a sociedade, e ao sentir que seria absurdo querer vi- ver fora da coletividade humana, buscam submeter todos os homens e toda a sociedade sua vontade e satisfao de seus desejos. s vezes, quando so pessoas instrudas, consideram-se super-homens. No se sentem impedidos por escrpulos, querem viver suas vidas. Ridicularizam a revoluo e toda aspi- rao futura, desejam gozar o dia de hoje a qualquer preo, e custa de quem quer que seja; sacricariam toda a humanidade por uma hora de vida intensa (conforme seus prprios termos). Estes so rebeldes, mas no anarquistas. Tm a mentalidade e os sentimentos de burgueses frustrados e, quando conseguem, transformam-se em burgueses, e no dos menos perigosos. Pode ocorrer algumas vezes que, nas circunstncias dinmicas da luta, os encontremos ao nosso lado, mas no podemos, no deve- mos e nem desejamos ser confundidos com eles. E eles sabem muito bem disso. Contudo, muitos deles gostam de chamar-se anarquistas. certo - e tambm deplorvel. Ns no podemos impedir ningum de se chamar do nome que quiser, nem podemos, por outro lado, abandonar o nome que sucintamente exprime nossas idias e que nos pertence lgica e historicamente. O que podemos fazer preve- nir qualquer confuso, ou para que ela se reduza ao mnimo possvel.13 Eu sou anarquista porque me parece que o anarquismo responde melhor que qualquer outro modo de vida social ao meu desejo pelo bem de todos, s minhas aspiraes para uma sociedade que concilie a liberdade de todos com a coope- rao e o amor entre os homens, e no porque o anarquismo se trate de uma verdade cientca e de uma lei natural. Basta-me que no contradiga nenhuma lei conhecida da natureza para consider-lo possvel e lutar para conquistar o apoio necessrio para sua realizao.14 Eu sou comunista (libertrio, claramente), estou a favor do acordo e creio que com uma descentralizao inteligente e uma troca contnua de informaes seria possvel chegar organizao das trocas necessrias de produtos e satisfazer as necessidades de todos sem recorrer ao dinheiro, que est certamente carregado de inconvenientes e perigos. Aspiro, como todo bom comunista, a abolio do dinheiro, e como todo bom revolucionrio creio que ser necessrio desarmar a burguesia desvalorizando todos os sinais de riqueza que possam permitir que pessoas vivam sem trabalhar.15 Frequentemente, dizemos: o anarquismo a abolio do gendarme, enten- 9. 9 Errico Malatesta dendo por gendarme qualquer fora armada, qualquer fora material a servio de um homem ou de uma classe para obrigar os demais a fazer o que no querem fazer voluntariamente. Certamente, esta denio no d uma idia nem sequer aproximada do que se entende por anarquia, que uma sociedade fundada no livre acordo, na qual cada indivduo pode atingir o mximo desenvolvimento possvel, material, mo- ral e intelectual; que encontra na solidariedade social a garantia de sua liberdade e de seu bem-estar. A supresso da coero fsica no suciente para que se chegue dignidade de homem livre, para que se aprenda a amar seus seme- lhantes, a respeitar os direitos dos outros da mesma forma que deseja ter seus prprios direitos respeitados, e para que se recuse tanto a mandar como a obe- decer. Algum pode ser um escravo voluntrio por decincia moral e por falta de conana em si mesmo, assim como algum pode ser tirano por maldade ou por inconscincia, quando no encontra resistncia adequada. Porm, isto no impede que a abolio do gendarme, ou seja, a abolio da violncia nas rela- es sociais, constitua a base, a condio indispensvel sem a qual a anarquia no pode orescer e, mais ainda, no pode nem sequer ser concebida.16 Visto que todos estes males da sociedade derivam da luta entre os homens, da busca do bem-estar que cada um realiza por sua prpria conta e contra todos, queremos corrigir esta situao, substituindo o dio pelo amor, a competio pela solidariedade, a busca individual do prprio bem-estar pela cooperao fraternal para o bem-estar de todos, a opresso e a imposio pela liberdade, a mentira religiosa e pseudo-cientca pela verdade. Portanto: 1. Abolio da propriedade privada da terra, das matrias-primas e dos ins- trumentos de trabalho - para que ningum disponha de meios de viver pela explorao do trabalho alheio -, e que todos, assegurados dos meios de produzir e de viver, sejam verdadeiramente independentes e possam associar-se livremente com os demais, por um interesse comum e conforme as simpatias pessoais. 2. Abolio do governo e de todo poder que faa a lei para imp-la aos outros: portanto, abolio das monarquias, repblicas, parlamentos, exrcitos, po- lcias, magistraturas e toda instituio que possua meios coercitivos. 3. Organizao da vida social por meio das associaes livres e das federa- es de produtores e consumidores, criadas e modicadas segundo a von- tade dos membros, guiadas pela cincia e pela experincia, livre de toda 10. Anarquismo e Anarquia 10 obrigao que no emane das necessidades naturais, s quais todos se sub- metem voluntariamente, quando reconhecem seu carter inelutvel. 4. Garantia dos meios de vida, de desenvolvimento, de bem-estar s crianas e a todos aqueles que so incapazes de suprir suas prprias necessidades. 5. Guerra s religies e todas as mentiras, ainda que elas se ocultem sob o manto da cincia. Instruo cientca para todos, at os nveis mais eleva- dos. 6. Guerra s rivalidades e aos preconceitos patriticos. Abolio das frontei- ras e fraternidade entre todos os povos. 7. Reconstruo da famlia, de tal forma que ela resulte da prtica do amor, liberto de todo lao legal, de toda opresso econmica ou fsica, de todo preconceito religioso.17 Queremos abolir radicalmente a dominao e a explorao do homem pelo homem; queremos que os homens, irmanados por uma solidariedade consciente e desejada, cooperem todos de maneira voluntria para o bem-estar de todos; queremos que a sociedade constitua-se com o objetivo de proporcionar a todos os seres humanos os meios necessrios para que alcancem o mximo bem-estar possvel, o mximo desenvolvimento moral e material possvel; queremos po, liberdade, amor e cincia para todos.18 11. 11 Errico Malatesta Notas 1Pensiero e Volont, 16 de maio de 1925. 2Pensiero e Volont, 1 de setembro de 1925. 3LAgitazione, 4 de junho de 1897. 4Umanit Nova, 25 de agosto de 1920. 5Umanit Nova, 2 de setembro de 1922. 6Umanit Nova, 27 de abril de 1922. 7Umanit Nova, 16 de setembro de 1921. 8Pensiero e Volont, 15 de maio de 1924. 9Pensiero e Volont, 1r de janeiro de 1924. 10Volont, 15 de junho de 1913. 11Pensiero e Volont, 16 de maio de 1925. 12Umanit Nova, 16 de setembro de 1922. 13Volont, 15 de junho de 1913. 14Umanit Nova, 27 de abril de 1922. 15Il Risveglio, 20 de dezembro de 1922. 16Umanit Nova, 25 de julho de 1920. 17Il Programma Anarchico, Bologna, 1920. 18Il Programma Anarchico, Bologna, 1920.